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Em A Queda de Um Anjo, de Camilo Castelo Branco, Calisto Elói sai da província onde larga a mulher e, de traje antigo e discurso barroco, em liteira acompanhada por burros atulhados com vinho velho, presunto e orelheira, alça-se até à imaginada Sodoma lisboeta para, atente-se, “restaurar os costumes desbaratados” e salvar a Pátria da degeneração progressista. A seu tempo, a Corte acaba por seduzi-lo, findando a história de forma natural — e um aristocrático Calisto Elói bem amancebado, vestido e alimentado no responso do veludo e da seda.

Ora, também o Dr. Rio, depois de anos a bradar do Norte contra o centralismo lisboeta, em anunciando a sua travessia rumo à capital, pronunciou solene e gravemente ao que vinha: orquestrar “um banho de ética”, decretou do alto da sua sabedoria pseudo-prussiana.

No entanto, logo por azar, sobraram de imediato os mui publicados casos dos seus louváveis secretários-gerais: um, o primeiro, de curso fajuto e currículo forjado, o outro, e que ainda lá está, de presença fantasma na Assembleia, assinada por outrem, mas com per diem bem depositado, imagina-se que este já em conta própria. No melhor pano cai a nódoa, conclui-se, pior ainda, logo duas, e tudo sem que o Sr. Presidente se chocasse ou ensejasse sequer ética e célere reparação. Pelo contrário, foi a resfolegar e recalcitrar que o ético líder político resolveu abdicar do primeiro e nem sequer isso, no caso do segundo. Naturalmente, não poderiam cair duas nódoas sem que viesse uma terceira: o Doutor Malheiro, seu vice-presidente e testa-de-ferro caciqueiro, vê-se agora acossado por pouco abonatórias histórias e historietas provenientes do seu concelho de Ovar. Do Dr. Rio? Nem um gemido.

Depois, também no que concerne à táctica, o ímpeto salvífico finou-se num ápice. Sempre impoluto e inquebrantável, avisou a todos os momentos o Dr. Rio que a ditosa pátria estaria em todo o tempo em primeiríssimo lugar: nada de negociatas políticas, garantia o Dr. Rio em jeito de mestre-escola. Mas, e já lá vão mais de três anos, não faz outra coisa o Sr. Presidente do PSD além de negociar, trocar e mercadejar com o Sr. Primeiro-Ministro, o Dr. Costa, personagem lambida e pouco recomendável que o Dr. Rio evita sequer mencionar, quanto mais criticar. Um bom exemplo? O da “reforma da Justiça” onde ainda os deputados do PSD não tinham posto vista no documento e já o Dr. Rio e o Dr. Costa dançavam o tango da suposta reforma estrutural e do novel pacto de regime.

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Pacto de regime, ou mesmo união nacional, foi também o que o Dr. Rio veio exigir a propósito da pandemia. Em havendo crise não há crítica ao Governo, logo avisou o alegado chefe da oposição, em particular para os militantes do seu partido que, imagine-se o topete, tratavam de maldizer as opções governamentais. À proverbial moleza para com o poder que sonha um dia substituir, assim ao modo carunchoso do cair de podre ou velho, corresponde o Sr. Presidente da Direcção Nacional do PSD uma assinalável agilidade e vontade persecutória para com outros, menos poderosos e mais pequenos, os contestatários internos, segundo ele, gente pobre e mal agradecida, maléficos sacripantas, corja sem valor que, cite-se alguns dos seus notáveis apoiantes, “merece ser corrida” ou, porventura, em versão higiénica agora em voga, “limpa dos cadernos”. Nos entretantos, propostas para lidar com a hecatombe económica, tomadas de posição contra os desvarios autoritários governamentais, reparos à mortandade causada pela falência completa do depauperado SNS ou, sequer, lampejos de uma alternativa para o país, com ou sem Covid, isso é que não, nem vislumbre sequer.

As derrotas eleitorais, essas, ao melhor estilo estalinista em versão lusitana, transforma-as o Dr. Rio em portentosas vitórias. São já duas longuíssimas noites eleitorais onde, do alto do púlpito — não um palanque porque a comunicação mais parece homilia e não discurso político —, discorre longa, penosa e aborrecidamente, de folha de cálculo na mão, sobre os méritos das vírgulas e centésimas que, segundo ele e mais ninguém, comprovam para lá de qualquer suspeita ou incerteza que a derrota foi uma vitória, que o perdedor afinal é vencedor e que a glória lhe seria devida, isto se não fossem alguns dos que aguentam a palestra uns incréus de espécie vil e torpe que não aceitam a verdade quando esta lhes é catedraticamente cuspida nos olhos. Pelo caminho, em Janeiro, o grande líder cantou vitoria ainda pela eleição do candidato presidencial apoiado pelo Dr. Costa. Mais uma feliz coincidência, naturalmente.

O maior imbróglio para o Dr. Rio foi, no entanto, o malfadado Parlamento onde, de sacrifício, tinha à quinzena que descer a Lisboa e intentar pelejar com o Primeiro-Ministro, um manhoso que compensa a falta de articulação silábica com o perdigoto e o insulto. Espectáculo desagradável, é certo, em particular para o Dr. Rio que tudo organiza de modo à negociação de bastidor, ao unânime concordar com a Situação, coisa que lhe é mais conveniente até porque, ao contrário de Calisto Elói, não conhece os clássicos e não tem o dom da retórica. Não façamos pouco caso, pois, da dificuldade parlamentar em orar a crítica de circunstância que passe na TV enquanto intenta em simultâneo, mesmo que a contraparte goze e ria da sua cara, manter o agrado e o estreitar de laços conciliadores com a Governação.

Assim, tratou o Dr. Rio de resolver o problema, quer o retórico quer o outro, mais grave, que era o da deslocação quinzenal a Lisboa, crê-se que não de burro ou liteira, mas desagradável não obstante. E qual foi a solução? Ora, que se acabassem os debates quinzenais. Um portento de engenharia política, o Dr. Rio, desta ninguém se haveria de ter lembrado, o líder da Oposição que dispensa a oportunidade de debater, desmascarar, denunciar, o Primeiro-Ministro ao qual supostamente se opõe.

Sem estranheza, enquanto dura o ensejo do Dr. Rio em enxugar e expurgar o seu partido de tudo o que imagine como ponto de possível discórdia, vai a casa a que preside definhando, imitando no seu triste destino o discurso do presidente: seco, oco, vazio. O desastre espelha-se nas sondagens, é certo, nas derrotas eleitorais também, mas, em pior, nas mentes de possíveis, ou antigos, eleitores que agora, fruto da gozação e da risota que a “oposição” do Dr. Rio merece, perante o ridículo e o embaraço, se voltam para novas paragens que, como sempre em política, vêm ocupar o vazio que o outro, a ferro e fogo, teimosamente, como os burros de Calisto Elói, insistiu em vir largar na Direita portuguesa.

Chegam agora as as autárquicas e o Dr. Rio logo tratou de fazer aquilo que o Dr. Rio faz: disparar no próprio pé e cobrir-se por ensejo próprio de alcatrão e penas. Primeiro, mesmo que a eleição esteja apontada a Outubro, mês morno e como 2020 mostrou pouco atreito a problemas virais, sugeriu com assinalável originalidade que se atrasasse o acto eleitoral para Dezembro, mês invernal e dado não apenas à Covid, mas também à gripe, à constipação e à pneumonia. Depois, veio para a praça pública apoucar autarcas, não os do PS, claro, mas potenciais aliados, como no Porto, ou mesmo do seu partido, como o Presidente da Câmara de Cascais, por sinal, a maior que tem no país e um dos míseros três municípios que o PSD governa na área metropolitana de Lisboa.

Lançou, no entanto, entre cem candidatos onde nem todos sabiam que o eram, o Dr. Moedas para Lisboa, nome consensual que lhe garante melhor resultado que em 2017; em contraponto, logo tratou de desligar o telefone à Iniciativa Liberal — assim explicou o presidente deste partido — e daí surgiu inconveniente candidatura concorrente, mesmo que apenas à segunda e de ridícula insistência, mas desnecessária não obstante, fosse o objectivo conquistar a capital a Fernando Medina.

Como não sendo suficiente, revelou também que quem o Dr. Rio queria para o Porto não quis o problema — o Dr. Rangel tem mais que fazer e disso fez o Dr. Rio saber na praça pública — pelo que o Dr. Feliz que lá vai cumprir o sacrifício será sempre conhecido como segunda, terceira ou quarta escolha. Em Coimbra, tratou o Dr. Rio de correr com a candidatura de Nuno Freitas que os órgãos concelhios e distritais não só haviam aprovado mas, pasme-se, nela trabalhavam já desde 2017. O médico, naturalmente, afastou-se da política, destino reservado no PSD a todos aqueles que não agradem ao chefe.

Lembrando ainda o piscar de olhos a Isaltino de Morais em Oeiras — o dote não parece ter seduzido o autarca —, o mote estará dado: caia de sorrelfa no meio do caos um município ou dois para o rol do PSD, haja mais quatro ou cinco deputados municipais ou vereadores, como provavelmente ocorrerá em Lisboa, e logo o Dr. Rio cantará de galaró mais uma prédica vitoriosa, seja ela em Outubro ou quando for. Em não havendo milagre, a culpa será naturalmente dos candidatos, bem como dos “críticos”, tudo maltosa de costado largo em cima do qual o Dr. Rio se empoleira que nem gente grande.

Calisto Elói corrompeu-se, caiu, é certo, mas no final, foi à sua vida. Já o Dr. Rio que parece nunca ter ido a lado algum, esse não apenas não se acomoda à Corte lisboeta — afinal, não passará o Sr. Presidente tempo suficiente afastado do remanso do seu lar portuense para grandes aborrecimentos — como não a larga em paz ansiando pelo dia em que esta se reúna em seu redor. Nos entretantos, para Corte, bastar-lhe-á a de Massarelos e está o insigne político muito bem assim. Teremos, pois, ainda que gramar com a figura, sempre no balbucio justificativo do vazio que a mais não promete, bem como no ajuste das contas, que, de forma permanente, não cessa de exigir a quem não lhe beije os pés e afague os calos. Até quando durará o calvário, isso é o que não sabemos, e por aqui vamos ficando, encalhados no Calisto que em má sorte e hora nos calhou: o PSD, encalistado; a Direita, enguiçada em torno do buraco negro político que recusa determinantemente liderá-la. O Dr. Costa, sorridente, agradece.

Sobrará o alívio de saber-se que se há uma coisa certa na vida é a de que tudo passa — e, ao contrário do que o próprio imagina, também o Dr. Rio passará. Até esse abençoado dia em que a liteira e os burros levem os pertences do pretenso ensaboado de ética de regresso permanente e definitivo à proveniência, sobra-nos o opróbio, a tristeza, mas também a resistência.

Haja paciência para a penitência.