Acho que até os anos 80 ou 90, acontecia uma coisa muito impressionante com as crianças: elas eram criadas como crianças. As atividades principais eram estudar e brincar. Nada além disso. Os pés podiam ficar sujos por brincarem descalças, as roupas não eram importantes e a sensação de missão cumprida por parte dos pais era atingida quando as crianças passavam de ano e, acima de tudo, quando eram visivelmente felizes.

Não sei bem o que aconteceu para que as coisas mudassem. Mas apostaria no constante e cruel clima de competitividade no qual vivem os adultos de hoje. Especialmente os nascidos nas décadas de 70 e 80, como é meu caso, enfrentaram (e ainda enfrentam) um ambiente profissional — e, consequentemente, social também —  que funciona quase como uma corrida: quem é o melhor, quem ganha mais, quem foi promovido antes, quem corre mais quilómetros, quem tem o cargo mais alto, quem tem mais reconhecimento.

Só que esses adultos ultra competitivos viraram pais. E começaram a usar as crianças como mais uma ferramenta para comprovar o seu sucesso. Escolhem as melhores escolas, as melhores atividades complementares, as melhores roupas, os melhores brinquedos, os melhores alimentos. Chamam isso de amor, uma vez que acarreta em aumento de despesas. Mas não é difícil perceber que, frequentemente, tudo isso tem muito mais de vaidade do que de afeto.

As notas precisam ser altas. Dificuldades que resultem em perda de rendimento não são admitidas. Sujar as roupas? Nem pensar. Brincar descalços? Só na praia. E desde que não entre areia no carro. Nos “tempos livres” as crianças tocam piano, aprendem mandarim, jogam ténis, dançam ballet. Técnica, regras, performances. Espontaneidade? Não há tempo para isso.

Brincar tornou-se secundário. Secundário e chato. Porque não pode ter sujeira, não pode ter gritaria, não pode ter correria. Daí a secreta paixão dos pais pelos eletrónicos (de preferência com fone de ouvido, sejamos sinceros). O que os pais querem, são miniaturas de adultos, não crianças. Desses que saem de casa às 8 da manhã, voltam às 5 da tarde, tomam um banho, completam suas tarefas do dia, comem sem se sujar, brincam sem bagunçar. Adultos, não crianças.

Em Portugal há uma expressão que me impressiona muito, dita frequentemente às crianças: “tens muito jeito”. Quando uma criança dança ou joga bola, os adultos avaliam a performance e classificam em ter ou não ter jeito para a coisa. Quando a performance é satisfatória, a frase “tens muito jeito” é dita, em forma de elogio. E aí eu me pergunto: as crianças só devem dançar, cantar, jogar bola ou fazer acrobacias quando levam jeito? Caso contrário é melhor parar?

As crianças não têm que ser boas no que fazem. Elas têm que gostar do que fazem. Têm que ser felizes dentro das possibilidades. Filhos não são instrumentos de competição, nem de realização pessoal. Filhos são indivíduos em busca de felicidade. E era para isso que os pais deveriam servir, para facilitar esse caminho. Não para exigir as melhores notas na escola, boas avaliações nos cursos de língua estrangeira, roupas limpinhas no final de um domingo e brincadeiras serenas e silenciosas. Porque isso, definitivamente, não é coisa de criança. Pelo menos não de criança feliz.