Contra todos os prognósticos, o Partido Servos/Servidores do povo, de Vladimir Zelenski, Presidente da Ucrânia, conseguiu a maioria absoluta nas eleições antecipadas para a Rada Suprema (Parlamento) ucraniana. A partir de agora, ele tem todas as condições para realizar o seu programa.

Antes de analisar os desafios que se colocam perante os novos dirigentes ucranianos, é indispensável tirar algumas conclusões deste escrutínio.

A primeira é que os resultados confirmam uma vez mais que os nacionalistas não têm a importância na vida política ucraniana que lhes é atribuída pela propaganda de Moscovo e difundida para o mundo pelos órgãos de informação do regime russo: RT, Sputnik, etc.. Nenhum partido nacionalista superou a barreira necessária para eleger deputados e, se algum foi eleito nos círculos uninominais, não deverá ter relevância nos trabalhos da Rada Suprema.

Por isso, esperemos que políticos como Mamadou Bá deixem de ver “neonazis ucranianos” a desfilar nas ruas de Lisboa.

A segunda é que estas eleições reafirmam que a população ucraniana está farta de elites corruptas, quer viver num país novo, democrático e não ser obrigada a emigrar para sobreviver. Actualmente, cerca de 10 dos 40 milhões de ucranianos tiveram de ir para outras paragens devido às dificuldades económicas e sociais.

A terceira é que, não obstante todas as dificuldades, na Ucrânia foi realizado um escrutínio democrático. Neste sentido, o êxito das políticas de Zelenski poderá ser um exemplo não só para a oposição ao Presidente Putin, mas para toda a sociedade russa. Os laços que ligam os dois países são bem mais fortes do que muitos pensam.

Quanto aos desafios que enfrentam Vladimir Zelenski e o seu jovem partido, eles são de realização difícil, mas não impossível.

O combate à corrupção será um dos principais desafios. Sem uma mudança radical neste sector não haverá investimento estrangeiro, nem modernização do tecido industrial e económico do país. A economia continua a ser controlada por oligarcas que estão mais interessados no lucro imediato do que na modernização e desenvolvimento do país. Zelenski prometeu começar a limpar a Ucrânia dessa peste, mas a desoligarquização não será tarefa fácil. Isto é tanto mais importante se tivermos em conta que são muitos os que afirmam que o actual dirigente ucraniano está dependente de um deles: Igor Kolomoisky.

O dirigente da Ucrânia colocou como objectivo fundamental da sua política a libertação dos prisioneiros ucranianos que se encontram nas prisões russas, nomeadamente os marinheiros que foram capturados no Estreito de Kertch. Além disso, prometeu normalizar a situação no Leste do país, onde separatistas dirigidos por Moscovo controlam parte do território ucraniano.

Aqui, muito irá depender de Vladimir Putin. Nas palavras, ele afirma que a Rússia não é parte do conflito, mas quando se trata de conversações e decisões, Moscovo quer ter uma palavra decisiva. Algum tempo após a eleição para o cargo de Presidente, Zelenski teve a coragem – sim, porque é preciso ter coragem – de telefonar ao seu homólogo russo, a fim de dar início a um diálogo muito difícil, mas indispensável.

Mas, se o diálogo se estabelecer, há uma linha vermelha que Zelinski não poderá atravessar: a Crimeia e os territórios ocupados pelos separatistas pró-russos, ou seja, pela Rússia, são parte integrante da Ucrânia.

A Rússia e a Ucrânia precisam também de conversar e chegar a acordo não só sobre os fornecimentos de gás russo a Kiev, mas também sobre o trânsito desse combustível para a Europa.

E por falar em Europa, Bruxelas tem de ter uma política mais activa no apoio a Vladimir Zelenski e às suas reformas, porque, se estas falharem, a Ucrânia poderá transformar-se num gigante país falhado no meio do Velho Continente ou tornar realidade o sonho de Vladimir Putin na sua luta pela influência no antigo espaço soviético.

Kiev tem razões para desconfiar do apoio europeu. Basta olhar para a recente decisão da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, que decidiu readmitir no seu seio a Rússia depois de a ter expulso devido à anexação da Crimeia em 2014.

No que respeita aos Estados Unidos, Zelenski desenvolve esforços para reforçar as relações, incluindo militares, com eles, mas Donald Trump parece virado para outros lados.

Zelenski não pode falhar!