Na história de um povo, aquilo que deve ser destacado é o que fez de diferente dos outros povos da sua época, bom ou mau.

Nos séculos XV e XVI, os portugueses fizeram feitos únicos na história da humanidade.

De facto, com um esforço hercúleo, mas sistemático, premeditado, tornaram-se o povo mais avançado do mundo em áreas tão diversas como a navegação, a geografia, a antropologia, a zoologia, a botânica, a astronomia.

Mais extraordinário do que isso, Portugal foi o pioneiro de um novo modo de olhar para o Mundo, baseado na experiência e não nos livros, na investigação e não no mito, na exploração sistemática e não na aventura cega.

A comparação das descobertas dos portugueses com a de Cristovão Colombo não podia ser mais elucidativa do contraste da abordagem portuguesa com a dos outros povos da época.

Colombo atirou-se à sorte, com um raciocínio à ovo de Colombo, achando que se fosse para Oeste e a Terra é redonda, então acabaria por chegar a algum lado.

Teve sorte, porque o pouco que aprendeu de navegação com os portugueses foi suficiente para sobreviver à aventura.

Mas não chegou para perceber que não tinha chegado nem sequer perto da Índia, apesar de ter feito quatro viagens.

A verdade é que essa ignorância era partilhada pelos cosmógrafos europeus em geral, e à conta disso os nativos americanos ainda são chamados índios e o continente chama-se América, em vez de Colômbia.

Os portugueses sabiam muito bem as dimensões da Terra e que Colombo nunca poderia ter chegado à Índia.

Tinham já efectuado uma exploração sistemática das marés, dos ventos, das costas, da maneira de navegar no Oceano, de se orientar quando se está a milhares de quilómetros da terra mais próxima, sem referências.

Anotavam cuidadosamente todos os dados que observavam, animais, plantas, peixes, minerais, a própria declinação magnética ao longo do Globo (com o que traçaram o primeiro mapa do campo magnético da Terra).

Estes dados eram agregados em Lisboa, formando uma visão de conjunto, contrastando as diversas observações, fazendo uma verdadeira análise científica no sentido moderno do termo.

Esta atitude científica demoraria muitas décadas até ser imitada por alguns sábios europeus e séculos para uma nação se empenhar dessa maneira numa exploração.

O avanço tecnológico dos portugueses na navegação era imenso, e os outros europeus apenas vislumbravam um pouco desse avanço quando um piloto português era acolhido nesses países.

O caso de Fernão Magalhães é paradigmático disso, e os ingleses, que só tentaram chegar ao Índico um século depois dos portugueses lá estarem, fracassaram na sua primeira viagem, porque não sabiam como fazer para lá chegar.

Podemos dizer verdadeiramente que os portugueses mostraram novos mundos ao Mundo, como disse Camões, e acrescentar que também mostraram uma nova atitude perante a realidade.

É essa atitude diferente que nós podemos imitar: basear as nossas políticas públicas em estudos bem cimentados, com avaliações frequentes, aprendendo da própria experiência e da alheia.

E não em utopias, em mitos, em ideologias caducas, mil vezes demonstradas falsas aqui e em todo o lado, como as dos que nos governam hoje.

P.S. Já sabemos que vão chover comentários a criticar a ausência de menções a aspectos negativos da história portuguesa, como por exemplo a escravatura. Não há dúvida que a escravatura é altamente criticável, mas nos séculos XV e XVI, que povo não a praticava? Há alguma nação ou povo que não seja condenável por essa e outras barbaridades? Os portugueses não se destacaram dos outros povos por esse aspecto. Mais preocupante é a realidade da escravatura hoje em dia, nos campos de trabalhos forçados nos países comunistas, das mulheres que são induzidas à prostituição e a servir de barrigas de aluguer para terem que comer, dos migrantes que são enganados de todas as formas possíveis e acabam reféns de pessoas sem escrúpulos, etc.

Professor de Física da Universidade do Minho, autor de numerosas publicações em revistas internacionais (incluindo Science) e do livro Introdução à Física Contemporânea. Faz investigação em Física Teórica do Estado Sólido, especialmente em materiais bidimensionais, como o grafeno.