Mundial 2018

Não ter um plano também é um plano /premium

Autor
  • Bruno Vieira Amaral

Era apenas futebol naquele estado de quase ebulição em que qualquer desfecho é verosímil, em que tudo o que resta é improviso, esperteza e fome de glória.

Chamada do futebol: “Estou? É só para dizer que ainda não vou para casa.” E, no entanto, esteve quase a regressar, qual filho pródigo, com uma data de presumíveis pais de braços abertos para o acolherem. O início foi perfeito. Quando a temporada começou, perguntaram a José Mourinho quais eram os candidatos a ganhar a Premier League. O treinador português incluiu o Tottenham, desvalorizando a venda de Kyle Walker ao Manchester City porque, promovendo Kieran Trippier à titularidade, a equipa de Londres até era capaz de ficar a ganhar. Trippier foi um dos melhores da Inglaterra neste Mundial. Um secundário cuja solidez reiterada o elevou a protagonista, num desempenho-padrão da selecção inglesa, seguido por Pickford, Maguire, Stones, Henderson, todos com cara de figurantes do Dunkirk. Hoje foi a vez de Trippier rasgar a cortina do anonimato com um golo que resultou do único remate da Inglaterra à baliza em todo o jogo.

Ao minuto cinco, ninguém diria. Os croatas entraram nervosos, como se estivessem a jogar uma meia-final de um campeonato do mundo. Os ingleses entraram confiantes, como se estivessem a jogar uma meia-final do campeonato do mundo. Nos jogos a eliminar, a Inglaterra nunca esteve em desvantagem e nem o golo de colombiano Yerry Mina no último suspiro foi suficiente para abalar os alicerces do edifício do engenheiro Southgate. O golo precoce enervou ainda mais os croatas e tranquilizou ainda mais os ingleses. Tudo corria de acordo com o plano.

Já os croatas, segundo um artigo publicado no Guardian, nem sequer tinham um plano. Na opinião do articulista, chegar às meias-finais do Mundial com um campeonato interno assolado por escândalos, a ausência de planificação do futebol jovem e infra-estruturas deficientes, deve fazer-nos considerar a hipótese de a selecção croata prosperar no caos e definhar na organização. É uma hipótese curiosa, sem dúvida, mas quando não existe um plano as rotinas podem disfarçar. Por isso, pela terceira vez consecutiva em três jogos, a Croácia viu-se em desvantagem, embora os jogadores não tivessem percebido de imediato o que tinham de fazer para dar a volta. Olhavam para o banco, viam o rosto atónito de Dalic (insisto na minha teoria da competência fisionómica) e ficavam ainda mais desorientados. Aos quarenta minutos de jogo, Rebic sofreu uma falta que o árbitro não assinalou e correu uns vinte metros para tirar desforço do adversário. Vrsaljko expediu um remate num envelope com remetente inequívoco: desespero. Lovren, de olhar homicida, ia a cada bola como se a bola não existisse. Modric procurava impor alguma racionalidade, sem grande sucesso. Os secundários croatas comportavam-se como secundários croatas. O adepto começava a suspeitar que a Croácia tinha atravessado o Mundial a viver dos rendimentos de um 3-0 aplicado à Argentina e dos juros fixos da dupla Modric-Rakitic.

A Inglaterra estava perfeitamente à vontade a fazer à Croácia aquilo que a França tinha feito à Bélgica. Quando se tem confiança, dá para tudo. E a verdade é que esta Inglaterra demonstrou sempre ter mais personalidade do que futebol. Ao longo destas semanas, os jogadores ingleses realçaram a importância do trabalho de fundo com a psicóloga Pippa Grange e isso gerou frutos (já os croatas jogavam como se ninguém os tivesse avisado da existência de um ramo do conhecimento chamado Psicologia). Bons, como se viu sobretudo nos penáltis contra a Colômbia; e maus, com os jovens ingleses a convencerem-se de que eram mestres do chamado jogo “especulativo” ou, para estar dentro do espírito do tempo, do jogo à francesa. Numa imitação quase perfeita de uma caricatura dos gauleses, vestiram o fatinho de pintor, puseram um bigodinho ridículo e esperaram que os croatas, como os belgas na véspera, chocassem contra o muro.

Acontece que, obrigados a falar francês, foram denunciados pelo sotaque. Kyle Walker, o tal que abriu caminho para a afirmação de Trippier, foi batido por Perisic. A Croácia, que até aí parecia uma equipa a pagar a factura de dois prolongamentos, ficou leve e começou a carregar. A Inglaterra, até aí com a tranquilidade de quem está em piloto automático, sobressaltou-se como se se tivesse apercebido de que já só tinha um motor. Com o golo de Trippier, a Inglaterra tinha-se retirado do jogo, com a ideia de o controlar à distância, sem sujar as mãos. O golo de Perisic obrigou-a a regressar, mas com o pânico indisfarçável de quem vê o plano a sair furado. No prolongamento, Kyle Walker, outra vez ele, teve um daqueles deslizes fatais a que a Inglaterra de Southgate se julgava imune. Mandzukic não perdoou. Verdade seja dita que, nessa altura, já não havia planos, nem psicologia. Era apenas futebol naquele estado de quase ebulição em que qualquer desfecho é verosímil, em que tudo o que resta é improviso, esperteza e fome de glória. E, num jogo com essas características, os trunfos estavam na mão da Croácia.

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