Praticamente no mesmo dia, o Público trazia-nos dois pontos de vista opostos. Num vídeo colocado no Instagram, o diretor, David Pontes, afirmava (na ressaca da noite eleitoral) que o “sistema” precisa de “contornar” e “controlar” o Chega. As expressões são dele.

Em sentido oposto, João Miguel Tavares (que nos delicia na rádio Observador no podcast “E o resto é história”) argumentava que mais de um milhão de votos mostra claramente que há motivos de fundo que não se escondem meramente apelidando de fascistas e xenófobos todos os que votam no Chega.

Se observarmos os últimos tempos, vemos como fracassaram as estratégias de abafar o Chega, seja a conflitualidade gratuita que o Presidente da AR alimentou (que, estou convencido, só deu notoriedade ao Chega, como aliás era sua intenção), seja o disparate de telejornais e capas de jornais perseguirem despudoradamente o Chega de uma forma que nunca fizeram a outro partido. Tudo isto contribuiu, afinal, para que 1 milhão de pessoas concluísse exactamente aquilo que David Pontes colocou no vídeo: há um “sistema” que se sente ameaçado. É a indicação para votar.

Escrevia há dias André Pinção Lucas, presidente do instituto Mais Liberdade, que os comentadores e jornalistas precisam de sair da bolha e perceber o país real.

Não há, é obvio que não há, um milhão de fascistas e xenófobos em Portugal. Aliás nem o Chega é um partido fascista. Lamentavelmente a expressão “fascista”, que deveria apontar aquele que defende o fim da democracia, é usada a torto e a direito.

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Perceber o apoio eleitoral do Chega obriga, pois, a ir muito mais a fundo: há um país real que não se revê nas inaugurações, nos milhões e nos planos estratégicos da treta. Implica perceber que o regime está longe das pessoas e estas acham que, votem em quem votarem, tudo ficará na mesma: assim se explica porque o eleitorado Chega não cedeu ao voto útil no PSD – é que muitos deste vêm da abstenção ou até da esquerda. Há muita gente, cada vez mais, a contar os tostões, há muita gente às seis da manhã em fila nos centros de saúde, há demasiada gente sem transporte quando há greve nos comboios. Temos de poder falar abertamente sobre a imigração – de que precisamos, sim – mas que tem de ser integrada, ao invés de se estarem a formar bairros, verdadeiros guetos onde só há comunidades vindas de fora. Implica perceber que o foco da saúde devem ser os doentes e da educação devem ser os alunos. E, já agora, perceber porque é que os médicos e professores fogem do SNS e da escola pública.

A Assembleia da República pode estar preocupada em criar (como aliás já votou) um SNS para animais de estimação. O país está mais preocupado em ser atendido quando está doente. A Assembleia da República pode estar preocupada em permitir (como aliás já votou) que crianças da escola possam escolher o nome e género sem darem cavaco aos pais. O país está mais preocupado em que haja aulas e que os jovens sejam preparados para o futuro.

Numa conversa pós-eleitoral com colegas, a ideia geral era incompreensão com o resultado do Chega. Ora, a questão não é o Chega. A questão é o país e os problemas reais das pessoas. Se estes estivessem resolvidos, nem haveria Chega nem teria baixado a abstenção. As pessoas foram votar em peso para que houvesse mudança. O Chega veio de zero até um milhão de votantes sempre num contexto em que o PS era governo e em que o PSD foi a oposição mais sonolenta de que há memória.

Foi caricato, na noite eleitoral, ver os elogios dos comentadores à queda da abstenção desaparecerem ao longo da emissão, à medida que se percebeu que, quem apareceu para votar, foi para que o país mude.

Não estou convencido que tenhamos eleições tão breve quanto se diz, pela simples razão de que PS e PSD percebem que se arriscam a que o Chega volte a crescer. Amarrado pelo disparate das linhas vermelhas, que aceitou a mando do politicamente correcto, Montenegro não terá a vida fácil, mas é o caminho que escolheu.

É evidente que o que se espera da liderança do Chega é que, com a responsabilidade de 1 milhão de votos, pense no país e não apenas em si. Que se posicione construtivamente para que o PSD possa governar (foi o vencedor, deve fazê-lo), negociando soluções legislativas onde tal seja possível, e em muitos casos será certamente.

Nota: conheço bem o David Pontes, profissional sério, genuinamente vocacionado para o leitor. A minha crítica, frontal, circunscreve-se à perspectiva que ele tem da reacção ao Chega.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.