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Filosofia

Bom senso

Autor
  • António Rocha Martins

O bom senso é a aptidão a bem julgar, a arte de deslindar os fios embaraçosos, mantendo uma fiel submissão à realidade. Neste sentido, ele será sempre inimigo tanto da casuística como do rigorismo.

Nestes tempos dados a fomentar pseudo-casulos e a prolongar a diversidade das opiniões em divergências insanáveis, talvez seja útil lembrar o significado destas duas pequenas-grandes palavras: “bom senso”. Reclamamo-lo insistentemente, mas tomamos a atitude que precisamente dizemos desprezar.

É um tema tratado explícita ou implicitamente por todos os filósofos. A sua história começa pelo menos em Platão. À medida que a complexidade do conceito vai ganhando corpo, distinguir-se-á vincadamente de dois outros termos com os quais jamais poderá confundir-se, “sentido comum” e “senso comum”. Algumas línguas preservam, mais claramente do que outras, essa distinção. No caso do português, a utilização do termo não deixa equívocos possíveis. Dizemos “bom senso” e não “sentido comum” (como em castelhano, por exemplo, sentido común), fazendo também a diferença perante “senso comum” (em inglês, o uso mais reiterado é common sense).

Vejamos, então, em que consiste o bom senso. O melhor caminho é o das palavras. É tema de uma das investigações éticas de Sócrates, no Cármides de Platão. Pretende-se saber aí o significado de sophrosyne, que podemos traduzir por “autodomínio”, “moderação”, “sensatez”. Não se chega a uma definição segura. A investigação será retomada por Aristóteles, através dos termos phronesis e eusunesia. O primeiro, como já aqui o referimos, está na origem da nossa prudência. Mas, dada uma deficiente conceção que muitas vezes se tem dela (uma ideia mais de passividade do que de atividade), o termo phronesis tende hoje a ser traduzido por “sabedoria prática”, “sensatez”, “racionalidade prática”.  Por sua vez, eusunesia resulta da composição do prefixo eu (que significa ‘bom’, ‘bem’, ‘verdadeiro’…) com o sufixo sunesis (cujo significado é ‘compreensão’, ‘entendimento’, ‘discernimento’…). Eusunesia significará, desta maneira, “boa compreensão”, “bom entendimento”, “correto discernimento” ou mesmo “sensatez” (EN 1143a).

Agora, note-se: desde logo fica claro que nem todos os homens são sensatos, pela simples razão de que o bom senso estará sempre além quer da ciência, quer da opinião. Reconhece-se-lhe uma função de comando, sendo definido como a capacidade de retamente discernirmos o que é equitativo. Significa, então, de algum modo a medida de todos os nossos atos, adaptando-se e acrescentando novas janelas ao que vamos encontrando. Aristóteles oferece dele a sugestiva imagem dos pedreiros de Lesbos, cuja régua (regra), ao que parece, se aplicava exatamente às asperezas do muro. É claro que esta conceção de bom senso exige que reconheçamos a existência de uma natureza humana comum. 

Ora é este sentido de parentesco e conaturalidade que transitará para o Ocidente Latino. Os termos pelos quais o bom senso é aqui denominado são bona mens e recta ratio. Desde Séneca, passando por Agostinho de Hipona, até Descartes, por exemplo, o bom senso esclarece-se nuclearmente como regra (“régua”) da vida, da vida boa (que não devemos confundir com boa vida!). Descartes – quem de nós não evocou por uma vez o nome deste filósofo? –, dedica-lhe mesmo a sua única obra escrita em “linguagem vulgar”.  De tal forma este tema lhe parecia importante que afirma estranhar haver “tantos a estudar os costumes dos homens, os movimentos dos astros, as propriedades das plantas” e “quase ninguém a pensar o bom senso (bona mens)”, em função do qual justamente “tudo deveria ser apreciado”.

Dito isto, seguir ou não o bom senso marcará a diferença entre os caminhos da virtude e os do vício, a dedicação e o egoísmo. A questão de fundo, digamos assim, é o agir, saber o que se deve ou não fazer, pois a vida está no movimento (vita in motu), como diziam os Antigos. Neste ponto não há progresso tecnológico que possa preencher ou substituir a experiência humana. O homem de hoje é idêntico ao homem de ontem, sendo igualmente sensível à alegria e à dor. O fio dos dias da vida corrente provoca-nos a opções urgentes. Nas nossas incertezas, surge uma interrogação: “Que fazer?”. A resposta esperada não poderá ser uma declaração teórica no indicativo; é uma solução ativa no imperativo. Não podemos por isso dispensar-nos de agir. É assim que o bom senso visa diretamente a prática, indicando: “eis o que se deve fazer”. Imagine-se uma situação confusa. O bom senso é a aptidão a bem julgar, a arte de deslindar os fios embaraçosos (enredados, enovelados), mantendo uma fiel submissão à realidade. Neste sentido, ele será sempre inimigo tanto da casuística como do rigorismo. Da casuística, porque ela vive sob influência das sugestões do meio (sentimentos, interesses…), caindo em rotinas e automatismos. O bom senso é adversário também do rigorismo porque não se prende a princípios abstratos, sempre estranhos às conjunturas atuais; fazem corpo com ele, sim, mas para inspirar as suas apreciações e perceber as nuances delicadas. Por outras palavras, o bom senso manterá sempre os sinais de moderação, de equilíbrio e de acerto (justeza, precisão, rigor). Dele dirá Henri Bergson, grande filósofo francês que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, em 1927, tratar-se de um instinto virtual, lastrado de inteligência (Le deux sources de la morale et de la religion, pp. 22-23).

Em síntese, a grande lição dada por todos os filósofos é que o bom senso é sempre uma intenção refletida e dirigida perante problemas que a vida levanta e não podemos iludir. O bom senso resgata-nos de uma conceção abstrata da verdade, que se pretende começo absoluto ignorando a história em que se implanta.  Richard Rorty, possivelmente o maior filósofo de século XX, considera que o mundo atual precisa de especialistas do amor e da diversidade, para colmatar a deficiência dos especialistas do concreto e do local (historiadores, romancistas, etnógrafos, jornalistas, etc.). Rorty segue o caminho da solidariedade, descrevendo-a como a capacidade de ver cada vez mais as diferenças tradicionais (tribo, religião, raça, costumes, etc.) como não sendo importantes, em comparação com semelhanças no que respeita à dor e à humilhação – a capacidade de pensar em pessoas muito diferentes de nós como estando incluídas na esfera do “nós” (Contingency, Irony, and Solidarity, p. 192). Apropriando-nos do que Rorty diz sobre a solidariedade, apliquemo-lo aqui ao bom senso: o bom senso é pensamento que se conserva livre, perspicácia, destreza, leveza, subtilidade de atitude, atenção à vida, ajustamento sempre renovado a situações sempre novas.

Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

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