Há crianças bem comportadas. Há crianças mal comportadas. Como, infelizmente, o mundo não se compadece com facilidades maniqueístas, há crianças bem comportadas que são verdadeiros diabos. Conheci-as muito bem. Dava-me com elas. Era uma delas, mais precisamente. Fizemos juntas um sem número de indesejadas romarias ao gabinete da Madre Superior que, muito convenientemente, estava sempre numa semi-obscuridade espiritual: as cortinas de damasco vermelho escuro jamais deixavam passar a luz clara do dia e os móveis de pau preto cresciam em directa proporção com o disparate que nos tinha levado até lá.

Num primeiro momento, silêncio. Sentia-se o tempo passar: de tão lentos, os segundos pareciam horas. A manobra silenciosa era eficaz, intimidava. Depois, a Madre Superior levantava a cabeça da papelada sobre a secretária e perguntava-nos se sabíamos porque estávamos ali. Nunca, nunca soubemos. Seguia-se um convite à delação: pedia-nos para apontarmos a culpada, a cabeça, para que as consequências do acto faltoso fossem menos graves para quem tinha menos responsabilidade. Cerrávamos fileiras. Como consequência da falta de arrependimento, éramos informadas de que os pais seriam chamados para uma reunião onde lhes seria revelado o verdadeiro e abominável comportamento das filhas. Claro que esta sessão parental era a resposta, não ao disparate, mas à impenitência.

Éramos um grupo de alunas com bom rendimento académico. O que provocava as famosas reuniões de pais só seria inaceitável num convento novecentista: celebrámos missa na capela, com o capelão e o corpo docente devidamente caricaturados; fomos todas confessar os mesmos três pecados inventados na quinta-feira das confissões, para averiguar se os segredos de confessionário eram ou não mantidos; escondíamos regularmente o sino, o que atrasava a entrada nas salas de aula a todas as turmas; andávamos nas árvores como macacos, colhíamos fruta nos pomares, área proibida às alunas; caímos vestidas, regular e «acidentalmente», no lago dos peixes ou na piscina, qualquer que fosse a estação do ano. Nas aulas, o mais que acontecia era espirrarmos todas, por coincidência, às dez menos cinco em ponto com repetição à hora certa e às dez e dez, ou qualquer outra parvoíce do mesmo género. Alguma coisa havíamos de fazer… tínhamos sete aulas de cinquenta minutos por dia, algumas de cem minutos – assim se explica o bom rendimento. A este horário somavam duas horas em horário opcional posterior, «o estudo», para fazer trabalhos de casa e/ou actividades extra-curriculares: ballet ou ballet, para evitar a monotonia e fortalecer o carácter através da persistência.

Lembro-me de uma vez estarmos todas de pé, já de castigo e em silêncio ao lado das respectivas carteiras, enquanto aguardávamos na sala a chegada da inquisição, quando alguém começa a cantar, mas alto e em bom som… Uma das raparigas disse, «já estamos de pé, cala-te senão põem-nos de joelhos». Nunca me ri tanto como então. A inquisição, chegada entretanto, ameaçava, e nós ríamos como doidas só de nos imaginarmos de joelhos e de sabermos que não poderíamos continuar a rir – são patetices, é certo, mas não alteram os factos: a qualidade da transgressão é definida pela qualidade da norma e ambas são fundamentais e formativas.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Na quarta classe, hoje quarto ano, tive de fazer dois exames: o do colégio, como todas as minhas colegas, e um outro numa escola pública porque «não completava a idade mínima no tempo previsto para transitar para o 1º ano do ciclo preparatório». A Madre disse-me: «estamos com os olhos postos em si, olhe que ao representar o colégio representa todas as suas colegas e professoras. Tome como exemplo a sua colega do 5º ano — hoje seria do nono ano — que também teve de ir fazer exame no exterior e teve a melhor avaliação». Já não bastava não ter pedido o posto de embaixadora, senão ter de somar a responsabilidade da boa embaixada. Os exames provocam stress infantil, dizem. Mas também aumentam a auto-confiança quando alguém a quem admiramos, como um professor, confia nas nossas capacidades e acredita não só naquilo que somos, mas no que viremos a ser. Será stressante mas nem por isso traumático. Será traumático se aqueles que nos ensinam, tiverem sobre o nosso desempenho baixas expectativas. Dessa forma aprenderemos também a tê-las.

O Ministério da Educação, que paulatinamente está a destruir o que resta da educação pública, deveria aprender com os alunos algo considerado bastante reprovável: a copiar. Deveria copiar as escolas públicas ou privadas de sucesso. Aquelas que enviam para as faculdades alunos bem preparados, as mesmas que ensinam o rigor e o trabalho, a resistência à frustração, e o fazem sem excluir a satisfação. E já que estava no copianço aproveitava e copiava também os critérios de selecção e colocação de professores desses estabelecimentos. Poderia até, com megalomania adolescente, reacender a «paixão pela educação», e em vez de lhe pegar fogo, estudar os currículos e a disciplina das escolas que, de facto, quebram os ciclos de pobreza e exclusão através das competências adquiridas. Como o da excelente Michaela Community School, no norte de Londres. Um modelo, obviamente controverso, de sucesso. Porque aprender nem sempre é divertido ainda que não tenha de ser um sacrifício. É trabalhoso. É exigente.

Lá fui, então, para aquela escola que desconhecia, de lindos jacarandás em flor no pátio, fazer o obrigatório exame, escrito e oral. Três professores em cima de um estrado. Este ano, a SPA nomeou o último livro que publiquei, «Livro da Perfeita Alegria», para melhor livro de poesia, depois de ter sido também finalista do Prémio Ruy Belo. Devo dizer que fiquei muito feliz. Não porque acredite no conceito de «o melhor livro». Mas porque antes de publicar o meu primeiro livro recebi mais de vinte rejeições. Mais de vinte editoras em cima de um estrado. A alegria que senti depois daquele exame para o qual me preparei exaustivamente, foi o motor com que atravessei e atravesso qualquer não até que seja um sim. Na escola também se aprende a ser.