Chamada do futebol: “Estou? É só para dizer que ainda não vou para casa.” E, no entanto, esteve quase a regressar, qual filho pródigo, com uma data de presumíveis pais de braços abertos para o acolherem. O início foi perfeito. Quando a temporada começou, perguntaram a José Mourinho quais eram os candidatos a ganhar a Premier League. O treinador português incluiu o Tottenham, desvalorizando a venda de Kyle Walker ao Manchester City porque, promovendo Kieran Trippier à titularidade, a equipa de Londres até era capaz de ficar a ganhar. Trippier foi um dos melhores da Inglaterra neste Mundial. Um secundário cuja solidez reiterada o elevou a protagonista, num desempenho-padrão da selecção inglesa, seguido por Pickford, Maguire, Stones, Henderson, todos com cara de figurantes do Dunkirk. Hoje foi a vez de Trippier rasgar a cortina do anonimato com um golo que resultou do único remate da Inglaterra à baliza em todo o jogo.

Ao minuto cinco, ninguém diria. Os croatas entraram nervosos, como se estivessem a jogar uma meia-final de um campeonato do mundo. Os ingleses entraram confiantes, como se estivessem a jogar uma meia-final do campeonato do mundo. Nos jogos a eliminar, a Inglaterra nunca esteve em desvantagem e nem o golo de colombiano Yerry Mina no último suspiro foi suficiente para abalar os alicerces do edifício do engenheiro Southgate. O golo precoce enervou ainda mais os croatas e tranquilizou ainda mais os ingleses. Tudo corria de acordo com o plano.

Já os croatas, segundo um artigo publicado no Guardian, nem sequer tinham um plano. Na opinião do articulista, chegar às meias-finais do Mundial com um campeonato interno assolado por escândalos, a ausência de planificação do futebol jovem e infra-estruturas deficientes, deve fazer-nos considerar a hipótese de a selecção croata prosperar no caos e definhar na organização. É uma hipótese curiosa, sem dúvida, mas quando não existe um plano as rotinas podem disfarçar. Por isso, pela terceira vez consecutiva em três jogos, a Croácia viu-se em desvantagem, embora os jogadores não tivessem percebido de imediato o que tinham de fazer para dar a volta. Olhavam para o banco, viam o rosto atónito de Dalic (insisto na minha teoria da competência fisionómica) e ficavam ainda mais desorientados. Aos quarenta minutos de jogo, Rebic sofreu uma falta que o árbitro não assinalou e correu uns vinte metros para tirar desforço do adversário. Vrsaljko expediu um remate num envelope com remetente inequívoco: desespero. Lovren, de olhar homicida, ia a cada bola como se a bola não existisse. Modric procurava impor alguma racionalidade, sem grande sucesso. Os secundários croatas comportavam-se como secundários croatas. O adepto começava a suspeitar que a Croácia tinha atravessado o Mundial a viver dos rendimentos de um 3-0 aplicado à Argentina e dos juros fixos da dupla Modric-Rakitic.

A Inglaterra estava perfeitamente à vontade a fazer à Croácia aquilo que a França tinha feito à Bélgica. Quando se tem confiança, dá para tudo. E a verdade é que esta Inglaterra demonstrou sempre ter mais personalidade do que futebol. Ao longo destas semanas, os jogadores ingleses realçaram a importância do trabalho de fundo com a psicóloga Pippa Grange e isso gerou frutos (já os croatas jogavam como se ninguém os tivesse avisado da existência de um ramo do conhecimento chamado Psicologia). Bons, como se viu sobretudo nos penáltis contra a Colômbia; e maus, com os jovens ingleses a convencerem-se de que eram mestres do chamado jogo “especulativo” ou, para estar dentro do espírito do tempo, do jogo à francesa. Numa imitação quase perfeita de uma caricatura dos gauleses, vestiram o fatinho de pintor, puseram um bigodinho ridículo e esperaram que os croatas, como os belgas na véspera, chocassem contra o muro.

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