Hoje a guerra civilizada não se faz com armas faz-se com o comércio, ou a ausência dele. Os sinais da próxima crise estão aí. Não sabemos qual vai ser a sua intensidade nem quando eclodirá. A sua base, para já, são variadas rixas comerciais que ainda não se converteram em guerras comerciais entre os três grandes blocos económicos: EUA, China e Europa. Existe um abrandamento da economia mundial, um sentimento de ansiedade nos mercados que se reflete na procura de ativos com pouco risco mesmo que com rendimentos baixos ou mesmo negativos! As obrigações do Tesouro, garantidas pelos Estados soberanos, são o exemplo mais paradigmático com taxas de “juro” negativas, mesmo a prazos longos, mas a subida da cotação do ouro, a valorização do ainda seguro dólar, são outros sinais da instabilidade e incerteza.

A Alemanha, sendo um país extremamente aberto ao exterior, será porventura o país mais exposto à guerra comercial entre os EUA e a China, que a afeta particularmente e de forma mais modesta se expande à Europa. Poderá entrar em recessão ainda este ano. A introdução de tarifas aduaneiras nos EUA a produtos europeus, obviamente que levará a uma resposta proporcional da UE em relação aos produtos americanos reduzindo o crescimento económico de ambos os blocos económicos e em particular dos países mais abertos ao comércio internacional originando recessão nos mais abertos ao comércio internacional.

Para os que têm dúvidas sobre a importância de termos uma União Europeia forte, e que há grandes problemas planetários e europeus que só se resolvem com uma acção determinada da Europa é ver o que sucedeu com a protecção da floresta da Amazónia e com os fogos nas últimas semanas. Há meses atrás, Bolsonaro alterou unilateralmente a estrutura de governação do fundo Amazónia, criado para promover a sustentabilidade da floresta. De tal forma que a Noruega e a Alemanha, os grandes financiadores do fundo, suspenderam as suas contribuições. Recentemente o governo federal brasileiro sugeriu que as ONG podem estar por detrás dos Incêndios devastadores num dos grandes pulmões do mundo que devasta também reservas naturais habitadas por povos indígenas. As respostas a estes desvarios bolsonarianos foi interna e externa. Os governadores de 9 estados brasileiros vieram a terreiro afirmar que discordam do governo federal e que são defensores incondicionais do fundo Amazónia. Ao nível externo, a Europa infelizmente ainda não fala, mas os líderes europeus falam. É Macron quem vem primeiro afirmar que o problema dos incêndios é um problema global que Bolsonaro “mentiu”e que não respeita os compromissos ambientais que assumiu. Sugeriu ainda que este tema fosse colocado na reunião do G7 e a seguir Merkel vem dar apoio à ideia. Mais, que a atitude do Brasil pode pôr em causa o acordo entre a UE e o Mercosul e que outros países, como a Finlândia e a Irlanda, se posicionam do mesmo modo. Aqui a atitude da França e da Irlanda, que a secundou, não é desinteressada pois ambos os países temem pelas consequências do tratado ao ameaçar os produtos agrícolas e a sua produção bovina. Mas é útil que a Europa, a várias vozes, tenha condenado as posições de Bolsonaro e que a sua pressão se junte à dos governadores brasileiros e faça perceber à própria agro-indústria brasileira o que pode estar em causa.

É também de comércio que se fala quando se pensa no Brexit e numa eventual saída sem acordo do Reino Unido (RU) a 31 de Outubro. A acontecer, a União Europeia, teria que erguer barreiras alfandegárias como para qualquer país terceiro. Aquilo que se passou na última semana com Boris Johnson a falar presencialmente com Merkel e Macron, é uma de duas coisas, ou ambas. Ou uma operação de cosmética para efeitos domésticos e mostrar que fez o que estava ao seu alcance para ter um melhor acordo com a UE, e falhando, culpar os europeus antes de umas eleições. Ou avaliar seriamente até onde estão dispostos a ir os europeus. A mensagem, embora em tons diferentes saiu clara de Merkel e Macron. A bola está do lado dos britânicos. Qualquer proposta de solução alternativa ao “backstop”, para evitar uma fronteira física entre as duas irlandas, teria de partir de Boris Johnson. A única alternativa de que se fala é a proposta inicial da UE de colocar uma fronteira marítima no mar da Irlanda, à semelhança do que já acontece com portos e aeroportos. O Brexit tem também uma dimensão comercial e um impacto económico não despiciendo.

Dos lados de Itália, a última semana também foi pródiga em acontecimentos. Matteo Salvini, da Liga Norte (de extrema direita), vice-primeiro ministro e ministro do Interior jogou a sua cartada – uma moção de censura ao seu próprio governo – com a expectativa de derrubar o governo e ter eleições antecipadas, para com a forte maioria que lhe dão as sondagens poder ter “plenos poderes” nas suas próprias palavras. Não teve o que queria, mas o tiro não terá saído completamente pela culatra apesar da demissão antecipada do primeiro ministro. Criou divisões dentro do Partido Democrático (centro-esquerda) entre os que defendem uma coligação com o movimento populista do cinco estrelas e os que se opõem. Na eventualidade da coligação se formar será novamente uma coligação contra-natura sem grandes prospectos de sucesso. Salvini e a sua Liga Norte poderão ficar de fora e capitalizar o descontentamento popular para as próximas, ainda que mais longínquas, eleições.
Claro que todas estas peripécias da política italiana não tocam no essencial. A estagnação da economia italiana, a sua muito elevada dívida e a crise dos refugiados que diariamente continuam a dar à costa.

Face ao aproximar da crise a Europa está ainda a reorganizar-se, a Comissão Europeia (CE) de Ursula von Leyden está a formar-se. Não corroboro o desencanto de alguns por a Presidente, não ser o líder (spitzenkandidat) designado pelo maior grupo parlamentar mais votado (PPE), Axel Weber. Se é verdade que seria um método mais democrático e transparente, no caso concreto levaria à escolha de um líder fraco e sem experiência executiva. Ora, a estratégia no passado de alguns líderes europeus de escolherem Presidentes da CE fracos (como seria o caso de Weber) tem sido precisamente de manterem o poder do Conselho Europeu e enfraquecerem a Comissão. Paradoxalmente, o uso de um método menos democrático (assente em última análise no Conselho e não no parlamento) poderá ter levado a uma escolha mais sólida para uma CE mais forte.
A única vantagem desta crise, sobretudo comercial, é que nas guerras comerciais todos perdem, o que é um limite para o seu agravamento. De qualquer modo, a Europa é cada vez mais necessária, mas continua arrastando os passos e à procura do seu caminho.

P.S.: Nesta semana assistiu-se a uma série de reações despropositadas ao despacho do secretário de Estado da Educação com medidas administrativas de integração de crianças e jovens trans nas escolas. Sou co-fundador da AMPLOS, associação de mães pais e pais pela liberdade de orientação sexual e identidade de género que emitiu um comunicado sobre o assunto. Remeto também para o excelente artigo aqui no Observador de Miguel Pinheiro. Marçal Grilo na RTP3, falou também muito bem! Com posições contra direitos fundamentais de crianças e jovens, o CDS pode mesmo vir a tornar-se o partido do táxi.