Homofobia ou direitos? Machismo ou direitos? Tortura ou diretos? Racismo ou direitos? Fascismo ou democracia? É desta forma ligeira e infantil que certa esquerda (neste caso, Mariana Mortágua) continua a encarar escolhas complexas e difíceis, passando um atestado de estupidez e menoridade a todos quanto acreditam que um caminho alternativo não pode ser encabeçado por quem, nas rédeas do poder, se revelou incapaz de o fazer ao longo das últimas décadas.

A forma de colocar o problema diz-nos muito sobre Mortágua, o Bloco e uma grande parte da esquerda, para quem a linguagem não serve tanto para transmitir, mas sobretudo para moldar a realidade. O Twitter é, aliás, a ferramenta ideal para este intento. Nesta plataforma não há tempo nem espaço para grandes justificações, explicações ou aprofundamentos. Ali, impera a lógica da bojarda e do arremesso – e assim vemos como Mortágua e Trump até partilham as mesmas técnicas populistas para fazerem valer as suas agendas.

É “fascista” para aqui, “ditador” para ali; “homofóbico” para aqui; “racista” para ali. Está traçado, assim, o quadro de Bolsonaro. E relativamente a Haddad? De nada interessa o sentimento generalizado de insegurança dos brasileiros — que vêm desaparecer diariamente 175 congéneres, vítimas dos crimes mais violentos –, os sucessivos escândalos de corrupção, o crescimento exponencial da dívida ou o aumento da pobreza extrema no Brasil. Para Mariana Mortágua, tudo isto se resume facilmente em duas palavras: “direitos” e “democracia”. Assim mesmo.

Convinha explicar que, para podermos falar em “direitos” e “democracia”, não basta não vivermos sob a égide de um regime assumidamente autoritário ou opressor. A vida em democracia pressupõe não apenas que o Estado não ofenda diretamente a minha liberdade (dimensão negativa), mas também que assegure as condições mínimas para o seu exercício (dimensão positiva). E se Bolsonaro ameaça não respeitar a primeira, também é verdade que o partido de Haddad se revelou incapaz de assegurar a segunda. De que me serve, afinal, viver sob a bandeira dos “direitos” e da “democracia” se não posso sair de casa sem receio de ser assaltado ou levar um tiro?

É por tudo isto que continuam sem perceber o que está a acontecer no mundo. Não perceberam Trump, não perceberam o Brexit e não percebem agora Bolsonaro. Podemos não concordar com a escolha dos brasileiros, mas ridicularizarmos o seu voto é, mais do que um erro tremendo, uma profunda injustiça. A escolha do eleitor brasileiro não foi entre, por um lado, homofobia, machismo, tortura, racismo e fascismo, e, por outro, democracia e direitos — como nos fizeram crer. Dando de barato a caracterização que Mortágua faz de Bolsonaro, a alternativa era qualquer coisa como a corrupção, a oligarquia, a insegurança, a pobreza e a dívida (por outras palavras, a manutenção ou até o agravamento do status quo). E para países onde isto significa “democracia” e “direitos” já nos basta a Venezuela…