Eleições Europeias

Europeias: a excepção portuguesa

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Em Portugal, por agora, o voto ficou – e, ao que tudo indica, ficará – mais ou menos onde estava. Mesmo se o longínquo fantasma do “regime fascista” já viu melhores dias, ainda é agitado e funciona.

As eleições europeias vão registar um número record de votos e de eleitos de forças políticas anti-sistema, isto é, de forças que se opõem às tentativas de criação de uma União Europeia federalista, no quadro da globalização político-económica mundial.

Estas forças e partidos, tendo diferenças profundas que variam conforme o seu ADN nacional, são geralmente forças de direita, identitárias em política e conservadoras em valores; umas solidaristas e desconfiadas do capitalismo financeiro, outras mais liberais. Nos grandes países, como a França, a Itália e a Alemanha, e no Centro-Leste e no Norte da Europa tiveram um impulso forte dado pela imigração islâmica incontrolada e pelo rasto de insegurança deixado pelos atentados jihadistas. Em Espanha, além destas causas gerais, o problema dos nacionalitarismos periféricos basco e catalão estimulou o sucesso do VOX. No grupo de Visegrado, à rejeição da imigração não-europeia juntou-se o anti-comunismo que as marcas da ocupação soviética ainda alimentam.

São causas vastas e eleitorados diferentes. No Nordeste de França, os eleitores do PCF passaram directamente para o Front National, ao ritmo da desindustrialização. Na Itália, Salvini fez da LEGA separatista um partido nacional, com leguistas, berlusconianos, nacionalistas e alguns ex-neo-fascistas.

Mas parte do sucesso dos partidos de direita nacionalista e popular, chamados “populistas”, de “ultra-direita” ou de “nacionalismo exacerbado”, fica a dever-se também ao desaparecimento ou desertificação, pela esquerda, de valores, causas, interesses e princípios que também eram seus. Como as “causas dos trabalhadores”.

Esta deserção deu-se porque os partidos comunistas tradicionais, com o apagamento e a morte do sol soviético, se apagaram também, confundidos na amálgama esquerdista e soixante-huitarde dos “marxismos imaginários” – empenhados na procura de cada vez mais micro-direitos para grupos cada vez mais pequenos, em nome de projectos de transformação da humanidade não se sabe bem em que nova espécie.

A ultra-esquerda e a esquerda exacerbada fizeram assim, insistindo em reciclar utopias de resultados catastróficos directamente dos caixotes do lixo da História. Já a esquerda moderada-liberal, social-democrata e socialista, enredou-se na teia dos interesses globalizantes, associando-se à “direita dos interesses”. E na gestão, normal ou danosa, desses interesses, esqueceu as causas da sua gente. Muitos passaram a votar na tal direita nacional e radical.

Em Portugal não. Em Portugal, por agora, o voto ficou – e, ao que tudo indica, ficará – mais ou menos onde estava. O Partido Comunista, que se manteve sempre na ortodoxia, resistindo, com algumas perdas, à morte da URSS e, com algumas recaídas, às tentações pós-marxistas, ainda fixa algum do eleitorado que na Europa mudou radicalmente de campo. Alinhando em causas conservadoras – e populares, e vitalistas, e próximas do povo – como a defesa da vida (contra a eutanásia) e as tradições tauromáquicas, tem deixado o folclore burguês e urbano-depressivo dos “marxismos imaginários” para o BE. Por isso, muito do discurso anti-sistema em Portugal, ainda que agora atenuado pela pertença à Geringonça, continua a ser do PC.

O voto ficará por isso onde estava, pelo menos por agora. É que o longínquo fantasma do “regime fascista”, que continua a ser agitado, já viu melhores dias, e empalidece perante os malabarismos retóricos, os escândalos financeiros e a promiscuidade entre o poder político e o poder económico em que o partido no poder está mergulhado e em que, em maior ou menor grau, todos os partidos do arco constitucional acabam por estar envolvidos. Por isso se calam ou só gesticulam, agitando vagas bandeiras de denúncia contra os actores secundários do que sabem ser só a espuma das coisas.

Assim, matéria de protesto não falta. Mas falta, à direita, uma força anti-sistema com um discurso consequente. André Ventura, um líder emergente com um perfil próximo do dos líderes das novas direitas europeias, começou um caminho para capitalizar politicamente a insatisfação e a revolta de muitos em relação ao sistema instituído, e para mobilizar eleitores que, até aqui, têm encontrado sobretudo na abstenção a sua forma de protesto. Mas para lá chegar precisa de tempo, de espaço e de um programa estruturado em termos de valores e princípios.

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