Receio (mas não lamento) ter de admitir que não sabia dos 150 anos do nascimento de Lenine, ao que parece registados no passado dia 22 de Abril. Fiquei a saber pela imprensa que muitos assinalaram o aniversário do que consideraram uma personalidade maior — uns porque concordam com o comunismo que ele na prática inaugurou, outros porque, embora discordando dele, lhe atribuem a génese da resposta do fascismo e do nazismo.

Receio (e de novo não lamento) ter de discordar dos dois pontos de vista. A meu ver, Lenine foi um fanático menor e semi-educado, fruto das grandes superstições ideológicas anti-ocidentais e anti-liberais (de sinal político contrário) que emergiram na segunda metade do século XIX — e que se transformaram no ópio dos intelectuais e dos “desesperados” da primeira metade do século XX.

Essas duas grandes superstições ideológicas anti-liberais foram o historicismo ateu de Marx e o niilismo ateu de Nietzsche — em bom rigor, como argumentou Leo Strauss, ambos devedores do doentio igualitarismo (também ateu) de Rousseau (tema que terá de ficar para outra ocasião).

Marx e Nietzsche declararam solenemente ter descoberto a relatividade (ou relativismo) de todos os valores. Segundo eles, todos os valores são apenas crenças geradas pela época histórica em que as pessoas vivem. Não há, por isso, valores objectivos, ou supra-pessoais, de bem e de mal, de verdade e erro, de decência e indecência. Tudo é relativo.

Em Marx, tudo é relativo aos interesses de classe e ao determinismo das chamadas “leis científicas do desenvolvimento histórico” (em rigor, uma pura superstição oracular, como Karl Popper demonstrou). Segundo essa superstição positivista, na época da emergência do capitalismo os interesses e valores da burguesia eram historicamente legitimados. Na época da emergência do socialismo colectivista, os interesses e valores do proletariado são os valores certos, porque historicamente legitimados. Daí que a revolução e a “ditadura do proletariado” fossem não só legítimas como necessárias, uma vez que exprimiam a etapa histórica inevitavelmente sucessora da “ditadura capitalista” (que, sabe-se lá porquê, se apresentara como democracia pluralista parlamentar).

Em Nitezsche, o relativismo foi de certa forma ainda mais radical. Tal como Marx, Nieztsche declarou que não há bem nem mal objectivos; mas, diferentemente de Marx, não aceitou que bem e mal fossem determinados pela época histórica (o que considerou ser mais uma ilusão). Ser capaz de ver “para além do bem e do mal” seria então a atitude distintiva dos “homens superiores”, em contraste com as pessoas comuns, que ainda acreditavam no bem e no mal. E esses “homens superiores” (unicamente capazes de “olhar sobre o abismo” da ausência de valores) iriam descobrir que afinal apenas existia uma “lei objectiva” — aquilo que Nietzsche detestavelmente classificou como “vontade de poder” (“onde quer que encontre vida, encontro vontade de poder”, foi a demente e vulgar máxima de Nietzsche, doentiamente citada e aplicada pelo rude primitivismo nazi).

Em termos políticos, o alvo comum do relativismo ateu de Marx e do niilismo ateu de Nietzsche foi a sociedade livre, parlamentar, comercial e descentralizada — que eles ardentemente denunciaram como sendo fundada na “ilusão moralista do mundo burguês”, gerada pelo escrúpulo moral da cortesia (também conhecida por “gentlemanship”) e ancorada na moral e religião judaica e cristã.

Foi em nome desta revolta comum contra a ordeira e tranquila ordem liberal que o bolchevismo, o fascismo e o nacional-socialismo nazi lançaram uma ofensiva ardente contra a civilização ocidental.

Em certas paragens peculiares (em regra pouco familiarizadas com o usufruto da experiência “capitalista” e liberal) intelectuais semi-educados e asperamente ressentidos como Lenine, ex-socialistas como Mussolini, e simples marginais desesperados como Hitler usaram habilmente o seu ódio à decência parlamentar liberal para incendiar paixões populares fundadas na mais vulgar doença igualitária da inveja. Vanguardas revolucionárias destruíram sem piedade as velhas elites conservadoras e moderadas — que denunciaram como “oligarquias” opressoras dos “trabalhadores”.

No lugar daquelas velhas elites parlamentares, moderadas pelo escrúpulo moral cristão e por constituições mais ou menos liberais, foi então instalado o poder dos “camaradas” em nome do “povo” — o poder nu, sem entraves, sem “preconceitos”… e sem vergonha.

Na economia, o inimigo dos desesperados comunistas, fascistas e nazis era o chamado “capitalista”. Ele representava tudo o que os “camaradas” odiavam: o espírito moderado do comércio, a independência e pluralismo da propriedade privada, a disciplina auto-consentida de regras mercantis impessoais que os “camaradas” não conseguiam controlar e comandar. Os “camaradas” ostensivamente odiavam a “mão invisível” do mercado de Adam Smith — basicamente porque não obedecia à “mão visível” dos poderes revolucionários de plantão.

No imaginário lugar do detestado “capitalista” foram então colocados os “camaradas” — uns de punho fechado, outros de mão estendida. E o resultado não se fez esperar: enquanto o ordeiro “capitalista” tinha de correr atrás do cliente para tentar vender-lhe alguma coisa, o cliente tinha agora de correr atrás dos “camaradas” — que podiam agora decidir por decreto político a quem iam vender ou “distribuir” (e que, em regra, já pouco tinham para vender ou “distribuir”). Este foi basicamente o resultado das economias estatizadas pelos comunistas ou sob planificação central dos nazis (que significativamente adoptaram a designação “anti-burguesa” de  “partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães”).

A urgência da estatitazção e da planificação central não podia esperar pelas “gentilezas” do parlamentarismo burguês e liberal. Contra a chamada “hipocrisia e formalidade” das regras impessoais do parlamentarismo constitucional, bolchevismo, fascismo e nacional-socialismo pregaram a urgência da “autenticidade revolucionária” em nome do “povo” (que eles em rigor desprezavam) — a idolatrada “Revolução” e o chamado “estado total”.

As ideias têm consequências e os resultados não se fizeram esperar: os velhos governos limitados — pela moral, pela religião, pela lei e pelo Parlamento —foram substituídos por governos ilimitados dos “camaradas”: cruéis, despesistas, castradores da iniciativa civil descentralizada, em seguida simplesmente criminosos — e orgulhosamente libertos dos “preconceitos morais burgueses e cristãos”.

Em suma, talvez seja relevante recordar que o alvo comum da barbárie comunista, fascista e nazi foi a tradição moral ocidental — que impõe limites imparciais ao poder da vontade sem entraves. De certa forma, tratou-se de uma reedição (em versão incomparavelmente mais brutal) da guerra da Esparta colectivista continental contra a Atenas liberal, comercial e marítima do século V a.C. Esta é uma razão adicional para recordar — contra o dogmatismo politicamente correcto muito na moda nas universidades e na comunicação social — que a nossa civilização liberal ocidental tem as suas raízes plurais em Atenas, Roma e Jerusalém.