Devido a queixumes de doentes alegadamente graves que na verdade padecem sobretudo de impaciência, alastrou-se a ideia de que o SNS implica esperas intermináveis. É uma meia-verdade. Ou uma meia-mentira. De facto, as esperas só acontecem em intervenções ligeiras, como cirurgias oncológicas e similares (nestas situações, até convém prolongar os prazos para efeitos de triagem: se, após dois anos, o apressadinho que desejava remover o tumor cerebral continuar vivo é sinal de que a urgência do caso era claramente exagerada e digna de um daqueles dísticos “Keep Calm”).

Noutros tipos de intervenções, a espera é mínima. É o que acontece com o espancamento dos funcionários hospitalares. Aqui, nem é preciso tirar senha ou cumprir o Protocolo de Manchester: basta entrar pelas instalações adentro e desancar quem aparecer pela frente. Para provar o sucesso deste novo procedimento clínico, cada semana há notícia de dois ou três incidentes do género, em geral praticados por famílias de etnia indeterminada.

Além disso, conforme confirma a ministra da Saúde, que é uma coisa que diz coisas, a maioria das agressões são verbais e a maioria dos agredidos são enfermeiros. Ou seja, não existe motivo de preocupação enquanto os ataques não forem principalmente à facada e enquanto as vítimas não forem principalmente catedráticos de cardiologia.

De qualquer maneira, para os choninhas incapazes de se defender de “utentes” furiosos, o ministro da Administração Interna, que é uma papada com gravata, anunciou, sem se rir, cursos de defesa pessoal para os trabalhadores do SNS. Se, um destes dias, presenciarmos meia-dúzia de indivíduos em plena sessão de kickboxing na ala de urologia do São João, saberemos que não é uma zaragata, e sim uma consulta de rotina. No final da consulta, os envolvidos serão encaminhados para a ala de ortopedia, cenário para uma sessão de kung fu e antecâmara de uma visita à ala dos paliativos. Etc.

Porém, o principal anúncio governamental consistiu na criação de um Gabinete de Segurança para ter, cito, “uma abordagem mais sistemática dos problemas da violência contra os profissionais de saúde.” Em português, isto significa que, embora os profissionais continuem a levar nas trombas (ou a dar, se aproveitarem as aulas de artes marciais), a bordoada passa a entrar numa folhinha de Excel, depois usada para, com os devidos arranjos, mostrar à humanidade a espectacular eficácia das políticas adoptadas. De caminho, inventam-se empregos para mais uns camaradas, perdão, técnicos especializados em abordagens sistemáticas de assuntos. Infelizmente, nenhum dos técnicos estará disponível para receber as agressões em vez das pessoas que trabalham e que, não tarda, vão cansar-se de trabalhar assim.

E assim acabará o lendário SNS, não com um suspiro mas um estrondo. E um par de murros. E três pauladas no lombo. Esperem, quer queiram quer não, para ver.

Notas de rodapé

  1. Em diversas matérias, o Bloco de Esquerda pode estar petrificado no paleolítico ou mesmo no leninismo. Mas no que respeita aos fogos florestais, e estranhamente apenas no que respeita aos fogos florestais, a evolução do partido é notável. Ainda há dois anos, perante as macabras consequências dos incêndios de Junho e de Outubro em Portugal, tudo o que a Líder Suprema Catarina conseguiu dizer foi um “Que venha a chuva. Bom dia!”. Há uns meses, os incêndios na Amazónia já mostravam que o BE estudara o fenómeno o suficiente para descobrir um culpado – infelizmente, não estudara o suficiente para distinguir que o culpado em causa, o sr. Bolsonaro, é presidente do Brasil, e que a maior parte da Amazónia queimada ficava na Bolívia. Entretanto, os dirigentes do BE atiraram-se aos livros e, agora, possuem sapiência bastante para atribuir a responsabilidade dos fogos na Austrália ao capitalismo. Vou mais longe nas acusações: além de queimar mata e cangurus, o capitalismo é responsável por criar os meios que os burgessos utilizam para difundir opiniões tresloucadas acerca do capitalismo. O capitalismo é responsável por sustentar sociedades em que os burgessos são livres de produzir disparates sem risco de represálias. O capitalismo até é responsável por legitimar sistemas em que os burgessos concorrem a cargos públicos. Quanto ao quadro mental necessário para se levar os burgessos a sério, aí a responsabilidade é do socialismo.
  1. A autarquia de Vila Real, quase inevitavelmente socialista, decidiu demolir a avenida principal, de facto o centro da cidade e, até há dias, um raro lugar de que eu gostava neste desgraçado país. Extirparam as árvores, terraplanaram os canteiros, vão cobrir tudo de cimento e, dizem os senhores que lá mandam, “preparar Vila Real para o século XXI”. Pelos vistos, o século actual será muito parecido com o anterior, repleto de laparotos em cargos de decisão, sem pingo de gosto ou de vergonha, uma gente perigosa e voraz, sedenta de deixar a sua grotesca “marca” a quem nunca a pediu. Reportagens diversas indiciam que o povo não gosta das alterações. Mas merece-as. Afinal, trata-se do exacto povo que elege estes espécimes, que sofre as humilhações a que os espécimes o sujeitam, que sabe onde encontrar os espécimes e que, ainda assim, permite que, ao contrário das árvores, as perninhas dos espécimes continuem inteiras.