O Brasil entrou em “Estado de calamidade” bicéfala, entre a pandemia do Covid-19 e a pandemia política de Jair-17. A presidência de Jair Bolsonaro constituía, desde o começo, um cenário de “bomba-relógio”, um difícil jogo de equilíbrio entre interesses diversos e nem sempre confluentes, entre o conservadorismo moral e teocrático evangélico, o ultraliberalismo económico e a nostalgia da ditadura militar.

No meio deste equilíbrio aparecia o juiz Sérgio Moro, cuja entrada no governo, como Ministro da Justiça, carregava a “aura” messiânica do salvador impoluto, o juiz que desencadeou o processo “Lava-Jato” e que levou Lula da Silva à prisão. Os contornos do processo, a facilidade com que foi lavrada sentença e, sobretudo, o timing da operação, deixaram sempre a dúvida sobre um acordo tácito entre Bolsonaro e Moro.

Pelas suas caraterísticas, esta aliança deixou, desde o início, a sensação de ser a prazo. Dificilmente Sérgio Moro se contentaria com o papel de Ministro num governo liderado por alguém tão instável e impreparado como Bolsonaro. As brigas com ex-aliados, a saída do partido que o elegeu e a tentativa de criar um novo partido com assinaturas de pessoas falecidas, os ataques ao STF, ao Congresso, aos jornalistas, e particularmente o afastamento do Ministro da Saúde com base no negacionismo científico e o desnorte na gestão da pandemia do Covid-19, deram os sinais a Sérgio Moro de que seria hora de “salvar a pele” a fim de aparecer como candidato nas próximas eleições presidenciais. Moro que já havia perdido o controlo do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), que investiga denúncias de atividades económicas ilícitas e lavagem de dinheiro, considerou a “gota-de-água” a decisão de Bolsonaro de trocar o diretor-geral da Polícia Federal, o qual havia sido indicado ao posto por Moro. Com esta medida, Bolsonaro pretendeu travar as investigações sobre ligações dos seus filhos a esquemas de “fake news” e de financiamento de manifestações pedindo o encerramento do Congresso e do Supremo, bem como colocar no lugar alguém que com ele partilhasse informações confidenciais.

Com esta saída, Sérgio Moro tem sido transformado em herói em vários setores da sociedade brasileira. Tal aumento de capital simbólico é determinante nas suas mais que prováveis aspirações presidenciais, bem como no desencadear do processo de impeachment, tendo em conta que ele foi uma figura importante na consolidação da imagem pública do governo de Bolsonaro, a reboque da onda “antipetista” que varreu o país.