Bruno de Carvalho

Bater no fundo /premium

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Que país somos, afinal? Seremos talvez o país da irreverência reverente, que tanto goza como adula, sejam líderes partidários sejam (sobretudo) presidentes dos (nossos) clubes.

Como tudo já foi dito sobre Bruno de Carvalho, eu vou dizer mais uma coisa.

Primeiro. Quando alguém já não tem ninguém do seu lado, ninguém se quer sentar ao seu lado (nem num estádio de futebol), um a um, com (sete?) excepções, todos os seus seguidores o desertam, e mesmo assim se mantém, não desiste, persiste, que dizer desse alguém, o que o motiva, porque motivos resiste, contra a razão, a lógica e o bom senso? Posso pensar em vários motivos, sem ter ideia da veracidade de qualquer deles: uma distorção cognitiva, de pensamento dicotómico ou raciocínio emocional, um sentimento de todos estarem contra si sendo sua a razão; temer que a saída do cargo o leve à ruína, penal ou cível; um extremo narcisismo. De certa forma, é como o condutor que guia pela esquerda da estrada, indignado por todos os outros guiarem à direita. A razão é sua, pensa ele.

Segundo. Há pouco mais de dois meses ninguém diria que BdC cometeria um tão acelerado suicídio. Estranho é que alguém tão claramente desprovido de princípios, tão soezmente reles na linguagem e no comportamento, fosse apoiado por tanta gente que, no seu dia-a-dia, decerto não aprova essa linguagem e comportamento. Porque o fizeram? Acharão que os fins justificam os meios? Talvez pensassem que, para ganhar campeonatos, é preciso ser-se assim.

Terceiro. Estão errados. E para começar por onde é preciso começar, este episódio tem de servir para erradicar de vez do futebol todos os comportamentos reprováveis por gente de bem: que os dirigentes dirijam com transparência e lisura; que a corrupção, as luvas, as comissões milionárias que depauperam os clubes desapareçam; que as famílias, os meus e vossos filhos, possam frequentar sem medo da violência os campos de futebol. E que, com base numa justiça célere e justa, qualquer crime provado, de clube ou pessoa do meio, seja punido.  Que a paixão prevaleça, sem fanatismo nem maniqueísmo. Não vale tudo.

Quarto. A comunicação social precisa de audiências. Tem de vender e atrair publicidade. É normal. Mas não é normal, nem civilizado, que os horários nobres de todas as televisões noticiosas (por cabo) sejam quase exclusivamente ocupadas por futebol noites a fio, com painéis de comentadores que se digladiam sem piedade a debitar inanidades, sempre as mesmas, repetidas ad nauseam. Há uma função social que os meios de comunicação social, que não são culpados de mais do que isso mas que disso são culpados, devem cumprir; resumir a actualidade noticiosa, por exemplo, ao caso Sócrates (ou Pinho, ou outro) e ao caso BdC (ou SLB ou FCP) durante longas e fastidiosas horas, não preenche essa função.

Quinto. Miguel Sousa Tavares, que aprecio, não pode ser ingénuo ao ponto de crer que num país tão carenciado de sentido de humor e tão dado a interpretações literais, uma frase como “os brunos de carvalho têm de ser mortos à nascença” ia ser entendida como aquilo que é: uma chamada de atenção para os riscos do populismo e como tantas pessoas inteligentes parecem prontas a seguir o apelo do primeiro demagogo que surja, no futebol mas também na política, como resulta da sua crónica – e isso ainda é mais assustador.

Sexto. As claques. Depois de expulsarem os criminosos e cadastrados, depois de expulsarem os que infringem as regras da civilidade em recintos desportivos, depois de expulsarem quantos fomentam o ódio, depois de se convencerem que o seu papel é apoiar o seu clube e jogadores sem atacar os outros, dar cor e animação ao espectáculo, saudar a vida e rejeitar a violência, as claques serão bem-vindas, parte integrante do futebol. Mas só depois.

Sétimo. Os políticos no activo deviam coibir-se de participar em programas de comentário do futebol. Porque sim.

Oitavo. Os jogadores ganham dinheiro a jogar futebol, alguns, poucos, em Portugal talvez só os pertencentes a quatro clubes, ganham muito dinheiro. São profissionais e vivem do que sabem fazer: chutos fortes, fintas estonteantes, cabeçadas de perder a cabeça e uma bola a acompanhar. Trabalham para os clubes que nos apaixonam uma ou duas temporadas, raramente mais; depois, em troco de milhões, os dos tais quatro, ou tostões, os outros, mudam de clube, de fidelidade, são adeptos desde pequeninos do novo patrão. Se não ganharem hoje, ganharão amanhã, pelo menos dinheiro, alguns mesmo muito dinheiro. Mesmo que nos custe, um jogador de futebol, o nosso ídolo, é um assalariado (ele sim), que serve quem lhe paga melhor. Temos o direito de lhe exigir compromisso, lealdade, empenho. Mas não temos o direito de o acusar sem provas nem, muito menos, de o agredir ou levar a que seja agredido por acção, omissão ou contágio. Isso não.

Nono.  O que BdC nos ensina sobre o país que somos, perguntou ontem no Macroscópio José Manuel Fernandes, percorrendo um conjunto significativo e muito interessante de crónicas sobre o tema do momento. Curiosamente, entre assuntos tão importantes como a doença do futebol, a sua exterioridade à justiça comum, o populismo e o papel das redes sociais, o jornalismo desportivo, ficou de fora, parece-me, justamente o que tudo isso nos ensina sobre o país que somos. Que país somos, afinal? Não chegaria uma crónica inteira. Nem há uma única resposta. Seremos talvez o país da irreverência reverente, que tanto goza como adula, sejam líderes partidários sejam (sobretudo) presidentes dos (nossos) clubes. Um país que inventa anedotas como que por geração espontânea, que critica ferozmente as instituições e os seus servidores nas redes sociais mas hesita, quiçá recua, quando tem de dar a cara. Somos contraditórios e exasperantes, mesquinhos e magnânimos. Somos portugueses. Mas não convém abusar.

Décimo. O futebol português bateu no fundo. Mas por vezes, em Portugal, parafraseando um político da nossa praça, o fundo afunda-se ainda mais. Esperemos que não seja o caso. A bem do prazer que temos em ver futebol, pelo amor que sentimos – e temos o direito de sentir – pelos clubes que escolhemos para a vida.

Contra o ódio. E contra a estupidez também, sobretudo a estupidez.

Pronto, já disse a coisa que tinha a dizer.

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