Violência Doméstica

Controlar não é amar

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A violência no namoro ainda não ocupa páginas de jornais nem abre noticiários, mas estará lá perto. É muito comum rapazes e raparigas não terem noção do seu papel de vítima ou agressor.

Lembro-me de quando vivia em Londres, há muitos anos, ficar completamente horrorizada com os números divulgados pelos meios de comunicação social de casos de suicídio e homicídio ocorridos no Dia dos Namorados, o famoso Dia de S. Valentim. O impacto psicológico que uma efeméride, que tem sobretudo uma conotação comercial, exercia (e ainda exerce) sobre as pessoas, é verdadeiramente preocupante. A solidão, os desgostos passionais, as desilusões fruto da construção de uma história de amor ideal, culminavam numa morte, que eu diria, evitável.

Hoje é Dia dos Namorados. E a palavra que escolho para esta partilha é prevenção. Prevenir sofrimentos que podem deixar marcar irreversíveis e perpetuar outras, em cascata.

A Associação que fundei e presido há 7 anos, Corações Com Coroa (CCC) tem trabalhado afincadamente a temática da violência no namoro em Portugal. Comparando com os dados sobre a violência doméstica, as estatísticas sobre esta realidade, são ainda escassas, mas já revelam um cenário que exige uma resposta urgente, eficaz e em várias frentes por parte de todos, incluindo governo, parlamento, institutos públicos, serviços, academia, sociedade civil, educadores.

Segundo um estudo da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) 28% dos jovens (rapazes e raparigas) considera normais os comportamentos de controlo. Se pararmos para absorver estes números, só poderemos chegar à conclusão que a não inversão destas percentagens irá conduzir, com toda a certeza, a um aumento dos casos de violência doméstica e da violência com base no género.

O estudo acrescenta ainda que 22% dos rapazes considera “legítima” ou “justificável” a violência sexual; 33% considera “legítima” ou “justificável” a perseguição e 19% das raparigas também. A violência nas redes sociais é tolerada pelos adolescentes por acharem normal, numa percentagem que vai dos 11% aos 24%. A vitimização apresenta valores de 6% no que diz respeito à violência física e sexual e 19% em relação à violência psicológica. O reconhecimento de atos como violência (“não legítima”) é de 16% para o sexo feminino, comparativamente com os 27% do sexo masculino.

As relações de intimidade saudáveis, consentidas e as não saudáveis e forçadas, o bullying, o cyberbullying, a gravidez adolescente são, entre outros, temas abordados pelo projeto artístico pedagógico CCC vai à Escola que a associação tem levado a dezenas de escolas do país. Elfos e Anões é um texto original de Jorge Palinhos com encenação de Natália Luiza, representado por dois atores, em contexto de sala de aula, para turmas do 9.º ano, seguido de uma sessão-debate orientada por uma técnica da CCC. São muitos os casos de violência no namoro que têm sido relatados e/ou identificados pela equipa e nem sempre na 3ª pessoa.

Efetivamente é muito comum rapazes e raparigas não terem noção do seu papel de vítima ou agressor. Isto porque existem muitos conceitos que estão, de facto, baralhados nas suas cabeças. No final da sessão do CCC vai à Escola, a cada estudante é oferecido um cartão (com contactos de linhas de apoio) que poderá assinar, numa espécie de compromisso pessoal, para que nunca se esqueça: “Por amor não se faz isto:” e “Por amor não se sofre isto”. Recentemente escrevi a letra para uma canção que é uma espécie de hino contra a violência no namoro – O que é ser Normal? Apontar o dedo ao mal – composta e produzida pelo Tiago Bettencourt, e cantada pela atriz Daniela Melchior. O tema foi inspirado em muitos testemunhos que fui ouvindo ao longo dos anos de cada vez que visito escolas para fazer palestras, para além do material recolhido pelas nossas técnicas, nas consultas na sede CCC e nas sessões CCC vai à escola.

A violência no namoro ainda não ocupa páginas de jornais nem abre noticiários, mas estará lá perto. Infelizmente e por várias razões, uma delas, talvez a menos óbvia é a abordagem que se faz dos casos de violência doméstica e que se adivinha virá a ser a mesma em relação à violência no namoro. Uma abordagem que não se baseia no conceito de direitos humanos e que muitas vezes tem um efeito multiplicador quando não se oferece um enquadramento sério, não se disponibilizam as linhas e os serviços de apoio existentes, não se informa devidamente sobre o contexto social, não se evita o sensacionalismo, não se diversificam as fontes e não se respeita as vítimas no seu direito à reserva da intimidade e privacidade, esmiuçando pormenores que alimentam populismos  e inspiram outros. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) veio manifestar a sua preocupação em torno das notícias veiculadas nas últimas semanas sobre os crimes ocorridos, lembrando que a imprensa tem um papel decisivo na formação da opinião pública, assumindo particulares responsabilidades em matérias sensíveis. Temos de querer estar mais e melhor informados para podermos contribuir para uma sociedade que combate e recusa verdadeiramente a violência.

Há já 19 anos que, enquanto Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), recolho testemunhos de adolescentes que vou conhecendo nos países em desenvolvimento e neste Dia dos Namorados, deixo uma homenagem sentida a todas as milhares de raparigas que conseguiram dizer Não a um casamento precoce ou forçado e às que acabaram como vítimas, sendo que estão em risco 150 milhões, se nada se fizer para evitar este desfecho até 2030. Mundialmente, uma em cada cinco jovens casa antes de completar os 18 anos.

Homenageio também as cerca de 200 milhões de meninas, raparigas e mulheres que foram sujeitas a uma mutilação genital feminina com o argumento de “virem a casar bem, com um bom marido” porque só depois dessa prática nefasta, são consideradas “puras” ou “adequadas” para serem desejas e escolhidas.

Abraço ainda, as demasiadas jovens que se transformaram, sem saber muito bem como, em meninas mães devido a uma gravidez precoce que lhes colocou a saúde e os direitos em risco e lhes roubou ou limitou a possibilidade de estudar ou de ter a profissão que desejavam, não lhes permitindo ter opção sobre a sua própria vida. E alegadamente, tantas vezes, por “amor”.  Ainda esta semana, o Banco Mundial anunciou que o Brasil poderia aumentar a produtividade anual em 3,5 mil milhões de dólares se as adolescentes engravidassem só depois dos 20 anos.

Não esqueço uma rapariga moçambicana que entrevistei para o meu programa Príncipes do Nada, a propósito de ter sido mãe aos 13 anos, e que me disse “eu não sabia que podia dizer não. Tinha medo que ele me deixasse e nunca mais gostasse de mim”. Ele, o rapaz, era mais velho e nunca chegou a assumir a responsabilidade enquanto pai. Uma menina em tantas a engrossar as estatísticas que nos deveriam envergonhar a todos e fazer agir, por AMOR a um mundo bem mais igualitário e justo, onde ninguém deveria ser deixado para trás.

PS – Deixo os contactos da Corações Com Coroa: coracoeescomcoroa@gmail.com; ccc@coracoescomcoroa.org; www.coracoescomcoroa.org; 935 038 798 | 215 990 053

Presidente da Associação Corações Com Coroa (CCC). Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA

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