Com um caminho contínuo para a digitalização do ensino em Portugal, é necessário debater em torno do uso de manuais digitais versus manuais em papel nas salas de aula. A adoção de tecnologia na educação foi vista por muitos como um caminho inevitável para o futuro, mas as recentes reflexões, em países como a Suécia, levantam questões sobre os reais benefícios do digital em detrimento do tradicional.

Uma das vantagens mais evidentes dos manuais físicos é o seu impacto positivo no desenvolvimento cognitivo dos alunos. Estudos têm consistentemente demonstrado que a leitura em papel facilita uma melhor compreensão e retenção de informações em comparação com a leitura digital. A capacidade de folhear as páginas, sublinhar passagens importantes e fazer anotações promove uma interação mais significativa com o material, contribuindo para uma aprendizagem mais eficiente. Além disso, os manuais em papel oferecem um ambiente de estudo livre de distrações, enquanto os dispositivos eletrónicos frequentemente levam os alunos a se distraírem com notificações visuais e sonoras.

Um exemplo disso mesmo é o estudo realizado pela Universidade de Calgary que concluiu que o uso excessivo de ecrãs por crianças pequenas estava diretamente relacionado com um menor desenvolvimento da linguagem expressiva. Além disso, outro estudo conduzido pela Universidade de Toronto sugeriu que o uso exagerado de dispositivos eletrónicos por crianças em idade pré-escolar estava associado a atrasos no desenvolvimento da fala e da linguagem. Essas pesquisas destacam os potenciais impactos negativos do uso intensivo de tecnologia na fase de desenvolvimento das crianças, reforçando a importância de abordagens equilibradas na introdução de recursos digitais nas escolas.

Além desses desafios, é importante reconhecer que o uso excessivo de dispositivos digitais tem sido associado a uma série de problemas de saúde, incluindo distúrbios do sono, fadiga ocular e dores de cabeça. O regresso aos manuais em papel pode ajudar a mitigar esses problemas, promovendo uma relação mais equilibrada com a tecnologia e reduzindo os efeitos negativos do tempo excessivo de exposição ao digital.

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É igualmente importante admitir que nem todos os alunos têm acesso igualitário a dispositivos digitais ou a uma conexão de internet estável, mesmo após o esforço do Ministério da Educação para aumentar os computadores nas escolas e reforçar as ligações wi-fi das mesmas. Assim, depender exclusivamente de manuais digitais pode ampliar as desigualdades, em contrapartida, os manuais físicos garantem a igualdade de acesso ao material didático para todos os alunos.

Além dos benefícios mencionados, os manuais físicos desempenham um papel importante na preservação da tradição e no prazer de ler. O ato de segurar um livro físico, sentir o seu cheiro, a sua textura e as suas páginas é uma experiência enriquecedora que não pode ser replicada no digital e que pode ser o estímulo necessário para que os jovens adquiram o gosto da leitura.

Considerando os argumentos apresentados e exemplos de outros países é evidente que o retorno aos manuais em papel é uma decisão prudente. Os manuais físicos promovem uma aprendizagem mais eficaz, protegem a saúde e o bem-estar dos alunos, garantem a equidade no acesso ao material didático e preservam a tradição e o prazer da leitura.