Uma publicação que tem estado a ser partilhada no Facebook pretende denunciar casos de Pleurisia em trabalhadores de supermercados. A fazer fé neste conteúdo, a doença pulmonar tem origem numa “Hipoxia Obstrutiva Exterior”, que está a ser causada pela utilização permanente de máscara de proteção facial. O utilizador partilha ainda a imagem de uma radiografia ao tórax onde alegadamente se pode identificar este problema. É falso, mas vamos aos factos.

A radiografia publicada pelo utilizador, com um texto que, inicialmente, começou a circular em Espanhol.

A desconstrução desta história deve começar pelos termos médicos. Ao Observador, o coordenador de pneumologia do Hospital CUF Descobertas, António Bugalho, esclarece que “a designação “Hipoxia Obstrutiva Exterior” não existe, o termo correto é apenas Hipoxia e refere-se a uma diminuição dos valores de oxigénio ao nível dos tecidos e células”. Percebendo este conceito, é possível desde logo constatar que a publicação em causa defende que o uso de máscara está a provocar quebras de oxigénio em quem as usa, mas isso não é verdade.

As máscaras certificadas e comercializadas são seguras para a saúde. Algumas pessoas queixam-se de desconforto, claustrofobia ou dificuldade respiratória causada pela máscara, sobretudo quando utilizada durante longos períodos, mas os benefícios das máscaras ultrapassam em muito os problemas reportados, pelo que devem ser utilizados nas situações recomendadas”, esclarece o médico pneumologista.

Não podendo as máscaras ser responsáveis pela quebra dos níveis de oxigénio no sangue, haverá possibilidade de darem origem a uma Pleurisia? António Bugalho é perentório:  “Não existe qualquer evidência científica de que a utilização de uma máscara possa causar Pleurisia”.

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Na verdade, estamos a falar de um termo que designa “a inflamação da pleura, sendo esta estrutura uma membrana fina composta por dois folhetos que revestem os pulmões e a parte interna da cavidade torácica”, explica o especialista, revelando que “a inflamação da pleura pode ser originada por inúmeros fatores, sendo os mais comuns as infeções, doenças sistémicas como o lúpus ou a artrite reumatoide ou até por fármacos”.

De acordo com o especialista, as máscaras estão fora dos fatores que podem da origem a uma Pleurisia, mas há mais elementos enganadores que urge esclarecer. A publicação que estamos a verificar é ilustrada com uma radiografia torácica que tem uma zona assinalada por uma seta. Aparentemente esta imagem pretende mostrar um dos casos que o texto denúncia, mas também ela é falsa: “A imagem da radiografia ao tórax não é compatível com nenhuma situação de pleurisia”, esclarece António Bugalho.

A imagem em causa é, de facto, uma radiografia ao tórax, mas não é de ninguém que tenha ficado doente depois de ter usado máscara durante várias horas seguidas, faz parte de um livro de medicina pulmonar editado em 2005, 15 anos antes de o coronavírus ter sido declarado pandemia pela Organização Mundial da Saúde.

Desconstruídos os conceitos médicos, só falta olhar para os conceitos laborais. Mesmo depois de se perceber que o uso de máscara não pode provocar inflamações nos pulmões nem quebras de oxigénio, importa perceber se há problemas de saúde associados à utilização de máscara em trabalhadores dos supermercados. “Não há qualquer registo de queixa por parte de funcionários que trabalhem em supermercados e que tenham tido problemas de saúde pelo uso prolongado de máscara”, revela Célia Lopes, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio e Escritórios.

Conclusão

Uma publicação no Facebook denuncia alegados casos de problemas pulmonares em trabalhadores de supermercados por causa do uso continuado de máscara de proteção facial. O autor deste conteúdo recorre a vários termos médicos e até o ilustra com uma radiografia que alegadamente pertence a um doente nestas circunstâncias. É tudo falso. O uso de máscara deve ser respeitado em todas as circunstâncias identificadas pelas autoridades de saúde, não havendo riscos. Nos supermercados, de acordo com uma dirigente sindical, não há registo de queixas.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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