Nesta altura, fazemos sempre um balanço do ano que está a acabar. Foram doze meses conturbados na política internacional e na política interna de vários estados. Houve eleições em países importantes para Portugal, como Espanha e o Reino Unido, houve o impeachment de Donald Trump, um Parlamento Europeu com um novíssimo equilíbrio de forças e uma Comissão com uma nova agenda. Houve protestos inspirados nos “Gilets Jaunes” nas mais diversas geografias do mundo. Houve a Greta Thunberg.

Mas o acontecimento do ano foram as manifestações em Hong Kong.

Em primeiro lugar, porque estes protestos aparecem em contraciclo. Não há artigo ou livro sobre o tema, escrito nos últimos anos, que não reconheça que a democracia está a regredir, quer em número de estados “livres”, quer – e este é porventura o dado mais preocupante, porque afeta o que costumávamos chamar “democracias maduras” – pela degradação da qualidade do regime. É certo que, em Hong Kong, as manifestações começaram por ser contra a lei da extradição. Mas rapidamente se transformaram numa recusa de submissão à China autocrática.

O que nos leva à segunda razão da importância destes acontecimentos: o adversário é o gigante chinês. Sabemos da intransigência de Pequim relativamente a rebeldias que ponham em causa o princípio inviolável “um país, dois sistemas”. Sabemos também que se (há quem diga quando) a China responder de uma forma mais incisiva podemos ter uma espécie de sequela de Tiananmen. Ter coragem de enfrentar uma ameaça destas para fazer valer a liberdade é uma grande lição para o resto do mundo. Nos tempos que correm, esta luta é exemplar.

E tem obrigado chefes de estado pelo mundo ocidental – incluindo o reticente Donald Trump – a reafirmar internacional e publicamente valores que preferiam manter na esfera interna. Num sistema internacional cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências, em que a normatividade está relegada para um canto – nem que seja para não exaltar ânimos – os manifestantes da antiga ilha britânica conseguiram inverter um bocadinho este cenário.

Em terceiro lugar, porque estes protestos levaram a imprensa internacional a olhar para a China de uma forma muito mais crítica. Se já havia algumas vozes preocupadas com os desenvolvimentos internos em Pequim, estes manifestantes abriram caminho a um escrutínio muito maior do que se passa na nova potência internacional. Descobriram-se branqueamentos da história (Tiananmen é novamente um bom exemplo), uma população adormecida e conivente relativamente aos abusos do seu próprio estado, um sistema social de pontos em que cada habitante é escrutinado através de tecnologias e premiado ou castigado pelo seu desempenho pessoal, social e cívico e campos de reeducação para muçulmanos.

Não tenhamos ilusões: há uma probabilidade grande de que a China venha a disputar o poder internacional com os Estados Unidos num futuro não muito distante. E se assim for, assistiremos a alinhamentos e realinhamentos internacionais, próprios destas fases de redefinição internacional. Devemos aos manifestantes de Hong Kong terem-nos mostrado que as potências não são todas iguais. A escolha que cada estado fará pode não depender disso. Mas graças a eles, não se poderá argumentar, como outras vezes no passado, que foi por falta de aviso.