Mundial 2018

O som de uma promessa a quebrar-se /premium

Autor
  • Bruno Vieira Amaral

A França tem esse talento para esvaziar os sonhos dourados dos outros nas meias-finais. Reparem: esvaziar. Não é rebentar. É mesmo ir esvaziando lenta e cruelmente os sonhos alheios.

Ouviram? Foi o som de uma promessa a quebrar-se. Outra vez, embora de forma diferente. Parecia que era desta que a geração de ouro belga iria até ao fim. Cinco jogos, cinco vitórias. A recuperação heróica contra o Japão. A primeira parte de luxo contra o Brasil. A segunda parte de resistência e Courtois. Não havia dúvidas. Só faltava uma última curva, azul e enganadora. Uma curva onde a geração de ouro de Portugal se despistou uma vez, um muro onde se estampou novamente, numa altura em que do ouro original só restava Figo e algumas memórias brilhantes. É que a França tem esse talento para esvaziar os sonhos dourados dos outros nas meias-finais. Reparem: esvaziar. Não é rebentar. É mesmo ir esvaziando lenta e cruelmente os sonhos alheios.

No jogo de hoje, a Bélgica entrou brasileira, a dominar com a bola no pé. Dava impressão de estar a enredar o adversário numa teia. O jogo era como que o prolongamento das partidas anteriores. Os belgas jogavam como quem acabou de eliminar o Brasil num encontro épico. Os franceses jogavam como quem acabou de despachar o Uruguai num jogo deliberadamente morno. A diferença é que a Bélgica demorou a perceber que estava num jogo diferente, enquanto a França sabia desde o início que o jogo era outro. Eis outra arte dos gauleses, pelo menos destes: fazem-se de mortos e, no último momento, escapam à ferroada fatal. Mérito de França e de Lloris, que fez uma defesa de importância gordonbanksiana. Demérito dos belgas, a pairar como vespas, a picar como borboletas.

As gerações de ouro, como a belga, têm destas coisas. Na hora h, não sabem matar. Aos poucos, começaram a morrer, a perder forças, discernimento, clareza de raciocínio. Então sofreram um golpe tremendo e, por muita que fosse a confiança no talento dos jogadores, percebeu-se que só por milagre poderiam restabelecer-se. Nos minutos após o golo de Umtiti, no início da segunda parte, a França cresceu, começou a parecer-se mais com o monstro que é. A Bélgica minguou. Estar a perder 1-0 com esta França é muito pior do que estar a perder 2-0 com o Japão. Os jogadores belgas sabiam disso melhor do que ninguém e jogaram como se quisessem que toda a gente soubesse que eles sabiam.

Hazard, um destro com génio de esquerdino, andava às voltas sem sair da lâmpada. De Bruyne, a bússola da equipa, desmagnetizou-se. Lukaku era servido como um português numa esplanada algarvia em Agosto. Do outro lado, Varane reinava, imperial. Kanté continuava a sua saga de recuperação de bolas. Griezmann descia para pegar no jogo. E Giroud descobria a sua verdadeira vocação como trinco. O jogo seguia para o final. Da perspectiva dos belgas, era uma marcha fúnebre a avançar com uma lentidão mais sádica do que respeitosa. O som da inevitabilidade, como diria Mr. Smith. Um som tão medonho e inelutável que, no jogo dos quartos-de-final, pôs um gladiador como Giménez a chorar muito antes do derradeiro apito do árbitro. Para os franceses era o som de uma eficiência com o seu quê de cruel pois dá ao adversário a ilusão, pelo resultado, de que esteve muito perto de os bater. Mera ilusão.

Nós sabemos como custa. Em 2000, consolámo-nos com a história da “mão” de Abel Xavier. Em 2006, aceitámos o destino com uma resignação, um estoicismo, que, à sua maneira imperfeita, foram heróicos. Recuámos sem azedume e quis o mesmo destino que, dez anos depois, servíssemos a mais fria das vinganças por meio de um guião tão perfeito que só podia ser fortuito. Os belgas saíram sem aquele estrondo da humilhação que concede aos adeptos o prazer possível do desabafo e da crítica selvagem. Saíram depois de terem feito um grande campeonato, de terem provado que são uma grande equipa e não apenas um conjunto de jogadores talentosos e com a consciência tranquila de quem sabe que, por vezes, tudo isso é insuficiente para ganhar um campeonato do mundo. Sobretudo quando o asfalto da última curva antes da glória está pintado com o azul traiçoeiro da França.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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