Explicador

Caos nas urgências. O que se está a passar nos hospitais portugueses?

Janeiro 201811 Janeiro 20181.675
João Francisco Gomes

É só por causa da gripe?

Pergunta 2 de 9

O pico da gripe, registado anualmente por esta altura, aumenta naturalmente a afluência aos serviços de urgência dos hospitais. Mas há outros fatores que provocam as enchentes nas urgências na época do frio. Por um lado, a população portuguesa, maioritariamente envelhecida, está especialmente exposta a agravamentos nas condições de saúde provocados pelo tempo frio. Por outro lado, explicam vários responsáveis ao Observador, há ainda pouca confiança nos serviços de saúde de proximidade, como os centros de saúde, o que leva a que uma grande parte da população portuguesa siga para as urgências do hospital sempre que tem um problema de saúde.

“Os doentes não têm o hábito de ir ao centro de saúde, vão logo ao hospital. Em Lisboa, por exemplo, as pessoas nem sabem qual é o seu centro de saúde”, diz o presidente da Associação de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço, ao Observador. Mesmo que o serviço seja menos eficiente, devido à elevada procura: “As pessoas preferem esperar 12 horas numa urgência hospitalar do que serem atendidas em meia hora num centro de saúde. Isto não invalida que a resposta nas urgências tenha de ser otimizada, mas temos doentes com comuns constipações que podiam ou repousar em casa ou receber atendimento no centro de saúde e que vão para as urgências”.

Enchente nas urgências hospitalares. Porque é que isto se repete? E como se resolve?

O mesmo considera Guadalupe Simões, do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses. “Os hospitais só deviam dar resposta à doença aguda”, explica a dirigente sindical, sublinhando que é preciso construir “a necessária confiança” nos serviços de proximidade. “A maior parte das pessoas nos nossos serviços hospitalares não estão em situação aguda. Deviam ter ido ao centro de saúde, ter tido as respostas e ter sido encaminhadas para casa”, defende.

Este “hábito cultural”, como lhe chama Alexandre Lourenço, evidencia-se na época de maior frio, em que a gripe — mas também outras complicações provocadas pelo frio, sobretudo nos mais velhos — leva milhares de pessoas a procurar assistência médica e a fazê-lo nas urgências hospitalares, que rapidamente chegam a níveis de afluência acima da sua capacidade de resposta.

Marianela Ferreira, investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, destaca que na origem deste problema está “uma questão de fundo que nunca foi clarificada junto dos utentes” do Serviço Nacional de Saúde: “O hospital, enquanto instituição de saúde, ainda permanece na população com uma posição de maior credibilidade. As pessoas preferem ir à urgência porque vão encontrar um médico de um hospital, que consideram que é mais capacitado do que um médico de família, que passa os exames e as receitas, mede a tensão e pouco mais”.

Para a investigadora, “as pessoas não têm uma relação de confiança com o SNS, que passaria por privilegiarem em primeiro lugar o médico de família e o centro de saúde, por seguirem os conselhos referentes à vacinação, e muito mais”. “O que aconteceu de mal em termos comportamentais por parte dos utentes — se vão ou não ao médico de família, se vacinam ou não, é um reflexo do mau funcionamento do SNS. Há anos que a figura do médico de família existe, mas o SNS ainda não fez entender que é fundamental que a primeira pessoa a que se recorre seja ele”, afirma.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, concorda. “Esta situação agora da gripe, mais do que nos dar dados sobre a gripe, está-nos a mostrar as fragilidades do Serviço Nacional de Saúde”, diz ao Observador.

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