We know that they are lying, they know that they are lying, they even know that we know they are lying, we also know that they know we know they are lying too, they of course know that we certainly know they know we know they are lying too as well, but they are still lying. In our country, the lie has become not just moral category, but the pillar industry of this country. – Alexander Solzhenitsyn, The Gulag Archipelago

Com uma pequena adaptação esta frase de Solzhenitsyn descreve Trump e a sua Administração. Estão mesmo surpreendidos com a nova Estratégia de Segurança de Trump? Com a traição de Trump e o apoio dele a Putin? Não entendo? Andam a dormir? Já lá vamos. Antes convém recordar que:

  • Um facto é informação objectiva;
  • Uma opinião é uma crença pessoal;
  • A ignorância é a falta de factos;
  • E estupidez é a rejeição dos factos em favor das opiniões.

Após três anos de guerra desgastante e uma estimativa de 900.000 soldados perdidos (mortos, feridos ou desaparecidos, de acordo com o Estado-Maior ucraniano e avaliações independentes como as do Instituto para o Estudo da Guerra):

Desde o início de 2025, as forças russas conquistaram apenas 0,77% do território ucraniano – uma taxa de avanço tão insignificante que equivale a cerca de 83 baixas por quilómetro quadrado conquistado. Pontos críticos como Pokrovsk e Hulyaipole testemunham infiltrações russas e combates urbanos brutais, mas a linha da frente permanece essencialmente congelada. Os drones ucranianos e as defesas de atrito em camadas transformaram o campo de batalha num matadouro para as unidades de assalto russas.

A Ucrânia não está a perder; está, metodicamente, a minar as forças da Rússia. Moscovo está a ser arrastada para uma guerra de desgaste que não consegue sustentar, enviando onda após onda de tropas mal treinadas para ataques suicidas que não resultam em nada além de valas comuns e mudanças tácticas insignificantes.

É neste contexto que a administração Trump procura impor um “plano de paz” passando-o como diplomacia, quando, na realidade, não passa de uma ressonância do plano russo. Trump está a pressionar Zelensky com prazos medidos em dias, e não em semanas, enquanto propaga a falsa alegação de que “82% dos ucranianos exigem um acordo” – uma distorção das sondagens que mostram um apoio esmagador à paz, mas não à rendição. O embaixador da Rússia no Reino Unido, Andrei Kelin, dispensou os eufemismos: não se trata de um acordo, mas de uma “rendição certa” de Kiev, engendrada para explorar o cansaço económico da Europa e a deriva política dos Estados Unidos.

Quais os significados? Para a Ucrânia, isto significaria amputações territoriais irreversíveis, desarmamento parcial e exclusão da NATO – um prémio geopolítico para Putin que encorajaria novas agressões, de Odessa à Moldávia. Na sua essência, o plano de Trump(?) não é a paz; é um ditame. Recompensa o invasor e pune o defensor.

Para a Europa, sinaliza um continente a entrar numa era de fragilidade estratégica, com a NATO forçada a uma lenta erosão ou a uma dispendiosa e improvisada “europeização” da sua própria segurança. Os ucranianos, 82% dos quais rejeitam as concessões territoriais, resistem não por obstinação, mas por clareza histórica: rendição hoje só garante guerra maior amanhã.

Estes são os factos. E que mais demonstra a Administração dos EUA? Bem, para além de recusar qualquer realidade que não seja conforme à sua construção mental e opinião do mundo, agora Trump também insulta os líderes europeus e despreza e Europa e as instituições democráticas Europeias. Inevitavelmente, o trumpismo acaba sempre por expressar a vontade de Putin. O padrão de comportamento comprova-o. Volto a dizê-lo: os europeus não podem confiar em Trump. E reafirmo: Donald Trump mudou o mundo. Disso não há qualquer dúvida. O problema é ter mudado o mundo para pior. Adicionalmente, não me recordo de nenhuma outra administração norte-americana elogiar e/ou apoiar tanto autocratas e ditadores como a de Donald Trump. São os seus interlocutores preferenciais.

Acho bem que o wokismo seja combatido. Mas fazê-lo à custa das tradições, princípios e valores da democracia não! Trump, que me lembra José Sócrates por ser um mentiroso compulsivo, é um ignorante sem valores, sem ética e sem palavra que rejeita factos. Quem é de direita e apoia esta deliberada diminuição da democracia, vai acabar por comer o pão que o diabo amassou. Nada que a história já não tenha ensinado.

A cada dia que passa sinto mais falta do partido republicano de Reagan e McCain. Mas receio que já não seja recuperável. Até as reacções dos republicanos no Congresso são fracas e dispersas.

As declarações de Trump e de Vance sobre a NATO e sobre os aliados europeus, tiveram o efeito de descredibilizar definitivamente a Aliança. Ao minarem a confiança afectaram irremediavelmente a relação transatlântica. Doravante serão os interesses de conveniência que regularão as relações entre a Europa e os EUA. Se, eventualmente, uma próxima administração norte-americana tiver posições mais próximas dos europeus, estes vão presumir que essa aproximação é conjuntural, dependente de próximo ocupante da Casa Branca.

Não é difícil chegar a esta conclusão. Quando a confiança é afectada, dificilmente é restaurada. Como tal, a relação transatlântica em vez de ser regulada pela confiança passará a sê-lo pela desconfiança. E não sei se as midterms elections serão suficientes para restaurar a confiança transatlântica.

Seja como for, os europeus começam finalmente a perceber a sabedoria da decisão tomada por De Gaulle. O guarda-chuva americano não é eterno. Vamos passar por dificuldades. Mas essas dificuldades vão ajudar-nos a reagir. E a preparar melhor a ameaça russa.

Uma coisa é certa: Trump está a trair a Ucrânia, a trair e minar os aliados tradicionais, a enfraquecer a aliança transatlântica e a abandonar os valores fundamentais que os Estados Unidos defendiam. Trump pensa que os EUA passam bem sem o elo transatlântico. Veremos.

Post-scriptum:

O principal objectivo da administração Trump parece ser atingir a China através do rompimento da aliança da Rússia à China. Donald Trump parece estar convencido dar uma parte da Ucrânia a Putin será suficiente.

Ora, não foram apenas preocupações de segurança que levaram Putin a invadir a Ucrânia. E o que ele pretendia era dominar todo o país para garantir acesso a todas as suas riquezas naturais. Trump está a oferecer a Putin um acordo que só dá à Rússia posse parcial da Ucrânia ao mesmo tempo que garante para os EUA a exploração das riquezas da Ucrânia. Assim, que motivo tem Putin para quebrar a ligação a Pequim? Putin pode perfeitamente jogar com os dois lados para ganhar com ambos.

Se este for o objectivo da administração Trump, é ingénuo e poderá ter um efeito de dominó e de escalada. Putin dificilmente cederá às pretensões de Trump sem obter algo que considere ser suficiente para compensar o que pode perder com a China. Isso pode significar mais conquistas territoriais. Ora, tal só acontecerá se Trump fechar os olhos a uma invasão russa a países da União Europeia e da NATO.

Nesse caso, os Estados Bálticos poderão ser os primeiros a entrar em guerra com Putin. E a reacção dos americanos poderá ser a ocupação da Groenlândia e dos Açores, com a justificação de segurança e protecção. Se isso acontecer, a pressão de Trump sobre o Canadá também aumentará.

A 5 de março, equacionei este hipotético cenário. Penso que o mesmo já esteve mais longe. Mas, como não é possível confiar na palavra de Donald Trump, os europeus devem preparar-se para todas as eventualidades.