Até que ponto a qualidade da educação de um país se mede pelo nível de tecnologia utilizada? Parece-me extremamente redutor que a discussão em torno da educação se limite a temas como este. Aliás, se a tecnologia trouxe importantes benefícios no plano educativo, outros aspetos existem nos quais  creio que a mesma deverá ser usada com prudência.

É o caso dos alunos do primeiro ciclo, que precisam do contacto com os livros. O próprio Instituto Karolinska, na Suécia, defende que as ferramentas digitais, em vez de melhorarem, prejudicam a aprendizagem dos alunos. Também a  Agência das Nações Unidas para a Educação e Cultura apelou a uma utilização adequada e consciente da tecnologia na educação.

Temos tanta pressa em evoluir tecnologicamente, em avançar para manuais digitais, em fazer provas recorrendo ao uso da tecnologia, que nos esquecemos de mudanças estruturais bem mais importantes e urgentes, e que deveriam ser uma prioridade na pauta do dia da educação.

A forma arcaica como se encara a educação no nosso país tem de ser rapidamente repensada. Os alunos precisam de estar motivados para a aprendizagem e existem muitas formas de aprender,  bem diferentes de os manter um dia inteiro fechados numa sala de aula, ainda que com alguns intervalos, que claramente são insuficientes. A situação é ainda pior quando falamos de crianças do primeiro ciclo, que precisam de brincar, de atividades práticas fora do contexto de uma sala de aula.

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Efetivamente, a aprendizagem escolar tem de sair da sala de aula para o mundo exterior e ir muito além do ensino teórico, explorando o mundo em seu redor. Considero inaceitável aulas de 90 minutos sem intervalo, quanto mais de 120 minutos. Torna-se penoso para alunos e professores. São necessárias pausas, tempo para respirar, conversar, mudar de espaço e recuperar as baterias necessárias para voltar a uma sala de aula.

Por outro lado, cada aluno tem o seu ritmo aptidões e dificuldades particulares. Já é tempo de o governo priorizar a educação e de se criar condições para que haja turmas mais pequenas, que nunca deveriam ter mais do que 15 alunos do 1º ao 12º ano. Como pode um professor, por mais que queira, ir ao encontro de todos os obstáculos ou potencialidades dos seus alunos quando tem, numa só aula, de se dividir por um número elevado estudantes?

Evidentemente que tudo isto exige reformas estruturais e graduais, começando por motivar os estudantes para esta profissão, tornando-a apelativa, estável e respeitada pela sociedade. O ensino está a correr um risco cada vez maior a cada ano que passa. Os mesmos erros são repetidos há anos e a instabilidade parece cada vez mais evidente.

Portanto, demonstrar um interesse em digitalizar a educação é muito pouco para mudar o rumo do ensino e da aprendizagem em Portugal. A tecnologia é importante dentro dos limites razoáveis e sensatos, sempre devendo prevalecer o lado humano da educação.

Precisamos menos de tecnologia e mais de ideias inovadoras para fazer renascer a educação no nosso país, encarando-a como um dos pilares da nação. Quando a educação é de fraca qualidade, tudo isso se repercute negativamente nos valores da sociedade. Se queremos um Portugal melhor, deixemos de tratar a educação como um parente pobre do país.