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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Xutos e Pontapés: "O Zé Pedro era até ao fim. Ficava zangado, deixava de nos falar, dizia: mas eu sou algum inválido?!” /premium

A vida pode ser sempre a perder, mas eles preferem torcer a quebrar. 40 anos de carreira, um disco novo e uma grande entrevista onde falam de saudades e dos altos e baixos de uma "vida malvada".

    Índice

“Falta ali o outro bacano.”

O desabafo ouve-se da boca de Kalú, baterista dos Xutos & Pontapés, após a primeira grande entrevista coletiva dada pela banda desde a morte de Zé Pedro, a 30 de novembro de 2017. Quando disse a frase, com um sorriso triste que denotava saudades do carismático guitarrista, Kalú tinha acabado de ser fotografado pelo Observador no estúdio da “Casinha”, o centro de operações em que os membros do grupo reúnem, discutem, ensaiam e gravam desde 2011, na zona industrial do Bairro da Junqueira, em São Julião do Tojal, perto de Loures. Quando o disse, olhava em particular para um canto da sala:

“A posição dele era aqui à minha direita, mesmo aqui ao lado da bateria. Esta era a mesa de monições dele.”

Foi no piso inferior ao dos estúdios, numa espécie de sala de convívio da “Casinha”, que a banda deu uma longa entrevista ao Observador. Entre sofás, cadeiras, mesas, televisão, máquinas de café, quadros na parede, guitarras e amplificadores junto ao chão, folhas com alinhamentos de concertos em cadeiras, um alvo para um jogo de setas e um pequeno pai natal a tocar bateria (“a mascote”) por cima do frigorífico, Kalú, Tim, João Cabeleira e Gui falaram de um percurso iniciado há 40 anos, do próximo disco Duro (que inclui colaborações com Carlão, Jorge Palma e Capicua e chega às lojas dia 25 de janeiro), da “vida malvada” (dura) de estrada, das ilusões e desilusões, dos ganhos e das perdas. E, é claro, inevitavelmente, saudosamente, de Zé Pedro.

O desabafo ouviu-se da boca de Kalú, mas poderia ter saído da boca de todos os outros. A perda de Zé Pedro, a segunda grande perda na banda depois da morte inesperada da manager, irmã de Kalú e “mãe” dos restantes “Xutos”, Marta Ferreira, em 2007, com apenas 44 anos, ainda pesa. No olhar, na voz e nas respostas a custo, mas sobretudo nos silêncios e nas hesitações.

Duro também é uma homenagem a Zé Pedro, que ainda gravou cinco temas e toca guitarra em outros dois, que haveria de querer que os quatro terminassem um disco ainda por ele começado, tornando-o o melhor já gravado pelos Xutos & Pontapés. É essa, pelo menos, a convicção partilhada por Cabeleira, Tim, Kalú e Gui, que depois de avanços, recuos e sobretudo sentimentos contraditórios, decidiram que continuariam porque “o Zé quereria” e “isso definiu tudo”. E se algumas letras de Duro cantadas por Tim, notas do saxofone de Gui e solos floydianos de Cabeleira são uma bonita homenagem, o rock continua presente e em força, como modo de resistência às adversidades. É ainda hoje estilo de vida, apesar das lágrimas, dos abraços e dos “gosto muito de ti” que não se coíbem de dizer uns aos outros. Gestos que são tão rock’n’roll como o cabedal. “E nisso o Zé Pedro era…”

Os Xutos & Pontapés apresentam ao vivo o disco Duro na sala Lisboa ao Vivo, dia 25 de janeiro e no Hard Club, no Porto, dia 1 de fevereiro

'Duro' será o próximo álbum dos Xutos & Pontapés, que acabam de celebrar 40 anos de existência (@ João Porfírio / OBSERVADOR)

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“Não havia nada, era tudo nosso. Podíamos fazer o que quiséssemos”

Faz este domingo 40 anos que os Xutos & Pontapés deram o primeiro concerto, na sala Alunos de Apolo. Com as histórias já contadas, o concerto transformou-se num acontecimento mítico. Como é que foi na altura?
Kalú
– Nos dias antes do concerto estava a capinar na tropa e a fazer pistas de obstáculos. Nesse próprio dia o Zé Pedro foi-me buscar ao quartel, vieram-me chamar, disseram-me “está um gajo esquisito à porta, cheio de alfinetes”. Eu tinha a vespa e nessa tarde fomos ensaiar. Foi a preparação para tocar à noite.

E como correu o concerto?
Kalú
– Foi rápido. Foram umas sete músicas em dez minutos.
Tim – Ou talvez umas quatro músicas em seis minutos.

Quem estava mais nervoso?
Tim
– O Kalu estava meio doente, estava com um braço a querer parar. Eu estava ao lado dele a ver o que se ia passar. O Zé Pedro estava do outro lado a tentar pôr o som na guitarra. O Zé Leonel fez a performance do costume a abrir. E depois saiu pela frente. Não tinha mais nada para dizer, foi-se embora, saiu pela frente.
Kalú – Quando ele saiu do palco apareceu o responsável. “Já tocaram?”, perguntou ele. E eu: “Já”. “Pensava que estavam a afinar”. E eu a pensar “deves ter tomado uma atenção…”
Tim – Mas nós fizemos as músicas direitinhas.

Quarenta anos depois, ainda ficam nervosos antes dos concertos?
João Cabeleira
– Eu fico. Fico sempre nervoso. Se não ficar é mau sinal.
Gui – Eu tenho só o meu nervo, mas é muito gordo.
Tim – Acontece sempre até porque em todos os concertos há coisas novas. Ou coisas que não sabemos, ou que não prestam.

João Cabeleira, o guitarrista dos solos virtuosos (@ João Porfírio / OBSERVADOR)

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Pouco depois tocaram no liceu D. Pedro V um concerto que também ficou na memória de quem o viu.
Tim
– Nesse tocaram uns putos antes de nós. Primeiro acho que eram os Raios e Coriscos, depois os Xutos & Pontapés e os Aqui d’El Rock, que eram os donos da aparelhagem. Eles já tinham o “Lisboa a Arder”.
João Cabeleira – Não, o “Lisboa a Arder” era dos Minas e Armadilhas.
Tim – Pois era… não me lembro da canção, mas a temática era a mesma. Bom, mas então, aconteceu o concerto dos Raios e Coriscos e ficámos de lado a ver, à espera de entrar. Nunca mais saíam do palco, mas estava tudo a correr bem. Entrámos nós, aquilo tinha umas 50 ou 60 pessoas e lá para o fundo estava uma pandilha de Almada. Uns cinco ou seis gajos que tinham vindo de lá. O speed começou a bater, lá para o fim arrancaram para cima do palco, subiram e houve um que se abraçou a mim, o Vítor. Os outros distribuíram-se pelo palco.
Kalú – Foi. Tiraram-me a bateria toda. E depois ainda me convidaram para ir partir montras para a Amadora.
Tim – O meu pai estava lá, acho que estava lá também a mãe do Zé Pedro.

O que é que ele achou?
Tim
– Ele disse algo como ‘não foi mau, sim senhor’. Mas depois foram muitas vezes os dois ao Rendez-Vous.

"No início não havia nada, era tudo nosso. Para onde quer que olhássemos, não víamos nada. Era essa a ideia que tínhamos. Podíamos fazer o que quiséssemos. "
Tim

Porque é que começaram a banda? O que é vos fez levar as coisas para a frente?
Tim
– Como não? Com aquela idade, como não? Não havia outra hipótese.
João Cabeleira – Comigo foi diferente porque quando entrei a banda já existia. Já tinha visto concertos dos Xutos e fiquei fascinado. E vi-os na fase em que eram um trio, o Kalú, o Zé Pedro e o Tim. O outro guitarrista [Francis] tinha saído. Vi o concerto no Rock Rendez-Vous em que tiveram uma série de convidados, depois outro numa coletividade qualquer. Na altura também tinha uma banda, mas que graças a deus acabou, aquilo não ia a lado nenhum. E eles convidaram-me. Para mim foi incrível.

Que perspetivas é que tinham no início?
Tim
– Toda a perspetiva do mundo. Não havia nada, era tudo nosso. Para onde quer que olhássemos, não víamos nada. Era essa a ideia que tínhamos. Podíamos fazer o que quiséssemos. Alguém depois disse ‘vai haver ensaios’. Nunca tinha tido ensaios regulares, tinha tocado com uns e outros. Quando de repente há ensaios, as coisas ganham outra dimensão. E logo a seguir houve logo concertos, o que tornou tudo ainda mais louco.
Gui – Eu nunca pensei muito em nada, nunca houve muito tempo para isso, as coisas foram correndo, foi tudo acontecendo. Eles tinham-me convidado para tocar o “Tão Fácil”, que só agora em 2007 é que foi gravado. Mas as coisas iam andando, quase de forma automática. Também era uma altura em que andávamos um bocadinho anestesiados. Eu principalmente. Também não trabalhava.
Kalú – Não eras massagista, na altura?
Gui – Fui mais ou menos. Mas depois deixei, não se justificava ter de me levantar tão cedo [risos].

7 fotos

“Um dia pensávamos seguir em frente, no outro sentíamos que não valia a pena”

Ainda nisto das datas redondas, passam 40 anos desde o primeiro concerto. Mas também passou um ano de uma publicação difícil no facebook. Escreveram na altura “hoje é um bom dia para olhar para a frente, os Xutos vão continuar, não é fácil, a ausência pesa toneladas, sabemos que vai ser diferente, esperemos que seja bom”. Mesmo assim é difícil imaginar o quão difícil foi. Qualquer decisão, continuar ou acabar, era difícil de tomar, não?
Tim
– Toda a gente sentiu que ao longo do processo estávamos a tentar habituar-nos à ideia. Mas foi-se criando a ideia, dentro de cada um, daquilo que podia ser melhor. Claro, podia depender dos dias. Um dia pensávamos que seguir em frente era o melhor caminho, no dia seguinte sentíamos que não valia a pena. Essa parte foi complicada, até estabelecermos uma vontade. Acabámos por chegar à conclusão que, no limite, o Zé Pedro quereria que continuássemos a tocar. Acho que foi isso que definiu tudo. Durante este último ano fomos muito acarinhados. Por toda a gente. Portámo-nos muito bem. Toda a gente se aguentou, não deixámos transparecer nenhum tipo de sentimento mais lamechas. E as pessoas perceberam isso e ajudaram com a sua parte. Não nos deixaram cair nessa tentação melancólica. E continuaram connosco. Pelo menos até agora valeu a pena.

"Em 2011 o Zé Pedro veio ter connosco, explicar que iria entrar numa situação de transplante, que havia perigo, que era uma situação de risco. Isso a certa altura para nós foi terrível, foi a primeira vez que nos confrontámos com aquela situação, que envolvia risco de vida"
Tim

Há tempos o Tim escrevia: “A sala de ensaios foi sempre o nosso coração, o sítio onde resolvíamos os problemas, inventávamos o futuro e foi o sítio que muitas vezes nos abrigou em tempo de incerteza”. Foi aqui neste sítio, a Casinha, que tomaram essa decisão de continuar?
Tim
– Foi exatamente aqui, onde estamos. Estamos aqui desde 2011. Logo ao início o Zé Pedro veio ter connosco, explicar que iria entrar numa situação de transplante, que havia perigo, que era uma situação de risco. Isso a certa altura para nós foi terrível, foi a primeira vez que nos confrontámos com aquela situação, que envolvia até risco de vida. Havia uma euforia em estar aqui, era tudo novo, tudo bom. As coisas foram correndo bem, tivemos momentos de enorme felicidade. Porque é aqui que nós vivemos.

Sobre o novo disco, quando é que surgiu o primeiro esboço daquilo que veio a ser o álbum?
Gui
– O primeiro single saiu no dia de aniversário em 2017, foi o “Alepo”.

Gui, o saxofonista do grupo (@ João Porfírio / OBSERVADOR)

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E surgiu aqui?
João Cabeleira
 – Essa foi com artefactos eletrónicos, depois foi transformado em Xutos.
Tim – Sim, quando nascem são mais músicas do que são canções. Só depois se transformam e têm direito a letra e a título e tudo isso. Mas muitas delas são durante muito tempo apenas músicas. É aquela, é a outra, é a deste, é a do outro, até se perceber para onde vai.

Outra coisa que me passou pela cabeça ao ouvir este disco e que é normal quando ouvimos os Xutos: há multidões que gostam das vossas canções, que as cantam de norte a sul, do princípio ao fim; mas não há muitas bandas rock que consigam ter esse efeito mobilizador, na verdade não sei se chegamos a ter alguma. A minha questão é se já pensaram sobre isso e a que conclusão chegaram: tem a ver com a qualidade dos músicos? Não há vontade em fazer canções rock com esta força, com esta mobilização?
Tim
– Eu sei lá da vida dos outros.
João Cabeleira – Da nossa parte fazemos o melhor que conseguimos, sabemos e gostamos.
Tim – E a nossa forma é o rock. Mesmo que possa haver qualquer tipo de devaneio de qualquer lado. Não recusamos cena nenhuma. Os adereços podem ir a sítios diferentes, mas isto é uma coisa rock. E muitas vezes é uma forma que tem os seus custos. Porque às vezes juntar os temas rock, com grandes malhas de guitarra, aos ganchos que deixam as pessoas presas a uma canção, isso é difícil. Porque as bandas estão muitas vezes à procura de aceitação e por isso podem facilitar um bocadinho, podem tornar-se um pouco mais pop aqui e ali. Por outro lado, às vezes as pessoas querem ser tão puras e duras que acabam por se afastar um bocadinho da hipótese que tinham de massificação. Mas o rock tem esse preço, já não é agora a música de massas.

"A 'Chuva Dissolvente' foi feita no carro. A 'Contentores' nem era para entrar no disco, era uma música arrumada numa gaveta. O 'Ai Se Ele Cai' para os produtores não valia nada”

Qual é o segredo para o conseguir fazer?
Tim –
É tocar. Podem chamar-lhe o que quiserem, eu acho que é vir para aqui, chatearmo-nos uns com os outros. Às vezes nem falamos, mas tocamos as músicas e aquilo no outro dia é outro dia e por aí fora. Há músicas de que gostamos e em que apostamos muito, mas no processo criativo raramente temos aquelas coisas do “isto é que vai render, isto é que vai ser”. Nunca houve essa preocupação. As coisas acontecem. A “Chuva Dissolvente” foi feita no carro.
Kalú – A “Contentores” nem era para entrar no disco. Era uma música arrumada numa gaveta. O nosso produtor, o Carlos Maria Trindade, é que queria mais uma canção. “Temos esta aqui, é uma chatice”.
Tim – E o “Ai Se Ele Cai”, que os produtores achavam que era a pior canção, que não valia nada.

Neste novo disco Duro têm uma canção com a Capicua (e o Jorge Palma), têm um tema com Carlão. Kalú, o percurso do Fred (Ferreira, baterista que toca com os Orelha Negra, com a Banda do Mar e com Slow J, filho de Kalú) tem alguma influência nesta abertura a outros géneros musicais? Ou isso sempre fez parte dos Xutos?
Kalú
– Sempre fui muito ligado ao hip-hop. As primeiras gravações que o Boss AC fez foi em minha casa. Sempre fui dado ao funk, sempre gostei muito do Prince.

“Aquele corpo tão fino
o choque não suportou
a voz é só um murmúrio
que o vento já levou
e a sombra daquela estrela
ficou mais leve e voou”

(“Mar de Outono”, Xutos & Pontapés)

Há letras neste disco que associamos de imediato ao Zé Pedro. Algumas letras foram pensadas como uma homenagem?
Tim – Não foram pensadas porque não penso muito as letras, resultam de correntes de inspiração, tal como acontece, por exemplo, com os solos do João [Cabeleira]. Muitas vezes a inspiração surge porque estamos num determinado sentimento e as coisas aparecem. Todas essas frases e outras não foram escritas para dizer nada em específico, não tinham um objetivo claro e definido. Foram escritas porque se sentiu aquilo. O Zé Pedro ainda tocou na “Mar de Outono”.

Há algum tema que agora seja mais difícil de tocar?
Tim
– A “Quando eu Morrer” vai ser difícil voltar a tocar. A “Morte Lenta”, também. A “Para Sempre” também tem sido muito difícil, não sei se vamos conseguir continuar a tocar. Queremos continuar a tocar coisas como o “À Minha Maneira”. O “Maria” agora também é capaz de levar uma interrupção…

Como é que é tocar o “Homem do Leme” sem ele?
Tim – Epá, “O Homem do Leme” é “O Homem do Leme”, é uma coisa que nos ultrapassa já um bocado.
Kalú – A gente não tem mão naquilo, pá.

“O prof. Marcelo disse no dia do funeral que tinha de se fazer uma homenagem”

Houve também um concerto no Rock in Rio…
Tim
– Esse sim.

É um sítio que está muito ligado à história dos Xutos e Pontapés.
Tim – E era um sítio de que o Zé Pedro gostava muito. Ele adorava o Rock in Rio, adorava aquilo tudo. Nós todos adorávamos, mas ele tinha aquela ligação de ter ido lá fazer programas e transmissões, de depois ter ido lá pôr música de dança e tocar com outras pessoas, ser lá residente e tal.

Tim, o letrista, compositor, baixista, guitarrista e cantor (@ João Porfírio / OBSERVADOR)

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Estiveram no concerto o primeiro-ministro, o Presidente da República e outros convidados. Receberam alguma mensagem que vos tenha marcado especialmente nesse dia? Seja de alguma dessas pessoas ou de fãs e amigos.
Tim
– A mensagem era sempre a mesma:  não parem. Toda a gente nos disse isso.
Kalú – Quando se ouviu o “Maria” começou a chover copiosamente. E alguém me disse que parecia que o céu estava a chorar. Parece que foi de propósito.
Tim – Isso foi uma coisa que se ouviu, sim. Mas a conversa foi sempre a mesma. Saí de lá, acho, com uma miúda pequenina que me levou. Só depois quando cheguei cá abaixo é que percebi que era a Raquel Tavares, que estava a dizer-me o mesmo que me tinha dito o professor Marcelo e toda a gente: por favor não parem, não acabem. O Marcelo Rebelo de Sousa foi quem no próprio dia do funeral do Zé Pedro me disse que tinha de se fazer uma homenagem. Tínhamos estado a falar antes com a Roberta [Medina], do Rock in Rio, também no mesmo sítio, e também ela disse que tinha de fazer-se uma homenagem. Juntámos as duas coisas e não fizemos muito mais. O Marcelo é o Marcelo e o António Costa é nosso conhecido desde os tempos em que era vereador da juventude em Loures, de nos levar a tocar nas festas dali. Grande parte dessas pessoas é malta do nosso tempo.

Depois da homenagem dos Metallica, que tocaram a “Casinha” em Lisboa, disse que ainda queria descobrir como é que se tinham lembrado daquilo, quem é que tinha sugerido, para poder agradecer a quem falou com eles. Já sabe e já agradeceu?
Tim
– Já sei, já. Não posso dizer tudo porque não me lembro bem dos nomes, mas sei que há um jornalista que é fã dos Metallica e mantém uma relação de amizade com o [Robert] Trujillo. O Trujillo [baixista dos Metallica] veio para cá uns dias antes, quando vieram ensaiar. Mas já na altura anterior em que cá tinham estado, no verão do ano anterior, tinham estado à conversa os dois. Eles ultimamente tocam uma música local em todos os sítios onde vão. Tocaram por exemplo a “Take On Me” dos A-ha na Noruega. Cá, acho que iam tocar outra coisa qualquer nossa. “Vida Malvada”, talvez. O tal jornalista é que lhes disse: essa é gira, mas se é para tocar Xutos toquem antes a “Casinha”.
Kalú [sorridente] – É tipo o hino nacional.

“Houve uma altura complicada. Durante meses ninguém falava com ninguém”

Bandas que aguentam 40 anos não são assim tantas.
Tim
– Mas vão ser mais.

Achei uma coisa curiosa: num texto para o Expresso em que recordava dez momentos decisivos dos Xutos & Pontapés, o Tim terminava com a expressão “a amizade”, seguida de um ponto de exclamação. Foi isso que vos aguentou tantos anos juntos?
Kalú
– É, porque isto é duro. Acho que a amizade é o ponto mais forte da malta. Se não houvesse, isto não se aguentaria assim.

Kalú, o homem da bateria (@ João Porfírio / OBSERVADOR)

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Como é que se consegue manter essa amizade durante 40 anos, com tantas horas de convivência semanal, tantas obrigações profissionais, tanto tempo juntos?
Gui
– Com paciência [riso geral]. É uma ciência, é!
Kalú – Sabendo ceder nas alturas certas.
Tim – É aquela coisa óbvia: toda a gente sabe que o bem comum é mais importante do que o bem particular. Essa ideia sempre existiu e sempre motivou tudo o que aconteceu nos Xutos. Mesmo as decisões dos Xutos que parecem pessoais foram sempre tendo a outra coisa em vista.

Os projetos paralelos que foram tendo durante estes anos foram benéficos para isso, para fazer pausas e voltar à banda menos desgastados?
Tim
– Acho que sim. Às vezes serviu para nos manter mais refrescados, mais aliviados. Outras vezes serviu para olharmos para o que temos aqui e perceber que isto é melhor do que o que há lá fora, mesmo gostando muito do resto. Para sabermos dar valor ao que temos dentro de casa às vezes é preciso sair. Depois, a nível pessoal, para mim esses projetos tiveram a ver com o convívio e com trabalhar com um grau de responsabilidade muito repartido, por exemplo na Resistência. Parece uma coisa mais levezinha.

Creio que o Zé Pedro dizia o mesmo sobre os Ladrões do Tempo [outra banda de que fazia parte].
Tim
– Com certeza.

Quem já vos viu nos bastidores garante que isto acontecia: antes dos concertos, juntavam-se todos, abraçavam-se como se fossem uma equipa de futebol, muito próxima. Não sei se ainda acontece.
Tim – Sim, sim.

A Ana Cristina Ferrão [autora da biografia dos Xutos & Pontapés “Conta-me Histórias”] também já garantiu uma vez que eram muito chorões quando estavam mais alegres, com um copo a mais. Acontecia chorarem, abraçarem-se, dizerem que gostavam muito uns dos outros. [riso geral]
Tim
– É verdade, é.
Gui – Nesse aspeto há pessoal pior.

Ela lembrava-se de uma situação em específico, salvo erro no Redondo.
Tim
– No Redondo, sim. Sei lá, noutra terra lá de cima perto da Póvoa de Varzim, também aconteceu.

Ainda acontece muitas vezes, dizerem aos outros ‘gosto de ti’?
Tim
– Nisso o Zé Pedro era…
Gui – Mas costumamos, sim.

Os Xutos & Pontapés no estúdio da "Casinha", o centro de operações para ensaios, gravações e reuniões onde a banda passa muitas horas semanais ( @ João Porfírio / OBSERVADOR)

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A altura mais difícil deste percurso foi quando voltaram do Brasil, depois das gravações do disco Gritos Mudos, antes do álbum Dizer Não de Vez?
Tim
– Essa primavera-verão [de 1990] foi muito estranha, muito complicada. Aquilo começa com uns concertos espetaculares em França com os Mano Negra [grupo de Manu Chao], em que estava tudo a correr bem. Depois voltamos para Portugal todos contentes com os Mano Negra atrás, vamos diretos ao Porto e a primeira coisa que vejo quando entro no Porto, naqueles viadutos da cidade, é cartazes dos Xutos para concertos. Cartazes pretos e com um X vermelho, exatamente iguais aos que tinham estado na Parede seis meses antes, para outro concerto qualquer. Aquilo tinha sido tudo feito em cima do joelho — e começou logo mal, com dois concertos, um para 400 pessoas e outro para 60. Os Mano Negra pensavam: isto é que é a banda…?

Aconteceram uma série de coisas estranhas. Fizemos também uma série de anúncios estranhos para a Sumol, para aqui e para ali. De repente o disco [Gritos Mudos] sai, temos uma crítica no Blitz que nos compara ao Marco Paulo. E no meio desta grande confusão, desta cegada toda, aparece a história do outro que nos andava a roubar dinheiro, ou lá o que foi [alegadamente um desfalque feito por um antigo manager, num valor de 15 a 20 mil contos, em 1990]. De repente, os Xutos param de tocar, puxam o travão de mão.
Kalú – Inspeção das finanças, uma grande confusão…

Chegaram a ponderar acabar?
Tim
– Pois, chegou uma altura em que estávamos a olhar uns para os outros, sem saber o que fazer.
Kalú – Houve ali um afastamento durante uns meses em que ninguém falava com ninguém. Mas lá combinámos, encontrámo-nos e percebemos que tínhamos coisas para fazer.

Foi o Kalú que assumiu a marcação desse encontro, não foi?
Kalú
– Fui um bocado o impulsionador, mas poderia ter sido outro qualquer. Estávamos todos meio desanimados, mas lá começámos a juntar-nos. Fomos para Sintra, conversámos imenso, chorámos imenso, dissemos muito que gostávamos uns dos outros. Foi uma espécie de reunir das tropas. Tínhamos um contrato com a Polygram [hoje, Universal] para resolver, gravámos um disco que era para ser duplo mas que acabou por originar dois discos [Dizer Não De Vez e Direito Ao Deserto]. O “Lisboa, a Magnífica” apareceu nessa altura, porque este gajo [olha para Tim] ia para casa, nunca ficava em Sintra. Ia-se embora e via o dia a nascer.

Os Xutos & Pontapés num concerto em Moscavide, em 1987, ano em que editam um dos seus discos mais importantes e aclamados pelo público, 'Circo de Feras' ( @ F. Pedro Lopes)

F. Pedro Lopes

Falavam na crítica do Blitz ao Marco Paulo e o Tim também já falou de como nessa altura “apareciam novas bandas e era mais apetecível falar da novidade”. É por causa do cansaço que se vai criando entre bandas e público e bandas e media ao longo dos anos que não há mais Xutos & Pontapés, mais bandas com grande dimensão a resistir tantos anos?
Tim
– É difícil… imagina que o Kalú em vez de ter dito “vamos lá fazer qualquer coisa” tinha dito o que se calhar estava na cabeça de todos, o sentimento aqui dentro, que era ‘olha, estou-me a borrifar para isto porque a culpa foi tua, que fizeste isto’. E o outro diria que não, que a culpa era do outro… É a coisa mais natural do mundo que em situações de crise as pessoas andem à guerra umas com as outras, chamem nomes umas às outras e depois se arrependam. Só que isso às vezes não tem retorno. Aqui não aconteceu, mas foi muito complicado. Também aprendemos uma coisa na altura: as bandas crescem, têm o seu sucesso e as suas coisas. E depois são um bocadinho como os suflés: arrefece, vão para baixo…
Kalú – Vínhamos ali de uma altura, com o Circo de Feras, o 88, o triplo Ao Vivo, a “Casinha”… toda a gente queria malhar na malta. Acho que a malta ficou um bocado bêbada com o sucesso…
Tim – E não havíamos de ficar? Éramos novos e aquilo era sucesso à séria. Tínhamos direito a tudo, foi bom. Mas depois aprendemos, vimos como é que as coisas são. As expectativas que temos não coincidem com o que a realidade apresenta. Lembro-me de concertos em que poderíamos ter 3000 pessoas e só estavam 600 ou 800. E foram essas 600 ou 800 que fizeram o núcleo duro de quem ouviu o Dizer Não de Vez e que nos deram força.

No vosso caso parece ter sido através dos concertos que deram a volta a esse período. E mesmo hoje pouca gente ficará indiferente a um concerto dos Xutos & Pontapés, conheça bem a banda e os discos ou não conheça, tenha 20 anos ou 50.
Tim
– A banda estava a lidar com aquilo com atitude. Era o que se dizia, que era preciso ter atitude, e a nossa passava por tocar e fazer o melhor possível, sempre. Nem tínhamos muitas coisas que hoje são referidas para se falar de grandes espetáculos: pessoas a cantar, as palmas, as ‘ondinhas’. Muito longe disso. Só ter aquelas pessoas atentas do princípio ao fim, poder tocar e apresentar trabalhos novos já nos deixava felizes.

"Ao fazer aquilo que fazíamos estávamos a revoltar-nos contra o marasmo em que se vivia, a situação de desilusão, de pobreza, de burrice, de pessoas analfabetas, de tudo o que havia nessa altura. E, principalmente, contra não se sentir na altura grande hipótese de futuro. Isso era um terreno fértil para soltar a raiva, nossa e do resto da malta toda"
Tim

Os GNR há tempos disseram numa entrevista ao Diário de Notícias: “As coisas andaram para trás. O que nós combatíamos está aí e tornou-se moda”. No vosso caso, aquele rock ou punk inicial de combate, numa época de juventude, de rebeldia, era contra quem? Contra quem ou contra o que é que se revoltavam?
Tim
– A ideia que tenho é que ao fazer aquilo que fazíamos estávamos a revoltar-nos contra o marasmo em que se vivia, a situação de desilusão, de pobreza, de burrice, de pessoas analfabetas, de tudo o que havia nessa altura. E, principalmente, contra não se sentir na altura grande hipótese de futuro. Isso era um terreno fértil para soltar a raiva, nossa e do resto da malta toda. Às vezes podíamos assumir aquela coisa do fascista ou do capitalista, mas acho que as pessoas escreviam sempre numa revolta pelo marasmo.
Gui – E tínhamos muita inspiração das coisas lá fora, que ouvíamos. Os Clash e essa malta — identificávamo-nos com tudo o que eles falavam.
Tim – Mas nunca fomos daqueles que faziam concertos dos punks contra os skinheads. Embora não gramássemos muito os skinheads, nunca entrámos nesse tipo de confronto tribal. Poderia ter acontecido.

Esse lado de combate e crítica não se mantém, ainda hoje, aqui e ali? Por exemplo na canção “Alepo” dão voz às palavras da Bana al-Abed, uma menina síria de nove anos…
Tim
– Sim, da Bana. Há bocadinho falei das oportunidades de comunicação e aqui é igual: faz-se uma música, desenvolve-se uma parte do instrumental, há uma parte que gostamos mais, outra que gostamos menos. Depois tenho de pensar um bocadinho no que é que vou dizer, porque não trabalhamos como uma parte das bandas que têm uma letra, começam a cantar e compõem música para a letra. Ao fim destes anos, há certas formas de falar que me são mais favoráveis e fáceis. Coisas como o “Alepo”, o “Salve-se Quem Puder”, o “Lagarteiro”, só não faço mais para não os chatear [aos outros elementos]. Até poderia ir muito por esse lado, mas acabo por escrever mais sobre o dia-a-dia, acontecimentos diários. Neste caso tinha uma oportunidade de comunicação e vendo a história da Bana, tudo o que se tem passado, pensei: porque é que não posso pegar nisto e fazer um jornal de parede, “pinchar” isto e dar-lhe voz?

“O concerto no Coliseu foi uma das últimas teimosias do Zé”

Falámos do concerto do Rock in Rio e do concerto do Super Bock Super Rock, ambos no ano passado. Outro concerto que muita gente recordará sempre é o concerto no Coliseu dos Recreios, em 2017, no final de uma digressão complicada. O último concerto do Zé Pedro. O que é que vos passava pela cabeça nesse dia, depois das dificuldades que tiveram para fazer essa digressão, com a debilidade física dele?
Tim
– Não sabíamos se seria possível fazer aquele concerto.
Kalú – A malta não queria mesmo fazer aquele concerto.
Tim – Não queríamos, aquilo já foi uma das últimas teimosias do Zé. Tivemos aqui pegas grandes, porque havia concertos como os de Toronto e Luxemburgo em que ele ficou em terra. Tudo o que envolvia viagens [mais longas] ficou de parte. Mas ele não estava nada nessa, ele era até ao fim. E ficava zangado, deixava de nos falar, olhava para o lado, ficava furioso com isso.
Kalú – Não lhe podíamos dizer nada….
Gui – Ficava lixado quando queríamos chegar-lhe a cadeira [em que chegou a tocar] para a frente, para ele se sentar. Dizia logo: “Sou algum inválido ou quê?!”
Tim – Exatamente, havia essa postura. E pronto, pensámos em não fazer o concerto.

Foi só por causa dele que o fizeram?
Tim
– Foi, foi.
Gui – Foi terrível. Tocámos, ainda conseguimos cumprir…
Tim – Tudo!

E depois aquele momento do público a gritar o nome dele, como é que se vê aquilo a partir do palco?
Tim
– Epá, já viste? Só que depois há o “depois”. Ali estamos no palco, a coisa passa, e depois?

Entraram em palco a querer despachar o concerto?
Tim
– Não, entrámos com vontade de fazer tudo direitinho e estar sempre com um olho no Zé Pedro, sempre com muita atenção. Porque sabíamos que ele estava completamente fragilizado…

O pior foi chegar ali, não?
Tim
– O pior foi a semana antes, ver a pessoa a querer fazer e ver como é que ele estava. Ficas dividido entre dizer “vai para casa, esquece” e não dizer.

Mas como é que se consegue dizer isso?
Tim
– Pois, então?

Ele terá percebido que ia ser o último concerto?
Tim
– Acho que ele nunca quis pensar nisso.

E vocês?
Tim
– Nós também não. [silêncio]

Algumas pessoas ficaram impressionadas com o facto de o Tim ter dado um concerto com a Resistência no Algarve, em Portimão, poucas horas depois do funeral do Zé Pedro. Quis dar o concerto, teve de o dar, como é que foi?
Tim
– Esse concerto foi daquelas coisas que ainda bem que aconteceu, por um lado, e por outro…
Kalú [vira-se para Tim] – Lembro-me de falar contigo e dizer: que sorte tens em tocares hoje à noite. Ainda bem, quem me dera…
Tim – Quando tocaram a “Não Sou o Único” foi uma desgraça. Mas foi o que o Kalú disse, foi uma maneira de me distrair completamente. O público foi muito bom, não fez nenhuma palermice. A sala estava boa, a Resistência tocou bem, esteve tudo tranquilo, com toda a gente a ser muito simpática para mim. O melhor sítio para estar era ali.
Kalú – Em vez de um tipo ir para casa…

"Já não queremos fazer digressões daquelas com 100 concertos. É um disparate"
Kalú

40 anos depois, um disco novo e concertos em vista. Como é que veem o futuro dos Xutos & Pontapés? Planeiam manter o ritmo de digressões e concertos, de edições de discos?
Tim
– Isso depende sempre e fundamentalmente da solicitação. Se as pessoas quiserem, estamos lá ou discutimos se vamos ou não, por um partir a perna ou por o outro estar mais cansado. Mas se não nos convidarem não vamos de certeza. Depende sobretudo da solicitação.
Kalú – Mas também já não queremos fazer digressões daquelas com 100 concertos. Já é um disparate.
Tim – Principalmente porque o tipo de espetáculo que fazemos não aguenta 100 datas, nem todos os espaços têm condições para ele. Mesmo este ano, se quisermos fazer 40 concertos estamos a pensar em diversificar, fazer algumas coisas mais pequenas. Embora possamos fazer 40 espetáculos semelhantes, era engraçado fazer diferentes tipos de espetáculos durante o ano.

Poderá haver alguma coisa acústica?
Tim
– Poderá, poderá. Temos convites também para outras coisas no outono e ainda não resolvemos como é que vamos fazer. Agora em fevereiro temos aquela coisa dos namorados [o festival Às Vezes o Amor] e também ainda não resolvemos qual é o fatinho cor-de-rosa que vamos levar.

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