O debate público no nosso tempo, seja ele científico, académico, político ou nos media, está cada vez mais marcado pela ausência da razão. Hoje, mais do que os factos, importam as reacções que uma opinião provoca. Esta ditadura das sensações impede qualquer possibilidade de diálogo e transforma quem discorda, ainda que de forma razoável, num inimigo. Basta pensar no exemplo de J.K. Rowling, transformada em pária social pelas suas opiniões sobre os transexuais.

Esta ausência de possibilidade de diálogo levou a que o espaço público fosse dominado por aqueles com mais acesso aos meios de comunicação e com mais capacidade de trabalhar as emoções das massas. O debate público é hoje dominado por aquilo a que se chama o “politicamente correcto”, uma elite que estigmatiza qualquer facto que o contrarie como “discurso de ódio”.

Esta ditadura cultural gerou grandes movimentos de descontentamento numa parte da população que não se reconhece nesse discurso. Descontentamento esse aprofundado pelo desprezo, fruto desta incapacidade de diálogo, com que as elites tratam todos aqueles que deles discordam. Este desprezo põe no mesmo saco aqueles que são contra o aborto e os machistas, os que defendem a família natural e os que desejam a morte dos homossexuais, os que defendem a cultura do seu país e os racistas.

Esta divisão simplificada, entre bons e maus, foi campo fértil para o aparecimento dos populismos, que se aproveitam da frustração da parte da população que não se reconhece neste discurso “politicamente correcto” para tentar alcançar o poder. Os populismos que temos visto crescer, em geral, são um aproveitamento de vários movimentos sociais contra a imposição, por parte de uma certa elite, de uma agenda cultural.

Mas não foram apenas os movimentos populista que cresceram nesta guerra cultural. A tentativa de imposição desta nova agenda fez nascer também movimentos cívicos, muitas vezes inspirados por cristãos, que se têm oposto à imposição da cultura da morte e do descarte. E a verdade é que parte destes movimentos foi utilizada pelos políticos populistas como plataforma para ter sucesso. Veja-se o exemplo de Trump e de Bolsonaro.

Hoje os movimentos de defesa da vida e da família correm o risco de, ao apoiar movimentos populistas, na procura de aliados para a sua causa, hipotecarem essas causas a políticos e a partidos que tem uma agenda mais vasta, e para quem estes temas são apenas meios para alargar a sua força.

É por isso urgente, para os cristãos empenhados na vida pública, distinguir entre aqueles que apenas estão empenhados num combate ideológico ao chamado politicamente correcto, ou que desse combate se aproveitam para ganhar pontos políticos, daqueles que querem mesmo construir uma presença cristã na sociedade.

Para mim o critério mais fácil é a Caridade. Diz o Compêndio da Doutrina Social da Igreja que a Caridade é o critério supremo e universal de toda a ética social. A Caridade não se substitui à Verdade, nem à Justiça, mas aperfeiçoa-as. A Caridade exige que a Verdade e a Justiça não sejam um fim em si mesmo, mas um instrumento para o bem comum. Para o bem de cada um daqueles que constituem a sociedade, incluindo os criminosos, as minorias, os estrangeiros, os mais frágeis e os mais pobres.

Sobretudo, a Caridade permite olhar para o outro, até para o adversário político, como uma possibilidade de bem. Num tempo em que o debate político está cada vez mais entrincheirado, a Caridade permite o diálogo com aqueles com quem se discorda. Permite construir pontes.

Evidentemente, prefiro um político que seja contra o aborto, mas não apoio um político que considera que se pode deixar morrer migrantes para combater as redes de tráfico, mesmo que ele seja contra o aborto. Prefiro um político contra a eutanásia, mas não apoio um político que considera que a pena de morte é debatível, mesmo que seja contra a eutanásia. Prefiro um político que defende a liberdade de educação, mas não apoio um político que acha que bandido bom é bandido morto, mesmo que defenda a liberdade de educação. Pode acontecer, porque a política é como é, que políticos como Trump, Bolsonaro ou André Ventura sejam a escolha menos má. Pode acontecer que em algum momento um destes políticos até esteja do mesmo lado da barricada (ainda há pouco tempo tivemos o Partido Comunista a votar contra a eutanásia). Mas há uma diferença substancial entre escolher o menor de dois males e apoiar esse mal.

Os fins não justificam os meios. Se para afirmar uma causa justa estivermos dispostos a ceder no bem comum, se para combater os nossos adversários abdicarmos da Caridade, então estaremos derrotados ainda que ganhemos. Como diz São Paulo: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos. se não tiver Caridade, (…) se não tiver caridade, nada sou.