É difícil olhar para a pandemia com otimismo, até porque ainda não sabemos se a estratégia traçada de manter a curva de infeção baixa e mais alongada no tempo e se o processo de desconfinamento irão ser bem-sucedidos. A experiência de Lisboa e Vale do Tejo parece refletir que, afinal, a máquina de resposta não estava bem montada. No entanto, ainda mantemos altos níveis de testagem e baixos índices de hospitalização, fatores sem dúvida positivos.

Mantêm-se as incertezas quanto à resposta científica de tratamento e prevenção da Covid-19, e nem sequer podemos prever quando haverá essa resposta. Mesmo que haja uma resposta a médio prazo teremos que conviver com a Covid-19 de forma inteligente e, numa perspetiva económica, afetar os parcos recursos de forma eficaz e manter a população saudável, segura e produtiva. Para além destes aspetos, temos de contar com os problemas sociais provocados pelo isolamento dos grupos de risco e pela alteração dos modos de vida, que já demonstram sinais de alguma instabilidade no que respeita aos ambientes familiar e profissional, que se alteraram abruptamente.

No meio da tragédia económica que a pandemia causou, torna-se difícil olhar para o copo meio cheio. A informação divulgada pelas autoridades não é completa, bem como o plano de recuperação da atividade da saúde, essencial para a confiança e revitalização das atividades económicas. Creio que não há uma ligação consciente e estratégica entre a economia e a saúde em Portugal. Mas o facto é que uma não progride sem a outra.

O aspeto mais negativo dessa dependência, infelizmente não reconhecida, é que não se aproveitam as oportunidades que a saúde oferece à economia e vice-versa. Por outras palavras, sem saúde não há desenvolvimento económico, por isso o investimento na saúde é fundamental e primordial. Por seu lado, a economia tem de olhar para a saúde como uma oportunidade para o seu próprio desenvolvimento.

A economia portuguesa, nomeadamente o setor produtivo, a indústria, tem muito pouca presença nas cadeias de valor dos produtos de saúde, resultando numa balança comercial muito negativa entre o que se importa e o que se exporta neste setor. Na minha opinião, a saúde, demasiado concentrada no Estado no que respeita à prestação e financiamento, não entende a importância que assume no desenvolvimento económico e faz das tripas coração para se manter atualizada no ponto de vista tecnológico. Baseia a sua qualidade nos recursos humanos dedicados à prestação, sem investir em investigação e em alianças com a economia para fazer parte da inovação que o país pode oferecer, estando mais focada em baixar custos e condenar a qualidade e o interesse estratégico que a Saúde tem para a Economia global.

As estruturas económicas do país têm feito algum investimento em seguros de saúde, reconhecendo que a produtividade dos seus colaboradores depende das condições de oferta de serviços de saúde. Se o poder administrativo do país fosse menos ideológico e centralizador neste setor, mais pragmático no que respeita à oferta do SNS, poderíamos eventualmente financiar a saúde de forma muito mais eficaz e eficiente ao envolvermos as empresas diretamente neste financiamento, incentivando-as a oferecer um seguro mínimo aos seus colaboradores.

Dessa forma poderíamos continuar a retirar muita procura das urgências dos hospitais públicos, papel já assumido há décadas pela ADSE e que pode ser reforçado por novos players, deixando o SNS focado na especialização em cuidados aos quais só o SNS pode dar resposta. No fundo creio que seria oportuno avaliar uma forma que responsabilizasse toda a sociedade pela saúde que precisamos, pois só com um bom sistema e o envolvimento e reconhecimento da sua importância poderemos desenvolver a economia.

Nota-se uma recente vontade do Governo em unir as duas áreas, com vista à retoma económica, tentando um discurso mais integrado, mas continua ténue a relação entre essas duas áreas governativas que nos poderão ajudar a minimizar o impacto que a pandemia tem provocado e que continuará a provocar no futuro. Portugal tem de entender que a Saúde é um investimento e como tal tem que usar os seus recursos de forma hábil, sabendo que são escassos e que devem ser aplicados no sentido de promover e incentivar a participação dos privados no financiamento direto dessa área tão fundamental para o desenvolvimento económico.

Luís Lopes Pereira é diretor-geral da empresa de dispositivos médicos Medtronic.