Os rapazes têm vinte anos, mas alguns já foram condenados a penas de prisão pesadas. Vivem reclusos, na Prisão-Escola de Leiria, onde as rotinas são previsíveis e a vigilância muito apertada. Só saem da sua cela aqueles que têm actividades, e a estes apenas é permitido sair entre as 9h da manhã e as 11:30. De tarde podem sair outra vez, mas só entre as 14:30 e as 16:30. De resto estão fechados, privados de liberdade, condenados por longos anos. Foram julgados e cumprem a sua pena, como manda a lei.

Na prisão, os rapazes não dançam com raparigas e, muito menos com as suas mães e as suas irmãs. Muitos deles não são abraçados há muito tempo porque nem sequer são visitados. Estão habituados. Ou convencem-se disso, fingindo que não precisam, para não sofrerem ainda mais essa ausência.

Há poucos dias alguns destes mesmos rapazes levantaram-se às 6h da manhã e só voltaram às suas celas depois da meia-noite. Vieram de Leiria para Lisboa numa carrinha celular diferente da habitual, pois pela primeira vez na história dos estabelecimentos prisionais (nacionais e estrangeiros!) 17 destes rapazes foram todos transportados na mesma carrinha. Um minibus celular, com com quase duas dezenas guardas a acompanhar. E mais, pela primeira vez na história dos serviços prisionais os reclusos viajaram à noite e saíram da prisão para irem cantar.

Os rapazes, os guardas e o director da prisão tinham encontro marcado na Fundação Calouste Gulbenkian logo pela manhã. Nenhum destes rapazes sabia exactamente o que era a Gulbenkian, nem tinha nenhuma ideia do impacto do grande auditório. Muito menos a consciência de ser um palco histórico pisado por monstros sagrados da música, dança, teatro e artes performativas, mas também por lendas vivas de todas as áreas do conhecimento. Para eles, a Gulbenkian começou por ser apenas um nome esquisito de um lugar remoto, ‘lá fora’.

Durante dois dias seguidos estes mesmos rapazes, os guardas e o director da prisão conheceram os bastidores da Gulbenkian, onde tiveram actividades juntos e, acima de tudo, onde ensaiaram para a estreia de um espectáculo único. Uma Ópera encenada e exaustivamente trabalhada na prisão que acabou por ser excepcionalmente mostrada ao público no grande auditório da Fundação. No início do projecto Ópera na Prisão ninguém sabia que a estreia seria ali, mas a dedicação, o profissionalismo e o empenho de músicos e reclusos foi tal, que a direcção artística da Fundação achou que era impossível não revelar todos estes talentos ao grande público.

Quinta-feira, dia de jogo de Portugal, era um dia decisivo. Éramos nós, ou os polacos, não havia volta a dar. Por isso, a partir das 7h da tarde o país estava muito mais mobilizado para se sentar em frente de uma televisão, do que de frente para um palco. Mesmo sendo um dos palcos mais importantes da história cultural e artística do país. Ou seja, ninguém esperava a enchente que fez transbordar o grande auditório da Gulbenkian, onde não ficaram cadeiras vazias.

Às 7h da tarde as filas para entrar e a animação no hall e corredores centrais da Fundação Calouste Gulbenkian anunciavam um espectáculo grande. Um acontecimento maior. A sala encheu-se de gente de todas as cores, tamanhos e feitios; vieram duas ministras e muitos directores; chegou o presidente da Fundação mais uma comitiva de artistas e intelectuais, e todos os demais. Vieram quase todos os que eram importantes naquele dia. Quase.

Houve mães e pais que não conseguiram ir ver os seus filhos cantar e dançar porque não conseguem suportar o olhar dos outros. Aquele olhar que julga e volta a julgar, condena e volta a condenar aqueles que sofrem por terem um filho condenado. O olhar que é como prego na ferida em chaga. Estes pais perderam provavelmente um dos dias mais importantes da vida dos seus filhos, mas não podem ser julgados por isso, pois nenhum de nós sabe se seria capaz de ir à Gulbenkian ver uma Opera feita com reclusos, se um deles fosse nosso filho.

Os rapazes eram dezassete e apenas alguns deles tiveram lá a sua família e amigos. Vinte e quatro familiares e amigos fizeram questão de estar com os seus, e subir ao palco com eles. Recito os números de propósito porque estes rapazes têm apenas vinte anos e precisam de todos os apoios possíveis e imaginários. Por maiores que sejam as suas penas, hão-de voltar à vida e às suas comunidades e é vital saber como recebê-los. Todos merecemos segundas oportunidades e o princípio aplica-se especialmente a quem cumpre a sua pena e paga pelos seus crimes. Em todo o caso estes 24 fizeram toda a diferença e tornaram o momento inesquecível.

O momento durou horas e ninguém queria que terminasse. Apetecia eternizar o espectáculo e apetecia que Mozart tivesse composto um Don Giovanni com o triplo do tempo. Estes rapazes, bem como alguns guardas prisionais e o director da prisão deram vida aos personagens criados por Mozart. José Ricardo Nunes, director da Prisão-Escola de Leiria, aceitou ter aulas de canto para fazer um papel importante nesta Ópera. Por ironia, o seu personagem é morto em cena por um guarda seu. O chefe dos guardas prisionais, o guarda Mendes, mata-o.

Não sei se a acção foi catártica para reclusos, guardas e director, mas tenho a certeza de que ao inverter os papéis de cada um, todos foram obrigados a calçar os sapatos dos outros. E não apenas eles, mas também nós. E, certamente, os músicos da Orquestra, bem como os cantores líricos, os encenadores, os directores de guarda-roupa, os técnicos de som e imagem, os maquinistas e todos os que se envolveram nesta grande produção.

Na Prisão-Escola de Leiria quem cumpre a função de pais dos rapazes reclusos são os guardas prisionais e os técnicos que os visitam e trabalham com eles. Parece-me radicalmente importante que todos se tenham visto noutros papéis, porque só assim também se podem olhar com outros olhos. Falo também dos rapazes, claro, que passam a poder ver nos seus carcereiros (palavra dura, esta), mais do que aquilo que conseguem ver através das grades das celas, nos dias de rotinas apertadas e privação de liberdade.

Um dos guardas prisionais tocou bateria quando, no fim da Ópera, os reclusos cantaram um rap composto por um deles (que não pode estar presente). O próprio director foi um dos solistas e é impossível que entre os ensaios, as viagens, as conversas e tudo o que envolveu uma grande produção como aquela a que assistimos, não se tenham feito outras ligações e iniciado outros caminhos.

Quem conhece o sistema prisional sabe que do lado de lá das grades, por assim dizer, as pessoas são números. Não têm nomes. São chamadas pelo seu número e assim tratadas durante o tempo de reclusão. Conheço muitas das nossas prisões (esta de Leiria incluída) por ir frequentemente a estabelecimentos prisionais a pedido de reclusos, mas também de directores. Conheço os procedimentos e sei como esse apagar do nome próprio, bem como do nome de família, pode apagar também a confiança em si mesmo e nos que estão à volta. Reduzidos à expressão mínima dos números, todos ficaríamos reduzidos à expressão mínima da nossa condição humana. Ninguém consegue escapar a regras tão redutoras.

Durante os ensaios na prisão ao longo dos dois anos que passaram, mas sobretudo, nestes dois dias de ensaios gerais, os rapazes foram chamados pelo nome. Parece pouco, mas é muito. Trabalho semanalmente com um ex-recluso que passou dez anos nas piores cadeias do país e se converteu à vida a partir do momento em que uma assistente social o tratou pelo nome próprio: João Tavares Semedo. Em 10 anos foi a primeira vez que ouviu alguém dizer o seu nome, olhos nos olhos. Sei, porque o conheço bem e porque trabalho com ele e com as centenas de rapazes e raparigas dos bairros da Cova da Moura, Boavista e Zambujal, que ele resgata da exclusão e marginalidade. Sei que esse momento marcou uma longa viragem. E uma fabulosa viagem interior, pois foi o início da sua conversão à vida.

Voltando aos rapazes, aos guardas e ao director da prisão, é impossível que a partir de agora não estabeleçam outros laços. Podem continuar divididos por grades, uns do lado de cá e outros do lado de lá, mas fizeram juntos outros caminhos e aprenderam muito uns sobre os outros.

Tudo isto graças ao PARTIS I Ópera na Prisão, promovido pelo Programa de Desenvolvimento Humano da FCG que materializou o projecto sonhado por um grande sonhador que muitos conhecem muito bem. Paulo Lameiro, o cantor lírico que trocou as luzes da ribalta para ir fundar uma escola de artes na Freguesia de Pousos, em Leiria, é o homem por detrás de toda esta máquina afinadíssima. Há anos que trabalha com reclusos em prisões, mas também com doentes mentais profundos em hospitais. Paulo Lameiro junta à sua volta uma legião de talentos de todas as gerações e inaugurou conceitos como a música para bebés, com concertos fabulosos em grandes salas de espectáculo por todo o país, mas também criou orquestras completamente originais na sua SAMP- Sociedade Artística Musical dos Pousos, como a que faz cruzar no mesmo espaço e à mesma hora pais e filhos, avós e netos.

Não sei se este homem vai conseguir realizar mais um dos seus grandes sonhos, que seria o de dar continuidade a este projecto Ópera na Prisão, criando no Estabelecimento Prisional Regional de Leiria um Pavilhão Mozart, onde os rapazes pudessem ter residências artísticas com outros músicos, orquestras e companhias de teatro musical, para fazerem espectáculos abertos à comunidade. Num espaço de uma prisão, onde tudo se arruma, divide e acontece em pavilhões, era importante existir um pavilhão das artes. Talvez o facto de esta Ópera ter esgotado o grande auditório da Gulbenkian dê asas a este sonho e leve mais pessoas a sonhar, pois estes rapazes hão-de voltar às suas comunidades e parece vital poderem desenvolver alguns dos seus talentos enquanto dura o tempo de reclusão. Isto, porque neste momento já há Bandas Filarmónicas e grupos musicais abertos a acolher alguns destes rapazes.

Não sei o que vai acontecer a partir daqui, mas sei que a imagem, a cena final destes rapazes de vinte anos, condenados a muitos anos de privação de liberdade, a dançarem abraçados às suas mães, irmãs, namoradas e amigas é um filme que fica gravado na memória para sempre.