A 1 de Julho de 1994, o Real foi implementado, trazendo associado reformas económicas e estruturais, delineadas para construir uma base estável na qual empresas e particulares pudessem operar. Indubitavelmente, as reformas subsequentes muniram o Brasil das ferramentas necessárias para se tornar um notável ator no cenário mundial, o qual se tornou aberto quando os atores historicamente dominantes – como os Estados Unidos, União Europeia, Japão – se viram obrigados a reduzir a sua preponderância para resolver os seus problemas internos.

Com um notável desempenho antes (crescimento anual de 4% entre 2002 e 2008) e durante a recente crise mundial, o Brasil tornou-se num porto seguro para os investidores desejosos por qualquer retorno mais generoso do que os proporcionados pelos gigantes adormecidos. A economia do Brasil estava em ebulição. Naquele momento, as classes mais baixas dispunham de meios para irem além de consumir iogurte (uma medida um tanto interessante empregue pela administração de Lula para ilustrar o avanço económico), e comprar bens de maior valor, como motas e aparelhos eletrónicos, e serviços, tais como cuidados médicos, educação e turismo (pela primeira vez via-se os mais desfavorecidos dentro de aviões).

A classe média, antes com dificuldade para pagar as prestações de uma pequena casa ou apartamento, estava agora a contratar crédito para adquirir várias propriedades. Este crescimento do número de investidores “amadores” aumentou consideravelmente a procura, criando uma falsa sensação de valorização dos bens – auto-alimentando o desejo pela aquisição de ainda mais. Mas o que seria de esperar? Os salários do setor privado tinham crescido mais rapidamente do que o próprio PIB, e os brasileiros tinham agora mais rendimento disponível do que muitas das gerações anteriores.

Estimulados por crédito fácil, os brasileiros exageraram. Ao mesmo tempo, os gigantes adormecidos não se mantiveram ausentes por muito tempo, e a simples indicação da Reserva Federal dos Estados Unidos que estava a considerar reduzir o apoio ao crédito foi suficiente para submergir as economias dos países em desenvolvimento. O investimento direto estrangeiro eclipsou-se. Tornou-se um indício claro de que, uma vez que o cenário mundial teria que voltar a ser partilhado, o Brasil ficaria com apenas uma pequena parte. E foi assim que aconteceu: uma oportunidade perdida no cenário económico.

No cenário político, a inexperiente Dilma Rousseff carecia do “jogo de cintura” para prosseguir independentemente das circunstâncias desfavoráveis. Um apoiante poderia dizer “Como uma política honesta, Dilma não estava disposta a ceder às pressões do sistema”; enquanto um crítico poderia argumentar “Ela não tinha a capacidade para tomar as decisões necessárias nem disponibilidade para negociar acordos”. Independentemente do lado que se escolha, parece razoável concluir que Dilma não conseguiu capitalizar a popularidade do seu antecessor, nem as condições favoráveis vigentes na sua primeira posse.

Foram as suas ações enquanto Presidente motivo suficiente para a destituir? Tendo seguido de perto o processo de impeachment, não estou convencido que o processo legal contra ela esteja bem suportado. Aparentemente, existe uma grande subjetividade não só na definição dos conceitos legais nos quais a acusação se baseia, como também na interpretação dos próprios argumentos. Declarações do advogado de defesa, José Eduardo Cardoso, sintetizam bem a ideia: “Talvez hoje, senhor Presidente (do Senado), poucas pessoas no Brasil sabem dizer quais são as reais acusações contra Dilma Rousseff”; e “Afasta-se ou se quer afastar uma Presidente da República sem que o povo que a elegeu minimamente entenda o crime hediondo que teria praticado”.

As acusações não são difíceis de compreender, mas a sua punibilidade é. Os acontecimentos são demasiado recentes para nos permitir tirar conclusões firmes sobre o resultado do impeachment de Dilma Rousseff para o Brasil. No entanto, as bases pouco sólidas em que se desenrolou (caracterizados por argumentos legais dúbios e julgamentos “a la circo”, tal como o ocorrido na Câmara dos Deputados no passado dia 17 de Abril, 2016) são um duro golpe à jovem democracia do Brasil e, talvez também, àquelas da região. Desde às ações da Dilma até ao processo de impeachment: oportunidade perdida no cenário político.

Dito isto, o Brasil e os meus conterrâneos brasileiros ficarão bem. Não necessariamente porque a situação vai melhorar (pelo menos num futuro próximo, uma vez que se avizinham eleições e aqueles que estão no poder não estarão dispostos para implementar as audaciosas medidas necessárias para um avanço das condições que, por acaso, soa irónico?), mas simplesmente porque nós humanos temos uma incrível capacidade de adaptação a qualquer situação a que sejamos sujeitos. Os brasileiros são um povo duro – as circunstâncias ensinaram-lhes a ser. E quando a dureza não é suficiente para resolver, então eles têm tendência para encontrar uma forma de conseguir que as coisas funcionem – à sua maneira. Em frente para a próxima oportunidade!

Wilson Bastos é Professor Auxiliar de Marketing da Católica Lisbon School of Business & Economics
wilson.bastos@ucp.pt