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Fim de papo. Aleluia. Acaba a época mais longa de sempre em Portugal. Ups, afinal não. A mais longa é aquela em 1982-83. Começa e acaba no mesmo dia, 21 Agosto 1983. Começa em Portimão às 16h00, com o Portimonense-Porto de abertura da 1.ª Divisão, acaba nas Antas às 19h45 (vá, mais minuto menos minuto), com a final da Taça entre Porto e Benfica. Ao todo, um ano e quase quatro horas. Começa com um golo de Gomes às 16h20, acaba com um de Carlos Manuel às 18h20. Esta época é ligeiramente diferente e nem o ano bissexto bate o recorde de há 37 anos. Começa no dia 4 Agosto, com a Supertaça entre Benfica e Sporting, acaba no dia 1, com a final da Taça entre Porto e Benfica. Nem um ano completo, portanto.

Enough is enough. Fim de papo, dizíamos. O Porto, contra todas as previsões, embolsa Campeonato e Taça de Portugal. Contra todas as previsões, porque o Benfica tem mais dinheiro, tem mais jogadores, tem melhores jogadores e, à partida, tem melhor treinador. Bruno Lage, campeão em título. Que conquista a Supertaça com 5-0 ao Sporting e que dobra a primeira volta com sete pontos de avanço sobre o Porto (segundo classificado), numa noite em que volta a derrubar o Sporting, agora em Alvalade (bis do suplente Rafa nos últimos cinco minutos), já depois do Porto desperdiçar duas grandes penalidades na derrota caseira com o Braga de Rúben Amorim. Curioso, dá que pensar. Isto aqui ò: no segundo Conceição-Amorim da época no Dragão, o Porto é campeão (2-0 ao Sporting). E num instante tudo muda, lá dizia o outro.

Dobradinha. Impensável. Muito diferente da dobradinha de 2003 com Mourinho, 2006 com Adriaanse, 2009 com Jesualdo e 2011 com Villas-Boas. As quatro dobradinhas do Porto no século XXI é um mero pró-forma pela capacidade aglutinadora das suas equipas, as mais competentes em todos os aspectos a nível nacional. A dobradinha de 2020 é um tiro no escuro, uma surpresa maiúscula. Lá voltamos nós à superioridade do Benfica, em matéria de recursos humanos. Só que o humano é falível. O do Benfica, insistimos. O do Porto também, atenção. Só que o do Porto reage com um coice. O do Benfica nem reage, quanto mais dar um coice – deixa-se estar, apático, ausente. Culpa de quê, de quem? Who knows, who cares? O presi agarra num avião e despeja areia para os olhos (só de quem quer, claro) com uma viagem relâmpago para buscar o messias ao Rio.

(a propósito, haverá um dérbi mais natalício que o de 1975, com Jesus e Baltasar de um lado e Messias do outro? lembro-me agora desta proeza assinalável, ainda por cima é um Sporting-Benfica em Dezembro, sem golos e com casos, o mais flagrante é o penálti a favor do Sporting, desperdiçado pelo lateral-esquerdo Da Costa, eleito para a marca dos 11 metros pelo capitão Damas, após a recusar de Nélson e um breve esgrimir de argumentos com Fraguito)

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Retomamos o fio à meada. O Porto reage com um coice. É eliminado (e afastado da fase de grupos da Liga dos Campeões) em casa pelo Krasdonar e ainda perde no arranque da 1.ª Divisão em Barcelos? Ai é? Então toma lá 2-0 ao Benfica, na Luz. Sem espinhas. O Benfica nem um remate enquadrado faz à baliza de Marchesín. Recomeça o futebol pós-pandemia e apanha 2-1 do Famalicão em Vila Nova? E depois ainda falha um penálti no empate sem golos no campo do inenarrável Aves, crónico último classificado? Ai é? Então toma lá o título de campeão a duas jornadas do fim e, espécie de laçarote, toma lá a Taça de Portugal.

Dobradinha, repetimo-nos. É a oitava da sua história, ainda atrás do Benfica (11), cada vez mais à frente do Sporting (6). Fomos à procura de dobradinhas por parte de outros campeões europeus. Há 22 candidatos. Vinte e um, se excluirmos o Porto. Desses 21, só o Bayern dá um ar de sua graça. Claaaaaro, o grande Bayern. Só dois em 2019-20. Porto e Bayern. Curiosamente (ou não), os finalistas daquela final europeia irrepetível em 1987. O insuspeito Kögl marca de cabeça na primeira parte, o argelino Madjer responde em dose dupla com golo de calcanhar e jogada mirabolante pela direita a servir Juary para o 2-1 definitivo. Viena, sempre. Estica-se o tempo de 1987 para 2020, eis-nos de volta a Porto e Bayern. O tema é dobradinhas, sabem?

Da tal lista dos 22 campeões europeus desde 1956 até aos nossos dias (seria lindo ampliar a marca para 23, em caso da Atalanta), uma curiosidade assustadora. O Milan, o grande Milan. Campeão europeu em 1969, 1989, 1990, 1994, 2003 e 2007 (seis vezes, oléééééé), nunca ganha a Taça de Itália no ano do título de campeão nacional. Nunca. Zero. Muito bem, Nottingham Forest, Aston Villa e Hamburgo também não. Só que Milan é Milan, caraças. Nunca faz dobradinha. E acumula seis Taças dos Campeões. Outras curiosidades do arco da velha: a última dobradinha do Real Madrid (outro grande) data de 1989. Mil-nove-e-oitenta-e-nove é quase do tempo da outra senhora. Pior, ligeiramente pior, está o Liverpool (1986). E o pior de todos é o Feyenoord (1984).

Acabamos assim, com Feyenoord. Um dos adversários do Porto europeu 2019-20, na fase de grupos da Liga Europa. Dito isto, parece outro Porto. Mais falível que o actual.