É verdade que os nossos amigos são preciosos. Não são bem a nossa família; claro que não. E nem sempre os escolhemos a todos. Em muitas circunstâncias, aceitamos que nos escolham. Por outras palavras, gostamos que gostem de nós. Por mais que não subscrevamos muitos dos seus atos. Ou, até, que não nos reconheçamos nalguns deles que, se merecessem a nossa escolha, talvez os impedissem de ser nossos amigos. Seja como for, os nossos amigos estão connosco. O que, em muitas situações, nos faz sentir que não estamos sozinhos. Noutras — muito melhor, ainda — que nos acompanham. Às vezes, ajudam-nos. E — aí, sim — sentimos que fazem aquilo que muitas pessoas da nossa família não são capazes de fazer. E, nesses momentos, contribuem para sentirmos que a família não é bem o conjunto das pessoas com quem temos laços de consanguinidade. Mas aquelas com quem temos laços. Simplesmente.

Mas, depois, há alturas em que ficamos doentes. E isso, mais cedo ou mais tarde, acontece-nos a todos. É claro que tenho medo de falar assim porque há quem, desde logo, veja nisso uma visão assustadora, agreste e tenebrosa, até, da vida. Como se o sofrimento humano fosse um bocadinho como as bruxas. Falar nele, aos olhos de algumas pessoas, parece evocá-lo. Quase acenar-lhe. Ou, mesmo, chamá-lo para o pé de si. Logo, não há como não bater duas vezes num sítio qualquer e repetir uma mezinha como, por exemplo: “O diabo seja surdo, cego e mudo”. Que é uma forma de dizermos que ao mal nunca nos devemos dirigir para que ele, de mau, não se vire a nós.

Mas voltemos às situações em que ficamos doentes. Os nossos amigos dividem-se entre aqueles que se arreganham e se agarram a nós. E têm gestos duma generosidade quase inacreditável. Que, por força deles, os tornam da nossa família. Aqueles que nos dizem, quase sempre: “Força!”, que é uma forma de nos recomendarem a determinação que eles não nos conseguem dar. E aqueles que, às vezes como argumento de que são impressionáveis, desaparecem. Simplesmente. Mesmo que não ponham em causa ser nossos amigos.

É claro que estarmos juntos na saúde e na doença é uma forma minimalista de dizer que, quando nos casamos com alguém, mesmo que seja com um amigo, a doença é um barómetro precioso para percebermos se, quem gosta de nós, não desiste de estar connosco. Porque nem todas as pessoas que nos amam permitem as nossas lágrimas. E, muitas menos, acolhem a nossa tristeza mais profunda. Logo, não é por acaso que, tal
como acontece com os casais, o nosso sofrimento sirva para nos divorciarmos de vários amigos. Porque muitos nos falham. Por dentro, sobretudo. Formalmente, eles “estão lá”.

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