Andamos preocupados com problemas globais nunca vistos, tanto de natureza sanitária como económica, mas não se pense que, por isso, seremos apanhados distraídos. Muito pelo contrário. Assim, importa que reparemos, desde logo, nos contornos da anunciada moeda digital chinesa. Numa primeira fase, ela estará disponível em quatro cidades chinesas, Shenzhen, Suzhou, Chengdu e Xiong’an (uma cidade satélite de Beijing). Na sequência deste teste, esta moeda digital deverá ser adotada em toda a China e difundida a nível planetário. Será então que poderá tornar-se no instrumento de eleição da próxima ameaça global.

Observar esta moeda digital e certos fatores que a rodeiam, pode ajudar-nos a prever uma eventual propagação, a partir da China, de fenómenos de massas jamais vistos no Ocidente. Apesar de não serem eventos de natureza biológica, mas sim político-sociais, tais fenómenos também podem alastrar pelo mundo de forma viral.

Passarei a designar a nova moeda que a China trouxe ao mundo, por “yuan digital” (nome recoorrente na imprensa internacional). O “motor” do “yuan digital” baseia-se na criptografia e na tecnologia “blockchain”. Esta tecnologia veio dotar a humanidade de um novo tipo de confiança, designado por “confiança distribuída”. Até aqui, havia apenas 3 tipos de confiança disponíveis para uso da humanidade: (i) confiança na família e nos amigos mais próximos; (ii) confiança no estado; (iii) confiança nos intermediários (e.g. bancos). Acontece que existe agora um 4o tipo de confiança: a “confiança distribuída”. Beneficiando de um hipercompetitivo efeito de rede, a “confiança distribuída” (não confundir com “descentralizada”), abre a possibilidade de transacionar valor na Internet. Apenas isto, por si só, modificará muito o mundo, sendo que a nova “Internet do Valor” tem um potencial transformador ainda maior do que o da anterior “Internet da Informação”. Não há qualquer dúvida a esse respeito. Quanto a saber se isto beneficiará ou não as pessoas, trata-se de uma questã̃o cuja resposta irá ser dada em termos políticos. .

Observemos, então, a nova moeda “yuan digital”, recorrendo ao conhecido “bitcoin” como termo de comparação. Apesar de serem duas moedas substancialmente diferentes, ambas funcionam exclusivamente graças à tecnologia “blockchain”. Aliás, apenas recorrendo a esta tecnologia é que se podem efetuar transações eletrónicas diretamente entre as pessoas, sem envolver intermediários ou quaisquer entidades centralizadas. No caso do “YUAN DIGITAL”, será transacionado na rede social chinesa WeChat, como tudo leva a crer. Quanto ao BITCOIN, continua a ser transacionado na primeira rede “blockchain” da história, a qual vem funcionando ininterruptamente e na perfeição, desde o dia 31 de Outubro de 2008.

Considerando a rede social WeChat, percebemos estar perante uma plataforma cuja utilização se transformou num autêntico estilo de vida para os chineses. Tentemos compreender como tal foi possível. Apesar do habitual secretismo que vigora na China, há várias notícias de que a tecnologia “blockchain” tem sido testada nesta rede social. Ora, sabendo-se que esta tecnologia permite contabilizar e executar transações “peer-to-peer” (P2P), diretamente entre os cidadãos, relativas a quaisquer unidades representativas de valor (“tokens”), não é difícil compreender que tal rede “blockchain” possa servir para contabilizar “tokens” que quantifiquem e representem unidades de “valor social”, permitindo, assim, converter inúmeras experiências pessoais do quotidiano em transações computáveis. Claro que os critérios seguidos para creditar e debitar tal “valor social”, aumentando ou diminuindo o capital social ostentado por cada indivíduo na rede WeChat, irão sendo estabelecidos pelo governo chinês. Entretanto, como se isto não bastasse, a rede WeChat passará, pelos vistos, a permitir transacionar entre pares (P2P) a anunciada moeda digital chinesa.

O “yuan digital” é bastante diferente do “bitcoin” e passo a explicar as principais diferenças: enquanto o “bitcoin” funciona num tipo de rede “blockchain” que dispensa quaisquer permissões de acesso (“Permissionless Blockchains”), o “yuan digital” irá ser transacionado numa rede “blockchain” centralizada que exige permissões de acesso (“Permissioned Blockchains”). Esta diferença faz toda a diferença! No caso do “bitcoin”, a rede “blockchain” é descentralizada, há privacidade e não existe uma entidade central que possa desligar, ou sequer alterar, os protocolos da rede. Nestas redes, do tipo “permissionless”, qualquer eventual alteração ao respetivo protocolo de governança, exige o consenso da maioria dos respetivos membros. Pelo contrário, no caso do “yuan digital”, os requisitos de privacidade são estipulados a um nível central. É neste nível central que são armazenados todos os dados e é definida a governança da própria rede “blockchain”. Existem várias dinâmicas para determinar como as decisões são tomadas a nível central, mas, neste caso, não há necessidade de ser estabelecido consenso entre a maioria dos membros da rede para que sejam introduzidas mudanças ou alterações no protocolo “blockchain”. Neste tipo de redes, “permissioned”, quem define “as regras do jogo” é apenas e sempre o poder central.

É possível que venha a registar-se uma aceitação generalizada do novo “Yuan Digital” a nível global. Isto porque as moedas digitais são mais competitivas do que as tradicionais, pois permitem efetuar transações mais convenientes e a um menor custo. Assim, há razões para nos preocuparmos face ao volume de aquisições chinesas a nível global, com óbvio e natural destaque para o panorama nacional. Na verdade, tais aquisições podem funcionar como um “Cavalo de Tróia”, abrindo caminho para a paulatina instituição, no Ocidente, de um estilo de vida muito diferente daquele a que estamos habituados (o estilo de vida “WeChat”, acima referido), que já vinha sendo ensaiado há muitos anos na China e cuja implementação fica, agora, extremamente facilitada graças aos novos recursos digitais. Como é que tal cenário poderá vir a tornar-se realidade? Basta que os futuros clientes das referidas empresas, sejam convidados a instalar uma aplicação, socialmente apelativa, que possa funcionar como carteira digital (“digital wallet”) e facilite o câmbio automático de euros para “yuan digitais”. Como incentivo à população, para garantir que tal aconteça, poderão, por exemplo, ser oferecidos, pelo crescente número de empresas adquiridas com capitais chineses, certos descontos no preço de serviços prestados (e.g. eletricidade). Este tipo de incentivos já vem sendo oferecido à população chinesa há muitos anos (mesmo sem o recurso a computadores), visando premiar ou penalizar certos comportamentos, de acordo com os interesses do regime.

Devemos reter que o novo dinheiro digital é literalmente programável, pelo que não pode excluir-se a hipótese das respetivas condições de utilização, por parte dos cidadãos, variarem em função do respetivo comportamento. Por exemplo, o uso desta moeda digital poderá ser condicionado pelo valor social atribuído a cada cidadão. Convém perceber que o mundo digital é muito mais “elástico” do que o mundo físico, pelo que será muito fácil aplicar minuciosamente os critérios de “valor social” eventualmente estabelecidos pelo regime político chinês. Assim, os consumidores de serviços prestados por empresas chinesas (ou de outros países onde pontifiquem regimes totalitários), estarão sujeitos a serem classificados e posicionados num determinado “ranking” político-social, possivelmente em prejuízo da sua liberdade. Afinal, ainda muito antes de virem a público notícias sobre esta moeda digital chinesa, era já notória a “vigilância social” exercida na China. No entanto, esta é uma realidade que pode ainda piorar, sendo que os novos recursos digitais aumentam a “virulência” deste tipo de controlo sobre a vida dos cidadãos, facilitando, porventura, a respetiva disseminação a nível mundial. Portanto, mesmo quando for ultrapassada a presente pandemia, o mundo livre não poderá baixar a guarda face a esta nova ameaça global.