Não é justo – até porque não é verdade – que se assuma que se cresce cada vez mais cedo e mais depressa. Todos precisamos de (muito!) tempo para crescer. E todos precisamos de errar muitas vezes para crescer. Aliás, quando alimentamos a convicção de estarmos a errar cada vez menos, talvez isso não queira dizer que nos tornámos mais sábios. Mas, antes, que estaremos a desperdiçar, por arrogância ou por medo, oportunidades indispensáveis para crescer.

Todavia, não foi pelo tempo que precisou de ter nem pelos erros que acumulou que o mundo deixou de “pular” e não avançou. É claro que vivemos tão enfeitiçados pelos deslumbramentos da técnica que, hoje, todos parecemos ser convertidos, muito rapidamente, à condição de produtos descartáveis. E acanhamo-nos tanto diante das coisas “descontinuadas” e do furor das novas tecnologias que a sabedoria dos mais velhos ganha, implicitamente, um estatuto próximo do de um museu, susceptível (quando muito) de ser admirada, mas cuja utilidade, considerando aquilo que se supõe que é indispensável aprender, hoje, para crescer, acaba por não ser motivo da maior consideração.

É por isso que quando se fala que a idade média dos professores portugueses não pára de aumentar eu fico preocupado. Não tanto pelos mesmos motivos de que se falou dela. Mas porque, mesmo que não seja claro e explícito, fica, muitas vezes, no ar a ideia de que os professores mais velhos estão “cansados”. Serão menos aptos. Estarão saturados de ser professores. Serão mais rezingões. Como se, no final, representassem uma espécie de prejuízo para a aprendizagem dos nossos filhos. Ou como se precisassem, de certa forma, de ser descontinuados.

E é por isso que, olhando para a idade dos professores portugueses, e atendendo a que há cada vez menos alunos e que as turmas são grandes demais, não me alarmo tanto assim que eles, hoje, sejam cada vez mais velhos. Aliás, acho que esta pode ser, até, uma conjuntura de privilégio – única, mesmo – que nos pode beneficiar a todos. É claro que me assusta que não haja, entre os mais jovens, quem escolha ser professor. É claro que me inquieta que os professores sejam, cada vez mais, desconsiderados. E é claro que me assusta que haja quem os queira a ser, sobretudo, tecnocratas da educação ou burocratas do ensino. Em vez de serem, simplesmente, professores. Seja como for, acho único que mais de 80% dos professores do ensino básico, por exemplo, tenham querido, em primeiro lugar, ser professores.

E acho extraordinário para todos nós que estas pessoas — mais velhas! — continuem a ser os professores dos nossos filhos. Até porque:

  • Um professor mais velho — num sistema educativo que imagina que as crianças crescem mais cedo e mais depressa, mas que lida com elas como se aprendessem todas “do zero”, à mesma velocidade e da mesma maneira, como quando se estava no século XIX — porque já viu tantas reformas em que se muda alguma coisa para que quase tudo fique na mesma, é a garantia de uma ponte entre o deslumbramento (de quem não percebe os alunos mesmo que planeie a educação) e o bom senso de quem as ensina;
  • Um professor mais velho — que apanha crianças, muitas vezes, sem regras e com uma ideia quase anárquica da autoridade — funciona como os avós quando, não se substituindo aos pais, não desistem de ligar educar com aprender;
  • Um professor mais velho arrebata os nossos filhos muito antes de eles o conquistarem a si. E estende-lhes, facilmente, a mão para que eles transponham obstáculos. E acompanha-os nas suas dificuldades, (que ele toma — muitas vezes — como sendo, também, suas). E escuta-os nas suas confidências;
  • Um professor mais velho é aquele que sabe que não se aprende nem quieto nem calado. E, por isso, estimula a vivacidade e a participação. E educa para o entusiasmo;
  • Um professor mais velho é aquele que vibra e se comove com os alunos. E não passa sem o carinho e a admiração deles. Todos os dias;
  • Um professor mais velho é um repositório de histórias. É aquele que aprendeu tantas “fórmulas” para tornar um conhecimento apetecível que ensina truques para o desmascarar. E é aquele que não precisa de gritar para se impor. E que, desde há muito, aprendeu que os alunos só são distraídos quando os professores ainda não aprenderam a ser atentos para as suas dificuldades;
  • Um professor mais velho é uma memória de futuro.

É claro que eu gostava que até os professores mais novos fossem mais velhos. Mas os professores tornam-se mais velhos não só porque tenham mais idade mas porque acumularam, ao longo de muito tempo, a gratidão pelas inúmeras dificuldades que todas as crianças lhes foram colocando. À custa das quais se foram tornando mais sábios e, por isso, mais humildes. Mesmo quando a forma como elas os foram respeitando começou por colocá-los em dúvida. Que é assim um modo em que alguém que procura gostar de nós nos põe “em espera” e nos desafia a descobri-lo.

É por tudo isto que me incomoda que se fale dos professores mais velhos como se, só porque são mais velhos, a escola se renove pior. Todos precisamos de (muito!) tempo para crescer. Mas um professor talvez precise de mais, ainda. É por isso que uma escola onde abundam professores mais velhos poderá tornar-se uma escola melhor. Mas quando não cria as condições para que os professores mais novos aprendam com os mais velhos, é uma escola que desbarata o seu património e o hipoteca, por várias gerações. Até porque, muito depressa, chegará a altura em que muitos professores mais velhos a irão abandonar, de um dia para o outro. Se quando um professor mais velho se afasta da escola “é uma biblioteca que arde”, quando muitos a deixam é a alma da escola que desaparece.

Vendo bem, gostava que houvesse mais professores mais velhos. Porque terão mais oportunidades para serem sábios. E só mesmo os sábios são capazes de ser jovens.