Descobrimentos

Museu  da  Interculturalidade de Origem Portuguesa, e não Museu das Descobertas

Autor
  • Matilde Sousa Franco
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Há quase quatro décadas que defendo a criação deste museu no nosso país que foi autor não só da primeira Globalização como, no séc. XXI, continua a destacar-se como “pioneiro” no diálogo intercultural

1. 2018 – É tempo de  nos reconciliarmos com o passado, a favor da  inclusão, do diálogo, da solidariedade, da paz

1.1. Em 2018, finalmente, há uma constelação propiciadora da criação em Portugal do que chamo Museu  da  Interculturalidade de Origem Portuguesa, promotor dos quatro fundamentais objectivos que indico neste subtítulo, de acordo com  projecto que defendo e actualizo desde há quase quatro décadas.

1.2. De facto, só nos  meses de Fevereiro e Março deste ano houve as seguintes quatro declarações oficiais de suma importância e totalmente de acordo com este meu projecto museológico  do Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, as declarações, que seguidamente transcrevo, do Presidente da República, do Secretário-Geral da ONU, do Coordenador Nacional do Ano Europeu do Património Cultural e da Directora- Geral do Património Cultural, Ministério da Cultura:

  • “Portugal assume a sua história em tudo aquilo que tem de bom e de mau”, afirmou o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, durante a visita oficial a São Tomé e Príncipe, em 21 de Fevereiro de 2018, quando prestou homenagem a vítimas do colonialismo, e foi recebido de forma entusiástica.
  • Em 16/3/2018, o Secretário-Geral da ONU António Guterres disse que “diversidade é uma fonte de riqueza … (mas) só por si não garante a harmonia de uma sociedade”…”para que haja   efectivo pluralismo e uma coesão “tem de  haver “um grande investimento “envolvendo governos, autarquias, líderes religiosos e sociedade civil” … “o investimento realizado tem de ser continuado, e com grande persistência.” Estas declarações do Secretário-Geral da ONU foram proferidas na Mesquita de Lisboa, quando o Presidente da República  Marcelo Rebelo de Sousa condecorou a Comunidade Islâmica de Lisboa, numa cerimónia em que se assinalaram os seus 50 anos (esta foi a 1ª Comunidade Islâmica na  Península  Ibérica após a retirada dos árabes). Estiveram presentes todos os Presidentes da República de Portugal, o Presidente da Assembleia da República, o Cardeal Patriarca de Lisboa, o Imã da Universidade de Al Azhar (Cairo) e muitas outras personalidades (jornal online “Observador” 16/3/2018).
  • Neste Ano Europeu do Património Cultural, o Coordenador Nacional Guilherme d`Oliveira Martins, em artigo publicado no “Expresso” de 10/2/2018, apelou a que: não haja “multiplicação de iniciativas avulsas, fugazes e sem consequência”, se  incentivem visitas a lugares com valor patrimonial, se garanta ligação à criação contemporânea, se ajude a tomar medidas contra a especulação urbana e imobiliária, envolvendo escolas e sociedade civil.
  • Dias depois, também pela comunicação social, o Ministério da Cultura, através da arquitecta e directora-geral do Património Cultural Paula Silva, especificou  que quer a programação deste ano dedicado ao Património “o mais nacional possível, para que seja sentida por todos” (“Expresso” 24/2/2018).

1.3. Lembre-se ainda que em 2018 se completam: 600 anos da descoberta da ilha de Porto Santo (e em 2019 da ilha da Madeira), as quais nos lançaram a mais descobertas marítimas; 530 anos da passagem do Oceano Atlântico para o Oceano Índico, a passagem do Cabo da Boa Esperança, por Bartolomeu Dias, e se completam 520 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia, por Vasco da Gama, números redondos que nos compelem na urgência de melhor lembrar estes feitos que nos abriram novos mundos.

1.4. Penso que um projecto museológico que se procura concretizar adequando-o a todos estes quesitos e pode ser extremamente mobilizador a nível da Europa e do Mundo, é o do Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, a partir de Portugal.

De facto, o país foi autor não só da primeira Globalização, mas no séc. XXI continua a destacar-se por ser “pioneiro” no diálogo intercultural, como ainda foi acentuado, em 16/3/2018, na mencionada e significativa cerimónia realizada na Mesquita de Lisboa.

Tal projecto tem a máxima preocupação em se adequar às ansiadas modernas “formas (eco)comunitárias de ser museu”, na feliz síntese de Luís Raposo, brilhante ex-director do Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e actual presidente do Conselho Internacional de Museus – ICOM Europa, num texto “Sobre novos museus e nova museologia”, de 4/1/2018. Peço licença para exprimir o gosto que sempre tive em projectos sociais, o que me fez ser considerada por especialistas, pelo meu trabalho enquanto directora do Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra (1980-1984), uma das pioneiras da Museologia Social.

Para os não especialistas em museus, devo lembrar que o Conselho Internacional dos Museus – ICOM, a maior organização internacional do sector, é dedicada à preservação e divulgação do património natural e cultural mundial, do presente e do futuro, tangível e intangível, tem relações formais com a UNESCO, e esta tem por objectivo máximo a Paz. O ICOM tem estatuto consultivo no Conselho Económico e Social das Nações Unidas.

1.5. Coincidindo com os mencionados pressupostos e objectivos pacifistas, é útil citar dois escritores:

  1. António Sérgio (1883-1969), que foi considerado por Fernando Piteira Santos (“Jornal de Letras” 26/4/1983) “o maior pensador português”, e por Eduardo Lourenço (Revista “Pública” do Jornal “Público” 25/5/2003) “o maior pensador português do séc. XX”, observa no texto de 1938 “Para a Definição da Aspiração Comum dos Povos-Luso-Descendentes. (A propósito de uma conferência de Gilberto Freire)”, inserto no vol. VI dos “Ensaios”, Editorial Inquérito Limitada, Lisboa, 1946, pp. 205-222 “Qual a característica essencial e básica da cultura dos Luso-descendentes? … Uma das primeiras … plasticidade de espírito dos portugueses, que os torna adaptáveis ao costume alheio, facilmente comunicativos com os outros povos”… (em quase todos os pontos) tenderei a concordar com Gilberto Freire; e no entanto (porque não confessá-lo) não deixo de sentir ante o seu reparo uma sombra de dúvida ou de perplexidade, um não sei que travo de insatisfação…”
  2. António Valdemar, no artigo intitulado “Portugal por dentro” (“Diário de Notícias”, 11/4/1999) a propósito da diáspora portuguesa: “Perdura um sentimento de solidariedade humana, para com indivíduos radicados nas mais diferentes partes do mundo. Depara-se a componente afectiva, a cordialidade e simpatia, que levou Gilberto Freyre a afirmar que “depois de Cristo, ninguém contribuiu mais do que o português para a fraternidade dos povos”.

Anote-se que, depois da revolução do 25 de Abril, quando naturalmente se repensava a identidade portuguesa, muitos passaram a ostracizar o referido Gilberto Freyre e o luso-tropicalismo, devido à sua alegada identificação com o Estado Novo e políticas de Direita, mas por exemplo são claramente de Esquerda os mencionados António Sérgio, que falecido antes da revolução foi perseguido, preso e exilado durante a ditadura, e António Valdemar, que felizmente ainda está vivo, e se conta entre os que já tiveram a ousadia de enfrentar essa corrente. Recordo que o Fado, desde o 25 de Abril e em simultâneo inflamadamente também por muitos, identificado com o Estado Novo, é desde 2011 Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa …

Ainda a propósito da UNESCO e de Gilberto Freyre, lembro o essencial conjunto de modernos estudos contidos em “Luso-Tropicalismo, uma Teoria Social em Questão”, Org. de Adriano Moreira e José Carlos Venâncio, Vega Editora, Lisboa, 2000. Apesar das restrições de espaço, devo fazer citações de dois desses autores:

  1. Adriano Moreira, em “Revisitar Gilberto Freyre”: “… Trata-se antes de um critério que parece antecipar a perspectiva que levou a UNESCO a organizar uma História da Humanidade, em busca do património comum do género humano, habitante da casa comum que é a terra. Não teria qualquer fundamento admitir que a perspectiva gilbertiana está isenta de aperfeiçoamento crítico, e até eventualmente de abandono justificado pela formulação de um ponto de vista abrangente dos conhecimentos alargados que vamos obtendo. … é evidentemente oportuno revisitar Gilberto e o luso-tropicalismo, reconhecer o muito de antecipação do seu pensamento, procurar apoio na actualidade dos seus conceitos, designadamente servir a paz a partir da conclusão de que as emergências são um resultado superador e positivo dos custos, conflitos, amarguras, em que se traduz o passivo de todas as acções colonizadoras do passado, penhor das reconciliações exigidas para o acomodamento de todas as memórias, impostas pela mundialização das dependências e interdependências, base de um globalismo que finalmente evite a concretização dos pessimismos polemológicos. … O património complexo da brasilidade, onde somam as contribuições ameríndias, africanas, japonesas, alemãs, italianas, não tem a mesma composição do património angolano, ou do património moçambicano, ou do património timorense, este o único lugar do Pacífico onde concorrem as variáveis estruturais que deram identidade a cada um dos Estados de língua oficial portuguesa. Daqui a real dispersão de solidariedades que atraem cada um dos países para grandes espaços intermediários do globalismo, o Brasil para o Mercosul, Angola para a África Austral, a Guiné para a área do franco, Moçambique para a Comunidade Britânica, Portugal para a União Europeia, para a NATO, para o Conselho da Europa. Prever que os conceitos estratégicos respectivos possam não ser harmonizáveis não exige grande análise, mas reconhecer que a solidariedade horizontal que a realidade luso-tropical representa é um exemplo das contribuições para uma nova ordem mundial pacífica e cooperante não exige mais do que acolher a evidência.”
  2. Rui Manuel Loureiro, em “O Luso-Tropicalismo em Contexto Asiático (Século XVI)”: “… Concluiria esta exposição com uma citação que revela bem a actualidade candente do luso-tropicalismo. “De um ponto de vista actual, a mais impressionante conquista dos portugueses terá sido talvez o seu frequente e rápido sucesso em estabelecer relacionamentos mutuamente satisfatórios com muitos e variados povos encontrados nos caminhos para o Extremo Oriente. Perguntar como alcançaram eles esta proeza, é sondar os mistérios da mentalidade portuguesa. É óbvio que os portugueses eram claramente superiores aos espanhóis, e incomparavelmente superiores aos holandeses e aos ingleses, na sua capacidade de responderem de forma despreconceituada e apropriada às influências de culturas estranhas.” Tratar-se-á de uma citação de Gilberto Freyre ou de algum dos seus discípulos portugueses ? De forma alguma. O autor desta citação é Urs Bitterli (1989: 68), um historiador suíço que é actualmente um dos mais conceituados estudiosos dos fenómenos de contactos culturais”. (O autor indica, na Referência Bibliográfica: BITTERLI, Urs, 1989, “Cultures in Conflict”, Stanford).

1.6. A “componente afectiva, a cordialidade e simpatia” dos portugueses, tão bem enfatizadas por António Valdemar, continuam agora a ser apreciadas e destacadas também pelos estrangeiros que vivem entre nós, pelos milhares de turistas que agora nos descobrem.

Tal coincide, por exemplo também, com as declarações feitas há dias por Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal: “Portugal sempre foi conhecido como um país inclusivo, que sabe acolher, receber e tratar bem quem nos visita” (entrevista à revista “Visão” (1/3/2018)”.

Estas são cativantes qualidades dos portugueses não só do passado, mas deste presente hipermoderno, humanizando-o, tornando-o mais feliz.

1.7. Em recentíssimo análise de Eduardo Lourenço intitulada “O que são os portugueses hoje”, escreve a revista “Visão” (22/3/2018): “Para o maior pensador português vivo a explicação do que somos reside, em grande medida, naquilo que fomos no passado … somos europeus, americanos, pequeninos e eternos marinheiros”. Afirma Eduardo Lourenço: “o extraordinário na aventura foi esse contraste entre o que nós realmente somos enquanto país (pequeno, não muito rico …) e o nosso imaginário de gente que sai daqui e que vai à descoberta de novos mundos. Não haverá muitos povos com esta espécie de décalage entre aquilo que são e as utopias que nascem dessa consciência … A Europa só se pensa em termos mundiais e não esqueçamos que foi connosco que ela, pela primeira vez, se pensou desse modo. Cometemos uma proeza sem repetição. Somos o que somos porque fomos os primeiros a levar a Europa para fora da Europa”.

1.8. Há a maior urgência mundial em que se fomente a paz, mas em espírito oposto também à referida “harmonia da sociedade”, na expressão usada por António Guterres ainda em 16/3/2018, fomos surpreendidos no dia seguinte com notícias de iniciativas municipais, através do “Expresso” (17/3/2018), com o título: “Memorial da escravatura reabre feridas. Monumento será em Lisboa. Associação de afrodescendentes rejeita integrá-lo no museu das Descobertas”.

A Câmara Municipal de Lisboa pelos vistos tem meios e resolveu avançar agora com a criação de um Museu das Descobertas, num louvável mas pouco prudente dinamismo, e como se verifica na notícia do semanário a iniciativa é já altamente discutível e polémica, como aliás era expectável.

A notícia, que ocupa toda uma página do jornal, informa que o monumento foi um dos projectos escolhidos no âmbito do Orçamento Participativo de Lisboa 2017/2018 e foi proposto por uma associação de afrodescendentes.

O jornal cita, por exemplo, as opiniões de:

  • Catarina Vaz Pinto, Vereadora da Cultura da C.M.L. “O memorial deve ser um local de reconhecimento e de homenagem, mas também de reflexão e de educação para a cidadania e para os direitos humanos.”;
  • Beatriz Dias, presidente da DJASS – Associação de Afrodescendentes “Para combater o racismo é preciso criar estruturas simbólicas, e era muito claro para nós a necessidade de criar um monumento contra a celebração das Descobertas”;
  • Ângela Xavier “Considero a construção do memorial absolutamente prioritária, como sendo a primeira etapa para um projecto de maior alcance que pode convergir num Museu da Escravatura”;
  • Ricardo Roque “ seria importante que ao memorial estivesse associada uma dimensão museológica”, mas sublinha que “a designação Descobertas/Descobrimentos corre o risco de evocar uma visão estrita, eurocêntrica e ideológica da história ao longo do império português, que não corresponde aos atuais estudos críticos e históricos sobre este complexo fenómeno”;
  • João Pedro Marques “A ideia de celebrar a abolição da escravatura e a correlativa resistência dos povos escravizados é em boa medida ficcional e distorcida porque na época do abolicionismo não houve nas colónias portuguesas em África revoltas contra a escravatura”… este historiador defende que o ideal seria a criação de um Museu dos Descobrimentos, e aí “reservar-se-ia uma sala, ala ou o espaço que se entendesse para a evocação museológica da escravatura”.

O “Expresso” especifica: “O programa eleitoral de Fernando Medina defende, contudo, que o Museu das Descobertas seja uma estrutura que “inclua alguns espaços/museus já existentes e outros a criar de novo, e que promova a reflexão sobre aquele período histórico nas suas múltiplas abordagens de natureza económica, científica, cultural, nos seus aspetos mais e menos positivos, incluindo um núcleo dedicado à temática da escravatura”. Não se percebe se por núcleo, a câmara se refere ao memorial, a uma sala do museu ou a algo mais ambicioso. O memorial da escravatura recebeu mais de mil votos e, depois de aprovado, foram-lhe atribuídos cem mil euros para a concretização…”

Para procurar ajudar a resolver esta conflituosa e melindrosa situação em Lisboa, procuro ver o que há de positivo e constato que: a CML tem felizmente meios financeiros para um novo museu de grande envergadura, como é o caso de um Museu dos Descobrimentos; a Vereadora da Cultura Catarina Vaz Pinto, que é uma humanista, considera essenciais as componentes de educação para a cidadania e para os direitos humanos, o que coincide com os objectivos do Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa; João Pedro Marques defende que a “evocação museológica da escravatura” devia constar num espaço do Museu dos Descobrimentos; como Ricardo Roque muito bem notou, como seria expectável e justifico, um Museu das Descobertas assim concebido gera fundos ódios, viva controvérsia e está ultrapassado.

Convergem com o Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa as essenciais componentes pretendidas pela Vereadora da Cultura Catarina Vaz Pinto, e pelos historiadores indicados no parágrafo anterior.

Sublinhe-se que o Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa é também solução para sarar as referidas feridas reabertas, as quais correm o risco de causar temíveis gangrenas se não as tratarmos de imediato, com sabedoria e diplomacia.

1.9. Assim, para corresponder ao apelo lançado em 16/3/2018 por António Guterres “tem de haver um grande investimento envolvendo governos, autarquias, líderes religiosos e sociedade civil”, espera-se que com urgência a CML reconverta a sua iniciativa museológica do Museu das Descobertas no Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, o que não é só questão de designação, mas de filosofia geral, conteúdos, etc., conforme adiante explico.

2. Mais-valias com o Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa

2.1. Em resposta a estes desafios tão oportunos e recentes, é não só perfeitamente adequado, mas financeiramente viável (e pode ser altamente rentável), um museu também gerador de desenvolvimento económico e social, mobilizador porque focado não só no Património Cultural (Material e Imaterial) da Europa, mas também no disperso pelo Mundo, e na actualidade.

Este museu pode atrair multidões de visitantes, nacionais de todos os estratos sociais pois o museu deve ter essencial componente social,

Propõe-se um museu que não se restringe ao que Luís Raposo chama “mercado dos museus”, nem aos habituais cinco vectores de unificação planetária de uma cultura-mundo, segundo o filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky: mercado, ciência, informação, indústria cultural e as novas tecnologias.

O Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa pode e deve não só expor os diversos assuntos históricos, mas demonstrar o diálogo intercultural através dos séculos, até à actualidade.

Deve também ser espaço de diálogo intercultural na actualidade, dando visibilidade inclusivamente a populações de periferias nacionais e internacionais. ser espaço de reconciliação e de paz.: um museu moderno, multidisciplinar, polifacetado, pedagógico, atraente, e também ele pioneiro !

2.2. Há décadas que diversas personalidades solicitam e insistem na criação de um Museu dos Descobrimentos /das Descobertas, e eu própria o venho considerando prioritário desde há 36 anos, com esse nome, o qual na década de 1990 actualizei para Museu do Multiculturalismo de Origem Portuguesa.

Como hoje em dia se questiona o conceito de multiculturalismo, a que se prefere, e bem, a interculturalidade, por implicar maior diálogo e aproximação (“o intercultural é o motor da evolução das sociedades”, na expressão do filósofo francês Jacques Demorgon), penso que a designação desta essencial instituição museológica deveria ser Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, como seguidamente justifico.

2.3. De facto, o conceito de descobrimento começou a ser posto em causa depois da II Guerra Mundial, é “civilizacionalmente autocentrado”, por vezes há viagens anteriores, o descobrimento é uma parte da expansão, pelo que, recentemente, muitos historiadores preferem, em vez de descobrimentos, falar em expansão, conceito que implica a ocupação efectiva dos espaços.

Note-se que, por exemplo, ainda em 1994, o Círculo de Leitores publicou o “Dicionário dos Descobrimentos Portugueses”, dirigido por Luís de Albuquerque.

Francisco Contente Domingues, catedrático de História da Universidade de Lisboa, director dos Estudos Pós-Graduados em História Marítima, presidente do International Committee for the History of Nautical Science, dirigiu o “Dicionário da Expansão Portuguesa 1415-1600” lançado em 2016, pelo Círculo de Leitores, em entrevista ao jornal “Público” (17-01-2016), sintetizou: “É perfeitamente evidente que há pessoas que não gostam de “descobrimentos”. Porque no fundo reportam-se sempre à chegada ou ao contacto dos povos europeus com outros povos. A palavra “expansão” também provoca esse mal-estar.”

2.4. Penso que a “interculturalidade”, que implica diálogo civilizacional, tem quádrupla vantagem:

  1. evita não só o referido mal-estar, mas também o substitui por um sentimento de aumento de auto-estima nos diferentes povos e culturas, e ainda por melhor compreensão entre os intervenientes, sobretudo se for acompanhada por essenciais acções pedagógicas de proximidade, de diálogo, de esclarecimento. Assim, também se responderia à ambição de várias comunidades, muitas delas empurradas para as periferias de Lisboa, por vezes para outras cidades.
  2. engloba a expansão e os descobrimentos
  3. engloba ainda outros aspectos relacionados, inclusivamente da actualidade, os quais são muito pacificadores, têm mais a ver com o interesse não só erudito, mas também com a realidade e a curiosidade do cidadão comum, e que milhões de pessoas por todo o Mundo, portuguesas e estrangeiras, apreciarão ver explicados, sobretudo através da forma visualmente mais acessível proporcionada pela exposição museológica, e pelos meios áudio-visuais que o museu pode conceber e que a tecnologia hoje já permite chegarem aos ecrãs de juntas de freguesia, autarquias, escolas, embaixadas, etc. e também a computadores, telefones, etc. São aspectos que implicam múltiplos intercâmbios e se poderão amplamente designar por interculturais, e com os quais por vezes nos deparamos no dia a dia, intercâmbios de povos e culturas, com aspectos económicos, comerciais, linguísticos, musicais, “viagens” também de animais, plantas, produtos, etc. Estes intercâmbios propiciaram, por exemplo, viagens de pessoas (como milhões de outros portugueses, eu própria tenho antepassados de Goa, uma avó de Bombaim/Mumbai, uma tia-avó de Angola, primos na China, no Brasil), viagens de diversas expressões artísticas, de produtos culinários que rapidamente globalizaram exotismos, etc.
  4. este conhecimento intercultural feito em contextos, revelando aproximações, nem sempre pacíficas, entre povos e culturas, ajudará a melhor compreender acontecimentos, pode ser propiciador de paz.

2.5. Dou apenas cinco exemplos de interculturalidade:

  1. na Linguística: os crioulos baseados no português, cujas afinidades nos permitem compreender, por exemplo, o Patois de Macau (onde papiar, segundo o Dicionário da Academia das Ciências, significa falar com alguém sobre determinado assunto), o Papiá Kristang da Malásia, o crioulo cabo-verdiano, o papiamento, falado na América, nas Antilhas, etc.
  2. na Música: as origens intercontinentais do Fado, que é Património Mundial da UNESCO; o fascínio pelos ritmos africanos, brasileiros, etc.
  3. na Botânica: os estudos do professor de Agronomia Tropical José Eduardo Mendes Ferrão sobre “Plantas dos Descobrimentos Portugueses nos séculos XV e XVI”, “L`Aventure des Plantes et les Découvertes Portugaises” , etc. têm permitido novos fascinantes avanços científicos sobre especificidades de plantas portuguesas.
  4. uma pesquisa que estou a fazer sobre as designações do peru (animal ) em diferentes países e continentes, a qual poderei resumidamente indicar: sendo este animal originário da grande área da América então chamada Peru, e sido trazido para a Europa pelos espanhóis, que lhe chamam pavo, foi o peru levado para a Índia pelos portugueses, e por exemplo em francês e em russo a designação implica a origem da Índia (respectivamente Dinde e Indok), e no moderno hindi dão-lhe a designação portuguesa … peru ! O inglês, como sabemos, identifica o animal com a Turquia, chamando-lhe “turkey”. O termo português “peru”, é o único europeu que indica a verdadeira origem geográfica do animal.
  5. na Culinária: “Cuisines of Portuguese Encounters. Recipes from Portugal, Madeira/Azores, Guinea-Bissau, Cape Verde, São Tomé and Príncipe, Angola, Mozambique, Goa, Brazil, Malacca, East Timor, and Macao”, da autoria de Cherie Y. Hamilton, publicação de Hippocrene Books, Inc., New York, 2001, foi possível através de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, e dá-nos um conjunto de receitas interculturais, prontas a serem servidas, e com garantido sucesso, no restaurante do Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa.

3. Alguns elementos justificativos para a urgente criação do Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa

3.1. Permita-se-me lembrar os meus anteriores apelos pela criação do que há décadas se chamaria Museu dos Descobrimentos, designadamente:

Quando escrevi em “Mundo da Arte. Revista Mensal de Arte, Arqueologia e Etnografia”, nº 10, Coimbra, Edições Epartur, Setembro de 1982, p. 15: “Numa época em que, por todo o País, surgem constantemente ideias e iniciativas para criar novos museus, pergunto-me: perante a escassez de verbas, perante a dificuldade de arranjar instalações e pessoal habilitado, quais as prioridades a seguir ? É claro que é extremamente positiva e de continuar a incentivar a crescente e indispensável consciencialização das populações em vista à defesa do nosso património cultural. … Num plano genérico, penso que é necessário estabelecer prioridades na criação de novos museus, sobretudo quanto a dois aspectos: objectos mais característicos de e para Portugal e objectos de mais fácil perda para o património do País. Dois aspectos relevantes mesmo numa perspectiva mundial, por poderem mostrar contribuições das mais valiosas que a cultura portuguesa prestou à cultura universal e, nessa medida, documentarem caracteres decisivos da nossa produção cultural, tanto no passado como em termos de futuro. São eles, designadamente: o Museu dos Descobrimentos (que, evidentemente, deveria ser muito mais do que os actuais Museu de Marinha e Museu da Sociedade de Geografia)…”.

3.2. Há 30 anos, no Colóquio da Universidade Católica Portuguesa “Os Descobrimentos – memória e projecto” (19 a 21 de Fevereiro de 1988), apresentei a comunicação “Os Descobrimentos e a Arte. Quando Portugal escreveu a História da Humanidade” (“Diário Popular” 22, 23 e 24 de Fevereiro de 1989), a partir da qual fui então convidada para a Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa.

Nessa comunicação eu já insistia na interculturalidade, e especifiquei por exemplo que: “considero o termo Descobrimento, não só no sentido de achamento, mas também no de começo da exploração, fixação, influência; influência esta que é recíproca da cultura dos descobridores na dos povos atingidos e vice-versa. ” e “… os feitos de Diogo Cão e Bartolomeu Dias representam, no domínio das concepções geográficas e cosmológicas, o passo definitivo da Idade Média à Modernidade. De facto, Colombo, tendo contudo revelado a existência dum continente, não alterou com a sua descoberta as referidas concepções, pois essas terras situavam-se no hemisfério norte, como a Europa”.

Citei então reputados historiadores, propositadamente todos estrangeiros e de diferentes nacionalidades: o sul-africano W. G. L. Randles, professor em Paris, que insistia no facto de terem sido as viagens dos portugueses para sul, ao longo da costa africana, que provaram a Terra ser esférica, habitada e que os mares envolviam as terras; o norte-americano Daniel Boorstin, que escreveu “o feito de Vasco da Gama foi mais importante do que o de Colombo porque foi mais longe…(e) foi um pioneiro no que respeita a navegar em torno dos continentes e não só através dos mares”, sintetizando esta opinião na frase “a figura de Vasco da Gama ofusca a de Cristóvão Colombo”. Este historiador reconheceu também o pioneirismo dos portugueses e que “os Descobrimentos Portugueses ainda não tiveram o reconhecimento e as celebrações que merecem no Ocidente de língua inglesa”; o inglês Arnold Toynbee (1885-1975), dividiu a história da Humanidade em época pré-gâmica e post-gâmica, considerando os feitos de Vasco da Gama como momento crucial de avanço na História; o francês Fernand Braudel (1902-1985) que escreveu: “Como pôde Portugal, país tão pequeno, desempenhar tal papel ? Na verdade, foi ele que inaugurou a expansão europeia que irá revolucionar o Mundo”.

3.3. Há 18 anos, na África do Sul, no Museu Bartolomeu Dias, em Mossel Bay, a convite de Maria Alzira Seixo, apresentei a comunicação “Museum of Multiculturalism of Portuguese Origin”, dentro da temática geral “The Paths of Multiculturalism”, integrada no Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada, realizado então em Pretória. Apresentei diversas abalizadas opiniões sobre as características únicas da presença portuguesa no mundo, que se poderão sintetizar no artigo de Tony Emerson intitulado “ The Unimperial Empire. For richer or poorer, the Portuguese were different”, publicado na revista americana “Time”, por ocasião da passagem de Macau para a China, em Dezembro de 1999. Para a organização do museu enfatizei o aspecto pedagógico, recorrendo à utilização de tecnologias modernas, réplicas de objectos, etc. O texto foi publicado no ano 2000 pelas Edições Cosmos, limitando-me agora citar a também tão actual conclusão: “What I think would attract the crowds and display the Portuguese identity is the Museum of Multiculturalism of Portuguese Origin, where there should be a tremendous educational intent, resorting to a variety of objects and techniques, so that any Portuguese person or foreigner would clearly understand what the Portuguese Discoveries and expansion represent. I am certain that such a museum would also help us, people of different cultures, to understand ourselves better. It would, furthermore, be a contribution to peace in the world.”

3.4. Em 24 de Março de 2001, na revista do jornal “Expresso”, dei uma entrevista sobre a criação desse museu, em que se englobariam os emigrantes e os imigrantes até à actualidade, referindo expressamente que o museu deveria ser valioso contributo para o entendimento, a paz entre os povos.

Esta minha sugestão colheu o apoio de várias entidades, muitas das quais eu nem conhecia, como foi o caso da Câmara Municipal de Alcobaça, que formalizou de imediato o seu apoio pelo ofício nº 5017, de 26/3/2001, com o assunto: “Solicitação de reunião – Museu do Multiculturalismo de Origem Portuguesa”.

3.5. O museu não avançou em 2001 porque adoeci então gravemente, mas agora tem mais actualidade . Evidentemente, o Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, deve ser feito sem complexos, assumindo Portugal, país há mais de seis séculos autor da 1ª Globalização e de prática universalista, os aspectos positivos e negativos da sua História, com a máxima objectividade científica histórica, sob orientação de uma equipa altamente credenciada, englobando também especialistas de outras áreas, de forma a que tenha forte componente actual e prática, e recorrendo, se necessário, a patrocínios financeiros.

Tal é não só oportuno, mas urgente, nesta era de gigantescos afluxos turísticos.

4. Até Vasco da Gama é quase esquecido. Dois livros agora publicados evidenciam chocante desconhecimento da história

4.1. É essencial uma abordagem serena, reflectida e madura, que a conjuntura de 2018 permitirá, até também porque como do passado também se deve aprender a não repetir os seus erros, peço licença para mencionar as realidades que vivenciei em 1998, exactamente há vinte anos, aquando das comemorações do 5º Centenário do notabilíssimo feito de Vasco da Gama, a Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia.

Nos finais de 1997/ inícios de 1998, fui à Índia; em Mumbai/Bombaim e Goa comprei dezenas de livros sobre a presença portuguesa, edições e reedições feitas então e com antecedência, mesmo na capital da Índia, Nova Delhi, numa atitude altamente meritória e descomplexada do país colonizado em relação ao referido centenário. No entanto, em Portugal as comemorações viram-se envoltas em extraordinárias e complexadas polémicas, e em grande parte acabaram por ser feitas em … França, em Paris, que nada tem a ver com esse acontecimento !!!.

4.2. Observe-se a falta de divulgação e de merecida pública homenagem, ainda na época presente, aos responsáveis pelos feitos dos Descobrimentos, por exemplo em relação a Vasco da Gama (cerca de 1469-1524).

4.3. Comece-se por pesquisar “Vasco da Gama”, como fazem a maior parte das pessoas, na internet, no Google, e aparecem nove itens: em primeiro lugar, o centro comercial construído em Lisboa no Parque das Nações, onde se realizou a Expo 98 (a Feira Internacional de Lisboa, de 1998, sob o tema “Os Oceanos: um património para o futuro, por ocasião das Comemorações do 5º Centenário do Caminho Marítimo para a Índia), e em 2º, 3º, 4º , 5º e 9º lugares surgem os seguintes itens, todos relativos a esse centro comercial: cinema, lojas, horário, restaurantes, e cinecartaz. Em 6º lugar, aparece a ponte próxima, que atravessa o Tejo, em 7º lugar surge o navegador, que remete para os referidos Ponte e Centro Comercial, e ainda para a Torre (actualmente um hotel, mas também construída em 1998 no Parque das Nações, como contraponto à Torre de Belém – do séc. XVI e desde 1983 Património Mundial da UNESCO), e em 8º lugar surge o Club de Regatas, clube de futebol, brasileiro, fundado um século antes, em 1898, aquando do 4º centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia !!!

4.4. Agora, imaginemos um turista em Portugal que procura ver Vasco da Gama em estátuas, em locais públicos: em Lisboa, observa a do túmulo no Mosteiro dos Jerónimos, e as de difícil identificação, porque contêm também outras figuras, no Arco da Rua Augusta /Praça do Comércio, e no Monumento dos Descobrimentos, em Belém; a estátua de Sines, reivindicada desde 1898, só foi erigida em 1970, para comemorar os 500 anos do nascimento do navegador; lembrando que Vasco da Gama foi o 1º Conde da Vidigueira, também em 1970 foi nessa vila erguida uma estátua, e há outra em Évora; a estátua de Angra do Heroísmo data de 2016 e deve-se à generosidade de um emigrante.

4.5. Vasco da Gama deu o nome, em Portugal e no estrangeiro, a algumas praças, ruas, avenidas, inspirou por exemplo, em 1865 a ópera “L`Africaine” de Giacomo Meyerbeer e Eugène Scribe, e em 1872 uma outra ópera ainda menos conhecida, deu o nome, em 1898, ao aquário lisboeta, situado no Dafundo, fundado aquando das comemorações do 4º centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia, e o qual foi dos primeiros aquários do mundo …

Têm o nome de Vasco da Gama, por exemplo: na Índia, em Goa, a cidade portuária e o Vasco Sports Club, equipa de futebol fundada em 1951; em Cochim, a igreja de S. Francisco (a mais antiga igreja europeia na Índia), onde o navegador esteve sepultado durante 14 anos, e como se verifica que Vasco da Gama é uma boa designação para atrair os turistas, lojas e restaurantes recentemente aí disputam o seu nome; na África do Sul, na Cidade do Cabo, há um bairro Vasco da Gama; no Brasil, surgem mais dois clubes de futebol, modalidade desportiva que pelos vistos gosta de se inspirar no navegador, havendo em Portugal uns clubes de futebol com o seu nome também em Sines e na Vidigueira… e na lua há uma “cratera Vasco da Gama”…

4.6. Estas homenagens a Vasco da Gama são chocantemente poucas, dispersas, e com elas não se aborda sequer a acção e a importância mundial do navegador.

4.7. Como foi amplamente dado a conhecer através da Comunicação Social em Fevereiro/Março de 2018, é generalizado em Portugal o desconhecimento da História, mesmo no Ensino Básico e Secundário, como é provado por dois professores da disciplina, Luís Mascarenhas Gaivão e Isabel Moreira Brito, que acabam de lançar dois livros inspirados na sua prática docente, respectivamente “História de Portugal em Disparates”, da editora Guerra e Paz, e “D. Sebastião desapareceu em Alcácer do Sal ? e outras respostas disparatadas nos Testes de História”, da editora Manuscrito.

Depois destas verificações, penso ser mais fácil decidir que urge, através deste museu, ensinar História de Portugal e a interculturalidade global que propiciou!

5. Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa – plano museológico geral e uma pormenorização

Sediado em Lisboa, capital também da Expansão, dos Descobrimentos, e da Interculturalidade, o museu deve assentar em sólidas e diversificadas bases científicas e financeiras, recebendo fundos provenientes de entidades públicas e privadas, nacionais e internacionais.

Para o museu ser verdadeiramente moderno, pretende-se de forma prática, aliciantemente pedagógica, e divertida, criar um bem fundamentado Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, que seja interessante e integrativo, para portugueses e estrangeiros.

Sugiro que tenha os seguintes oito pilares:

  1. Seja interactivo e tenha adjacente um parque temático, o que já tenho visto sem custos excessivos, nem áreas muito grandes. Neste caso, o fulcro do parque temático deveria ser o de um curso de água (simulando o rio Tejo e o mar), em que os visitantes pudessem embarcar em barquinhos reais, e simular passar pelos locais da Expansão, dos Descobrimentos, da Interculturalidade.
  2. Além do parque temático, um espaço expositivo único (não polinucleado), onde seja possível uma visão geral e integrada, extremamente atractiva, pedagógica e geral dos acontecimentos, dando ao conjunto um carácter participativo. Tal, além de ser mais prático e apreciado pelos visitantes, também tem imensas vantagens financeiras, quanto a organização, vigilância, guardaria, etc., pois implica muito menores custos de funcionamento e de manutenção, o que peço licença para aconselhar, com conhecimento profissional de décadas, enquanto museóloga de carreira, conservadora e directora de vários museus e palácios, lembrando que inclusivamente trabalhei na CML, onde me dediquei sobretudo ao Museu da Cidade/Palácio Pimenta, ao Museu Rafael Bordalo Pinheiro, e a percorrer a capital, resguardando e valorizando imensos bens patrimoniais, e fazendo visitas guiadas, o que me levou a conhecer em profundidade o património municipal.
  3. Conviria instalar o museu junto ao Tejo em terrenos devolutos (?), aproveitando um edifício antigo (?), ou vários edifícios antigos contíguos (?) — e há tantos espaços com condições, assim haja vontade política para tal!
  4. Como muitos dos objectos originais que interessam ao museu, como mapas, etc. estão em coleções, portuguesas ou estrangeiras, que não os cederão para o museu, é necessário e conveniente recorrer às novas tecnologias e a réplicas, o que de forma alguma diminui o seu interesse.
  5. Na zona expositiva do museu não só se assinalarem os temas, locais, etc., mas também por exemplo os contactos interculturais e rotas o mais diversas possível e até à actualidade, como: Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães (português ao serviço do país vizinho), migrações, miscigenações, escravaturas portuguesas e estrangeiras, os judeus, os cristãos, os muçulmanos, os hindus, modas das “chinoiseries”, do orientalismo, das culturas africanas, da cultura brasileira, rotas do açúcar, do ouro, das pedras preciosas, do chá, do café, do chocolate, da porcelana, do milho, do peru, da batata, rotas musicais que conduziram ao fado e não só, etc.
  6. Para melhor explicar os conteúdos do museu, serão úteis, também em várias línguas, audioguias. A loja do museu, espaço sempre altamente rentável, poderá vender, além das óbvias diversas edições/ publicações mais ou menos profundas para diferentes públicos, e objectos inspirados nas milhentas temáticas do museu, os imensos produtos típicos da interculturalidade. O possível restaurante do museu já tem os originais e apelativos menus preparados, com as receitas pormenorizadamente feitas no citado livro “ Cuisines of Portuguese Encounters”. Serão também um sucesso, os guias do museu vestidos de acordo com as épocas e regiões, e seguindo os princípios da “Living History”, as recriações históricas inspiradas em tantos temas e contextos.
  7. Como complemento, penso ser fundamental que o museu fomente contactos externos. Graças às novas tecnologias, será fácil arranjar material do museu, como os referidos roteiros temáticos, que seja também visionado, em Portugal e no estrangeiro, em escolas, juntas de freguesia lisboetas, outras autarquias portuguesas, centros culturais, museus, embaixadas, diversos países, agentes turísticos, de viagens, e outros meios, incluindo os portáteis smartphones. Pretende-se não só difundir os conhecimentos, mas atrair visitantes, muitos dos quais no próprio museu melhor se poderão reencontrar com as suas identidades, devendo o museu ter profundas preocupações sociais.
  8. Por outro lado, pretende-se fomentar as visitas a lugares com valor patrimonial cultural, área em que, segundo o Eurobarómetro, Portugal está em último lugar. As ideias para estas visitas serão facilmente postas em prática por agentes culturais e turísticos. Sendo devidamente valorizados os locais com interesse patrimonial cultural, é mais fácil atrair iniciativas e patrocínios para aí fomentar a criação contemporânea em fotografias, esculturas, urbanismo, arquitectura, etc. Em consequência, a valorização patrimonial cultural desses locais ajuda a que para aí se tomem medidas contra a especulação urbana e imobiliária, especulação que descaracteriza, diminui ou retira mesmo o valor patrimonial cultural, o qual também pode ser rentável.

De acordo com estes pressupostos, a escassez de espaço leva-me a apresentar, pelo menos, uma sugestão concreta relativa à valorização de arredores de Lisboa..

A propósito de há dias se terem completado 525 anos sobre a documentada passagem do genovês Cristovão Colombo por Portugal, no regresso da 1ª expedição à América, lembro que ele esteve então nos Açores, em Lisboa, dormiu em Sacavém (concelho de Loures), encontrou-se com o rei D. João II em Vale do Paraíso (concelho da Azambuja), depois, no concelho de Vila Franca de Xira, encontrou-se com a rainha D. Leonor e o futuro rei D. Manuel I no Convento de Santo António da Castanheira, e no regresso a Lisboa dormiu em Alhandra.

Ora, vemos que por exemplo Itália, Espanha e até locais onde Colombo nunca esteve, homenageiam e aproveitam o nome do navegador, até com benefícios turísticos.

Colombo tem inquestionável profunda ligação a Portugal, onde viveu cerca de dez anos (cerca de 1476-1486), onde aprendeu imenso de navegação, onde nasceu o seu filho mais velho, e onde regressou pelo menos estes dias de Março de 1493, e em 1498 regressou a Porto Santo e à Madeira. No entanto, se formos à internet pesquisar este importante navegador em “Colombo Portugal”, apenas aparecem 8 itens, todos relacionados com o Centro Comercial Colombo construído em Lisboa, em 1994!

Os concelhos de Loures, Azambuja e Vila Franca de Xira são presentemente em parte dormitórios de Lisboa, e ficariam muito valorizados se melhor evocassem e divulgassem a sua história, por exemplo, a referente a esta passagem de Colombo. Assim, a quinta de Santo António da Castanheira, que foi recentemente recuperada, estando em curso um projecto de adaptação do convento a hotel, traria uma extraordinária mais valia para o concelho de Vila Franca de Xira, e sobretudo para essa unidade hoteleira, se no seu espaço fosse lembrado o histórico encontro de 1493.

Não esqueço que Colombo é por vezes malquerido, sobretudo em certas populações da América espanhola, mas se se explicarem as maravilhosas trocas interculturais que daí advieram, tal ajudará a melhor compreensão e possível aceitação.

O Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, na sua acção interna e externa, muito pode ajudar à inclusão, ao diálogo, à solidariedade, à Paz.

Colaboradora do Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa; Sócia de: Academia Portuguesa da História, Sociedade Científica da  Universidade Católica Portuguesa, Academia Nacional de Belas-Artes,  ICOM – International Council of Museums; matildesousafranco@gmail

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