Esta é a última coluna que publico antes da primeira volta das eleições presidenciais e o normal seria que estivesse a reflectir sobre a bizarra escolha de candidaturas que temos pela frente, mas admito que me falta entusiasmo, no limite paciência, porventura discernimento para acrescentar algo que não seja mais do mesmo.

Para além disso, ou me engano muito ou podemos estar num daqueles momentos da história em que a História acelera, em que em poucas semanas ou meses acontece o que não esperaríamos que pudesse acontecer. Não falo naturalmente do remanso deste nosso cantinho.

“Como é que foste à falência? De duas maneiras. Gradualmente, depois de repente.”
Ernest Hemingway, em Fiesta – O Sol Nasce Sempre

Como é que um regime cai? Gradualmente, e depois de repente. Muitas vezes quando menos esperamos.

Pode ser que estejamos a assistir a um momento destes no Irão. A revolta que tem enchido as ruas mesmo das cidades mais remotas não é como as anteriores – tem uma base social muito mais ampla e até começou entre os que, historicamente, foram suportes do regime, os homens dos bazares.

Sabemos que um regime, quando decide recorrer à repressão mais brutal para conter revoltas, por regra sai vitorioso. Mas também sabemos que a maioria das revoluções acontece quando nos corredores do palácios deixa de haver quem queira defender os ditadores.

Não posso antecipar o que sucederá no Irão, sobretudo agora que sabemos que os Estados Unidos podem mesmo cumprir a ameaça de Trump de intervir se continuar o massacre de manifestantes (no momento em que escrevo, estima-se que o balanço suba já a 500 mortos), pelo que não devemos descartar a hipótese de ataques destinados a atingir a cúpula do regime. Nem antever as suas consequências.

Mas há duas coisas que faço notar.

A primeira é a falibilidade dos analistas especialistas em relações internacionais, aqueles que aconselham sempre prudência e parecem ter medo de tudo. Ainda agora, por exemplo, recuperei um artigo de um desses especialistas, publicado numa das bíblias do establishment, a Foreign Affairs, onde há cerca de ano e meio, uns meses depois do 7 de Outubro de 2023, se tratava de explicar o sucesso da estratégia iraniana de refazer o Médio Oriente. Como ontem tuitava um historiador especialista em Médio Oriente, Ali Ansari, “Deus nos proteja dos modelos de cientistas políticos e das teorias de especialistas em Relações Internacionais. Que sempre compreendamos o contingente e o irracional na ação política.” Sem dúvida.

A segunda, porventura mais importante, é que se a revolução iraniana de 1979, a que derrubou o Xá e entronizou Khomeini, pode ser considerada um dos pontos de viragem do século XX – há um fundamentalismo islâmico antes e outro depois –, a eventual queda do regime pode ter um significado semelhante, mesmo podendo surpreender muitos. Não esqueçamos contudo que a queda do Muro de Berlim ainda foi mais surpreendente.

“Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.
Primeira frase de Anna Karenina, de Lev Tolstoy

Há uma outra forma de escrever esta frase, e que pode ler-se assim: “todas as ditaduras estáveis são semelhantes, cada ditadura frágil é frágil à sua maneira” (estou a citar agora o historiador Simon Sebag Montefiore). E são mesmo, basta pensarmos no que se está a passar na Venezuela, em Cuba, porventura no Irão, tudo países onde a brutalidade das ditaduras era idêntica e onde agora todos tremem, mesmo que tremam de modo diferentes.

A audaciosa operação militar de sequestro de Nicolás Maduro criou de repente a percepção de que mesmo os mais entrincheirados ditadores podem ser apeados quando menos de espera. Há pouco mais de um ano houve um outro ditador que também caiu sem que antes alguém duvidasse da eficácia da sua brutalidade – falo de Bashar al-Assad, dessa vez sem evidente interferência externa.

Entretanto percebemos que o presidente dos Estados Unidos passou a actuar como uma espécie de “grande desestabilizador”, na minha perspectiva não por promover intervenções externas inopinadas – muitos outros o fizeram antes dele –, mas por nunca se saber que aquilo que diz é não para levar a sério ou se está mesmo disposto a usar métodos pouco ortodoxos para alcançar os seus objectivos.

Talvez a grande diferença relativamente aos seus antecessores e à generalidade dos actuais líderes políticos das nossas democracias é que parece capaz de assumir riscos para alcançar os seus objectivos, e quando o faz usa toda a força e todos os meios que tem ao seu alcance, sem estados de alma. Há outro líder assim por estes dias – chama-se Benjamin Netanyahu. Os outros preferem discutir o “direito internacional”.

“A nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a levá-la a sério”.
D. H. Lawrence, em O amante de Lady Chatterley

Vamos lá ser realistas: alguém leva a sério as reacções europeias às (supostas) ameaças de Trump sobre a Gronelândia? Alguém acredita que a pequena Dinamarca poderia defender um território imenso onde, hoje por hoje, tem menos militares deslocados do que… os Estados Unidos? Alguém consegue imaginar uma força europeia transplantada para o Ártico quando na Europa se discute se haverá algum dia capacidade de ajudar a sério a Ucrânia?

Arrisco-me a dizer que entretermo-nos com estes debates e com estes fantasmas é essencialmente trágico. Arrisco-me a acrescentar que a União Europeia dá sinais de estar a entrar numa fase crítica, porventura fatal, da sua existência. O desfasamento cada vez maior entre o descontentamento dos eleitorados e os sonhos irreais de “mais Europa” das eurocracias bruxelenses tem tudo para acabar mal, e vamos ver o que nos trarão as próximas eleições. Este ano pode ser que Victor Orban perca as eleições húngaras (está muito atrás nas sondagens), mas em 2026 a perspectiva de um presidente Bardela em França é cada vez mais real. Mais, e porventura mais importante: entre os grandes países europeus, só um tem mostrado estabilidade e rumo coerente, e esse país é a Itália de Giorgia Meloni. Só isso é um poderoso sinal dos tempos.

Se a estes cenários acrescentarmos o nó cego orçamental – no próximo quadro comunitário vai ser preciso começar a pagar os empréstimos Covid e ninguém sabe como, assim como ninguém sabe ainda como financiar o investimento que vai ter de ser feito em Defesa e é tabu sequer referir que é preciso reformar as imensas dependências que o chamado “estado social” foi criando e que se foram acumulando, acumulando, acumulando.

Já perceberam porque é que eu digo que não se está a levar a sério o que é realmente sério, no limite trágico?

Entretanto este domingo Gouveia e Melo sugeriu que era bom que as eleições se resolvessem na primeira volta. António José Seguro lembrou-se de afastar qualquer cenário de golpe militar. Cotrim de Figueiredo foi almoçar com o embaixador da Dinamarca para falar da Gronelândia. Marques Mendes elaborou sobre a possibilidade de chumbo do próximo Orçamento. André Ventura foi discursar para ao pé de uma estátua de Sá Carneiro.

De facto não me apetece mesmo escrever sobre esta campanha e estas presidenciais.