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Comportamento

Liam Neeson, o menino Rhuan e a facada ao Bolsonaro. Ou, a indignação que não admite perdão.

Autor
  • Filipe Samuel Nunes

Racista uma vez, racista para sempre. Se disse uma piada homofóbica há dez anos irá sempre ser homofóbico. Deus nos livre de pensar que a pessoa pode mudar, de dar espaço para essa mudança acontecer.

O perdão é um valor em contramão. Porquê? Uma das respostas tem a ver com o facto de vivermos na ressaca constante de esperanças projectadas, contudo nunca concretizadas. O elogio possível do perdão prende-se com a lucidez de não ignorar o absurdo de tantas situações históricas que o erradicaram, dando-lhe ares de cinza atirada ao vento. Ou seja: mera quimera. Creio necessitarmos urgentemente duma transfusão de perdão que não sendo triunfalista ao menos seja provocador. Jacques Lacan escreveu certa vez que “a angústia nunca engana”. Presumo que pelo tanto de real que ela transmite. Todavia, o perdão também está ancorado na enseada da realidade. Isto porque todos somos um “work in progress” (uma experiência inacabada). O perdão, se quisermos, é uma gestação vivamente espiritual. No sentido em que ele engravida a vida. Sem perdão ficamos mais duros, vingativos e empedernidos. Perdoar deixa feridas em aberto. Dói. Mas esse exercício do sofrimento alheio é redentor. Porque na atitude de perdoar libertamos o “outro” que nos ofendeu. E aqui jaz a ironia: se confrontarmos o “outro” com o mal que nos infligiu, ostentando uma atitude vingativa, não teremos redenção. Porque o ofensor perceberá que não queremos justiça mas apenas vingança. Vence o ódio. E iremos perpetuar ad nauseum o ciclo da retaliação. Daí que o conselho de Cristo seja claro: “E, quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no, para que também o Pai celestial perdoe os vossos pecados. Mas, se não perdoarem, também vosso Pai que está nos céus não perdoará os vossos pecados” (Marcos 11:25-26).

Numa entrevista (já não tão) recente, Liam Nesson confessou ter tido pensamentos horríveis, sobre os quais estava profundamente arrependido e envergonhado. Logo a Brigada da ASAE dos hábitos e costumes alheios veio a público demolir o actor. O desejo de vingança e ódio expressado por Liam está obviamante errado. Ele mesmo afirma: “foi horrível, horrível…”. O desejo de vingança é um sentimento destrutivo, explicou ele. No entanto, nada disto importa para a corja do linchamento na praça das redes sociais. Para essa turba só interessa achincalhar, e o cheiro da vítima em espasmos de morte só aguça os seus dentes raivosos. O negócio dessa gente não é o perdão – mesmo para quem confesse um erro terrível do passado. Deliciam-se em desencantar erros e ofensas de vidas passadas. São os “arqueólogos sociais”. Tudo o que se disse de errado, tudo o que se fez de errado e tudo o que pensou de errado, será desenterrado para vergonha e exposição pública.

O que é terrível em toda esta questão não é que Liam confesse ter tido pensamentos impuros, mas que ele seja permanentemente rotulado de vil e pecaminoso. Este instinto selvagem de “cancelar” (expressão do Inglês para não dar mais atenção a uma celebridade) baseada nos seus erros passados é das coisas mais maldosas que já vi. É animalesco. Onde está a célebre ideia de dar uma segunda chance a quem erra? Para onde foi o desejo de começar a partir do zero? Que é feito do tapinha no ombro enquanto se diz: “errar é humano, reconhecer o erro é sábio, pedir perdão é humildade e ser perdoado é divino”? Que faremos da máxima de Samuel Beckett: “Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor”. Este cepticismo em relação à capacidade humana de dar a volta por cima é totalmente contra-natura. E não tem respaldo histórico.

Entretanto, o Brasil foi sacudido pela notícia de que um menino chamado Rhuan tinha sido morto pela mãe e sua companheira sexual. O menino foi encontrado esquartejado e foi revelado que as duas amantes tinham decepado o pénis de Rhuan um ano antes de o matarem. Nas palavras das assassinas o Rhuan “queria ter nascido menino e o pénis atrapalhava”. Vale ressaltar que Rhuan tinha 9 anos. Pergunta: Como fica o exercício de perdão neste caso? Ou então como fica o exercício da cidadania diante dos abusos praticados por duas lésbicas, contra um menino, filho duma delas? Se fosse um homem branco heteresexual a praticar tão hediondo acto, certamente que o veredicto imediato seria que a criança tinha sido vítima dos efeitos tóxicos duma sociedade patriarcal. Que pensar?

Outra situação que abalou o Brasil foi a absolvição do homem que esfaqueou Bolsonaro. Foi dado como “louco”, portanto inimputável. O ladrão-mor Lula comentou a questão dizendo que “aquela facada era muito estranha”. Será que neste caso o perdão é legítimo porque o criminoso não tem entendimento do crime practicado e por isso mesmo não pode ser punido de conforme!? Não temos respostas seguras. Todavia, sabemos por experiência que acreditar que as pessoas nunca mudam, é uma atitude falaciosa.

Racista uma vez, racista para sempre. Se disse uma piada homofóbica há dez anos atrás irá sempre ser um homofóbico. Deus nos livre de pensar que a pessoa pode mudar! Deus nos livre sequer de dar um espaço para que essa mudança aconteça. Nunca! Castigar é preciso! E aqui nasce outra ironia. É Cristo que fala em perdão e em recomeços. É Cristo que acolhe o prevaricador em perdão vivificador: “vai em paz e não peques mais”. E nessa frase há toda a aceitação da pessoa humana fragilizada cuja estrutura é poeira. Só que Cristo enxerga poeira sublime, tocada pelo divino. A corja, supostamente humanista, só vê poeira inquinada por uma sujeira eterna.

Teólogo a viver no Brasil

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