Uma utilizadora do Facebook partilhou a 29 de março uma publicação da página Coronavirus WorldWide, na qual se lia o seguinte: “Ambos os pais dele estão infetados com o vírus da Corona. Ajude-o a rezar pela recuperação”. A acompanhar esta partilha, a utilizadora do Facebook acrescentava: “Fiquem em casa”. A publicação foi partilhada milhares de vezes e tornou-se viral nas redes sociais, tendo chegado a ter mais de 84 mil visualizações (segundo dados do Facebook).

Acontece que a publicação assenta no uso abusivo de três imagens diferentes, que não têm qualquer ligação entre si, e nenhuma das três tem nada a ver com o surto do novo coronavírus que o mundo enfrenta. Ou seja, nem aquela criança é filha daquele homem e mulher, nem aqueles doentes hospitalizados estão internados devido à Covid-19.

A publicação que dizia que a criança estava a chorar por causa dos pais, que é falsa

Vamos começar pela criança: a imagem foi abusivamente retirada de um vídeo humorístico do YouTube, de março de 2018, no qual uma criança é filmada pela mãe a chorar porque puxou o autoclismo e, consequentemente, o que estava na sanita “desapareceu”. Ou seja, nada tem a ver com a pandemia do novo coronavírus e nada tem a ver com as duas outras pessoas que aparecem na imagem.

[Veja o vídeo original em que aparece a criança a chorar]

O homem retratado na imagem também não tem qualquer ligação com a pandemia provocada pelo novo coronavírus. A imagem pode ser encontrada num artigo da NBC News, de agosto do ano passado, sobre problemas respiratórios associados ao consumo de cigarros eletrónicos. De acordo com aquele artigo, o homem é  Dylan Nelson, de 26 anos, natural de Burlington, Wisconsin, nos Estados Unidos da América. O seu estado de saúde era grave, tendo sido posto em coma induzido depois de o corpo ter entrado em colapso, numa reação que os médicos associaram ao consumo de cigarros eletrónicos. O irmão de Dylan terá admitido que o irmão encontrou o aparelho para consumir cigarros eletrónicos na rua.

O mesmo acontece com a suposta “mãe”. Com recurso à ferramenta TinEye, verificamos que a mulher retratada na imagem aparece em artigos da imprensa norte-americana como sendo Maddie Nelson, de 18 anos, natural do Utah, e consumidora de cigarros eletrónicos há três anos consecutivos. O consumo daquele tipo de tabaco também a terá levado ao hospital em estado muito grave, tendo sido colocada em coma induzido, naquilo que os médicos descrevem como o pior caso já visto. A notícia é de 27 de abril de 2019, e a história aparece contada no Fox 13, de Salt Lake City, assim como foi depois reproduzida, em agosto, pelo tabloide britânico Daily Mail.

Ou seja, independentemente dos contornos relacionados com o estado de saúde das duas pessoas retratadas na imagem, é certo que o seu estado de saúde nada tem a ver com a pandemia do novo coronavírus. Tanto num caso como no outro, as imagens remontam ao ano passado (abril e agosto), logo, muito antes do surto da Covid-19. O mesmo acontece com a criança, que é apenas a estrela de um vídeo humorístico, publicado na internet há dois anos.

Conclusão

A publicação é falsa e as imagens, que aparecem coladas lado a lado dando a entender que estão relacionadas entre si, nada têm a ver umas com as outras. Nem com a epidemia do novo coronavírus. O homem e a mulher internados em estado crítico estarão relacionados com doença derivada do consumo de cigarros eletrónicos, e a criança é apenas a estrela de um vídeo humorístico do Youtube. As imagens foram usadas de forma abusiva para dar a entender que um menino tinha os dois pais em estado crítico por causa da pandemia, pedindo abusivamente aos utilizadores do Facebook que partilhassem a imagem e que rezassem por ele.

Segundo o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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