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1 Nas últimas semanas, os jornais Portugueses têm sido palco de um debate interessante sobre o Chega. Todos os estios somos brindados com um debate entre intelectuais, ou o que passa por isso no rectângulo. Quem não se lembra do Verão de 2012, e não, não estou a falar do livro de Paulo Varela Gomes, mas, sim, do embate entre Rui Ramos e Manuel Loff. O debate do Verão de 2020 gira em torno do Chega, da sua natureza, e do livro que Riccardo Marchi escreveu sobre André Ventura e o nascimento do partido. Tem sido, no mínimo, divertido. Conheço o Riccardo há treze anos, e não tenho quaisquer dúvidas que é a pessoa que mais sabe de direita radical em Portugal. Como todos os trabalhos, o seu tem falhas, nomeadamente metodológicas. Creio, contudo, que estamos muito longe do exercício de hagiografia de que Marchi é acusado. Na polémica estival de 2020, Marchi teve inclusive direito a manifesto (!), assinado por 67 académicos, numa tentativa óbvia de intimidação. Digo intimidação na medida em que, não tendo tenure, Marchi não se encontra na plena posse da segurança académica indispensável para realizar a sua investigação com toda a liberdade e sem medo de potenciais retaliações. Gostava, também, de dar um contributo para este debate. Quero, porém, colocar a coisa de outra perspectiva. Em vez de debater o partido político em questão, pretendo perceber o contexto político e económico no qual a direita radical está a emergir e a (eventualmente) institucionalizar-se em Portugal.

2 Portugal está em declínio económico relativo há 20 anos. O crescimento económico medíocre desde 2000 tem como resultado uma queda na posição relativa na União Europeia. Em 2005, éramos o de 17º país mais rico da União, descendo para 20º lugar em 2020 (medido em GDP per capita/PPP). Aliás, uma análise fina dos dados mostra-nos que, a manter-se a trajectória actual, no próximo ano, seremos o 22º mais rico da Europa, sendo ultrapassados pela Polónia e pela Eslováquia. Estamos, pois, a caminho de tornar-nos o Alabama da Europa, com a diferença, claro, que, ao contrário dos Estados Unidos, não temos transferências automáticas ao nível federal que possam compensar o declínio galopante na riqueza gerada em Portugal. As instituições Portuguesas são, simplesmente, incapazes de reformar-se e sair de uma lógica de pura extracção.

3 Para além dos indicadores de declínio económico, há no ar um clima de fim de festa do regime, apenas adiado em tempos que alguns, crédulos, acreditavam que as vacas voavam. Depois da bancarrota de 2011, na última década, a justiça tem vindo a desmontar uma rede de corrupção ao mais alto nível. José Sócrates está envolvido num processo com acusações gravíssimas. Não há memória de um chefe de governo na Europa Ocidental ser acusado de crimes de tamanha gravidade. Porém, e surpreendentemente, a marca do Partido Socialista não sofreu qualquer desgaste, ao contrário daquilo que a literatura académica sugere. Isso mesmo foi-me perguntado, o ano passado, por uma colega Americana, quando, jantando em Lisboa, me perguntou, espantada, como é que o partido havia sobrevivido intacto a tamanho escândalo, especialmente considerando que a elite política do partido se mantém a mesma. Fiquei mudo, e sem qualquer resposta. Na última década, testemunhámos, ainda, a queda do império Espírito Santo, da PT, e de inúmeros outros ‘campeões nacionais’. Estamos reduzidos a um país pouco qualificado, a empobrecer, e sem recursos naturais, à excepção do sol e das praias.

4 Chegados aqui, face a este cenário, o puzzle, em minha opinião, não é o sucesso do Chega. Um total de 65 mil votos nas eleições de 2019 (pouco mais de 1 por cento dos votos válidos) não pode ser considerado um grande resultado eleitoral em lado nenhum. A atenção mediática de que tem gozado é verdadeiramente espantosa e desproporcional, à luz do número da votação do partido. O verdadeiro puzzle consiste, isso sim, em perceber como é que o Chega, ou um partido de análoga natureza, tem um resultado tão fraco. A literatura existente sobre a emergência de novos partidos em sistemas partidários consolidados diz-nos que a existência de escândalos, a quebra acentuada de riqueza, ou a incapacidade progressiva de mobilizar eleitores favorecem o aparecimento (em força) de novos partidos. Portugal tem todas as condições para o aparecimento de partidos populistas, que aproveitem para explorar a corrupção associada a figuras gradas do sistema político e a insatisfação popular. Isto, sim, dever-nos-ia preocupar. Todavia, isso não acontece. Ao invés de termos discussões estéreis sobre académicos que estudam a direita radical em Portugal, usemos essa atenção para escrutinar os partidos que nos trouxeram a este estado de coisas. Na próxima crónica dedicar-me-ei a dar algumas pistas que, penso, podem ajudar perceber a inércia e a capacidade do cartel partidário e mediático continuar a controlar a entrada de novos partidos e a devida fiscalização que os cidadãos devem fazer.

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Leitura Semanal

Em todas as crónicas, farei uma sugestão de leitura. Começo com um dos livros que mais prazer me deu este ano. Hadley Freeman, jornalista Americana, escreveu House of Glass: The Story and Secrets of a Twentieth-century Jewish Family. O livro é soberbo. Partindo da análise do conteúdo de uma caixa da sua avó, que emigrou para os Estados Unidos em 1939, num casamento arranjado, que lhe permitiu fugir da Guerra, a autora traça a história da sua família a partir de cartas e fotografias. Para além disso, vai com o seu pai, Ronald, visitar familiares ainda vivos, espalhados pela Europa.

Os Glahs, família de origem Polaca, fugiram para Paris no final dos anos 20 para escapar aos pogroms. O livro relata a progressiva integração dos quatro irmãos e da mãe, passando pela mudança de nome e pela língua falada em casa. A mãe dos quatro irmãos permaneceu uma falante exclusiva de iídiche até ao fim dos seus dias. O interesse maior desta obra, porém, consiste em perceber as diferentes visões de Judeus provenientes da Galicia sobre o seu país de acolhimento face ao crescimento do anti-semitismo na Europa. Em minha opinião, o relato mais interessante é sobre Jacques, um dos irmãos que encarna a dita ‘passividade judaica’ ante a ameaça crescente, um tema que daria origem a uma enorme literatura no pós-Guerra. Jacques não acredita que, depois do sofrimento na Polónia, terá de enfrentar igual destino em França, acabando por perecer num campo de concentração. Henri e Alex, por seu turno, sobrevivem à guerra, acabando imensamente ricos devido às suas ligações empresariais e artísticas, respectivamente. Sara, a avó da autora, refugiada nos Estados Unidos, nunca se integrou verdadeiramente na sociedade norte-americana. Apesar de grata ao marido por a ter salvado de uma morte quase certa, continua a considerar-se Francesa até ao fim. Quando o marido morre, pensa ter reconquistado a liberdade para voltar a França. Todavia, o mundo de ontem, terminado em 1939, havia-se desmoronado e era tarde de mais.

P.S.: Com esta crónica, começo uma colaboração quinzenal com o Observador. Agradeço ao José Manuel Fernandes o amável convite.