Um vídeo partilhado 35 mil vezes e com mais de 1,2 milhões de visualizações mostra uma pessoa a retirar um pequeno fio branco do interior de um pimentão verde. Ao ser retirado do interior do pimentão o fio continua a mexer-se no que aparenta tratar-se de uma larva. A descrição que acompanha o vídeo reforça essa tese: “Muito cuidado com Simla Mirch. Um novo tipo de verme encontrado em pimentões. Corte, e verifique antes de cozinhar”. E ainda com um aviso: “O simla mirch ataca seu corpo e vive em áreas molhadas do corpo pode causar dor até mesmo morte eventualmente…” A história é falsa, desde logo, porque não existe nenhum parasita com esse nome e não há sequer provas de que a larva que se vê nas imagens tenha crescido dentro do pimento. O caso já foi desmentido por biólogos e fact checkers em vários países. Depois de EUA, Espanha e Brasil a história chegou a Portugal.

Começando pelo nome do alegado verme (“simla mirch”), os produtores da notícia falsa nem tiveram grande originalidade. Não só não existe nenhum parasita com esse nome e “shimla mirch” é apenas uma forma de dizer “pimentão” em hindu. O Snopes — site norte-americano que se dedica a desmascarar boatos e falsas notícias na internet — ouviu vários especialistas, que disseram que o verme que aparece no vídeo é da família do nemátodo mermithid. Este tipo de parasitas afeta insetos e aranhas, mas não parasitam nem são prejudiciais para seres humanos.

Ben Henelt, professor de biologia da Universidade do Novo México e especialista em vermes e parasitas, disse à Snopes que, pelo que vê no vídeo, é “muito provável que seja um nemátodo mermithide. [Este tipo de vermes] não são prejudiciais para os seres humanos; apenas para insetos”. Outro especialista em ciências biológicas, John Janovy, da Universidade de Nebraska-Lincoln, concorda que é possível que o parasita na imagem seja o nemátodo mermithide e reitera que “não representa perigo para os seres humanos”. Na mesma linha, o professor associado de biologia da Oklahoma State University, Matt Bolek, disse à Snopes que o verme na imagem parece o nemátodo mermithid, explicando que “são parasitas de insetos e aranhas e emergem do hospedeiro artrópode para procurar solo ou água e desenvolver um verme adulto. Não é perigoso para os seres humanos, que não podem ser infetados por este parasita.”

E se o vídeo de 22 de agosto — detetado pela equipa do Facebook no âmbito do projeto no qual o Observador faz parte — já tem mais de um milhão de visualizações, a 20 de agosto houve um post igual partilhado no Brasil que já tinha mais de 10 milhões de visualizações.

O impacto foi tal que, no Brasil, o próprio Ministério da Saúde desmentiu a história e apelou aos brasileiros para que não partilhassem o vídeo, já que “é falso”. As autoridades brasileiras destacam que “o verme citado não existe” e que “não há evidências sobre vermes no pimentão que tenham causado doenças e até mesmo morte”.

O Ministério da Saúde brasileiro alertava ainda que não há nenhuma prova que “a possível larva se tenha desenvolvido dentro do pimentão e não tenha sido colocada apenas para o vídeo”. Por fim, explicava que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não tinha recebido qualquer “notificação a respeito de algum pimentão contendo verme no Brasil”.

Além do Snopes, também a Agência Lupa, no Brasil, a Newtral, em Espanha, e o Le Monde, em França, fizeram fact check ao vídeo. Todos os especialistas ouvidos concordam que não existe nenhum verme com aquele nome e que a larva que aparece na imagem não é prejudicial para a saúde humana.

Conclusão

É verdade que no vídeo aparece uma larva dentro de um pimento. No entanto, é absolutamente falso que se trate de uma larva que pode provocar a morte a seres humanos. Especialistas identificam na imagem um parasita que se aloja em aranhas e insetos, mas que não é prejudicial para o ser humano. Além disso, não há nenhuma prova de que aquela larva tenha crescido dentro do pimento e não noutro local, uma vez que o vídeo já começa com o pimento aberto. Este é o típico caso de uma história falsa que pretende provocar alarmismo social.

Segundo o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

Errado
Segundo o sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:
FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associadas a reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.