Faz hoje cem anos que nasceu António Champalimaud. É uma das efemérides centenárias deste ano de 2018 que, para mim, tem várias: no dia 27 deste mês faria cem anos Luís de Avillez e, a 17 de Setembro, Alberto Franco Nogueira; depois, no dia 14 de Dezembro, são os cem anos da morte de Sidónio Pais, o “Presidente Rei” assassinado aos 46 anos – um centenário que interessará ou deveria interessar a todos os portugueses.

É um ano cheio de memórias, de homens que foram importantes na minha vida, humana e profissionalmente, na formação política e na comunidade familiar. Em relação a todos tenho um sentimento de amizade e gratidão pelo que partilhei e aprendi com eles. E também respeito e admiração.

Conheci António Champalimaud no nosso comum exílio brasileiro. Eu vinha de Angola e do exílio na África do Sul, ele de Portugal onde o seu grupo de empresas tinha sido nacionalizado – a Siderurgia Nacional, os Cimentos Leiria e Tejo, o Banco Pinto e Sottomayor, a Companhia de Seguros Mundial. Não parecia abalado com todos estes revezes da fortuna. Até porque conhecera outros: em 1969 fora obrigado a sair do país “a salto” (a “salto” de avião mas, de qualquer modo, a salto) no curso do julgamento do caso da herança Sommer para só voltar no Outono de 1973 via Moçambique, a terra de que mais gostava. E sairia outra vez nas vésperas do 11 de Março, depois de ter conhecido pessoalmente Otelo Saraiva de Carvalho – teria partido antes se o tivesse conhecido antes, diria ele depois à pessoa que organizara o almoço e os pusera em contacto.

No Brasil, ocupava o vigésimo andar da SOEICOM, na Avenida Rio Branco, no coração do Rio de Janeiro, com antigos colaboradores de sempre, como o João (“Jana”) Raposo Magalhães e o José Luís Fevereiro, e amigos, como António Bustorff Silva. Também lá estive durante quase um ano a trabalhar com António Champalimaud (AC, para os colaboradores seniores) num gabinete que partilhava com Burstoff e Fevereiro. Pude, por esse tempo e ao longo dos quase trinta anos que ele ainda viveu, conhecê-lo bem. Foi o grande industrial português da segunda metade do século XX. Escrevi-o no Expresso quando ele morreu, no dia 11 de Maio de 2004, e volto a lembrá-lo agora, porque o país é desmemoriado e ingrato para com os seus grandes, para com os “fazedores”, sobretudo quando são incómodos, que o são quase sempre.

A indústria era o que lhe interessava; a indústria, a fábrica, fazer coisas, engenheiros, operários, trabalho, economia real. Quando, muitos anos depois, comprou o banco, disse-me: “Jaime, se eu tivesse menos 10 anos, voltava para a indústria! A indústria é que tem graça, fazer coisas. Isto – os bancos – é ganhar dinheiro com dinheiro, não tem graça nenhuma!”

Como os seus antecessores na indústria – o conde de Burnay e Alfredo da Silva – era mais ou menos detestado por parte da sua classe social. Mesmo para além das guerras familiares e rivalidades económicas e financeiras, o seu modo frontal, directo, decidido, às vezes brutal, a sua “mania do trabalho”, contrastava com um meio de gente prudente até à paralisia de voz e gesto, socialmente correcta, sempre em cima do muro, a ver para que lado dava jeito cair.

Era o tempo da segunda industrialização e do início de um ciclo de oiro do desenvolvimento económico-social, que acabaria entre a crise energética de 73 e o 25 de Abril. Um tempo de grandes patrões da indústria e da banca – Jorge e José Manuel de Mello, Manuel Boullosa, Manuel Queirós Pereira, Manuel Espírito Santo, Artur Cupertino de Miranda e outros. Apesar da guerra de África – ou devido a ela – o país mudava em mentalidade, e a sociedade portuguesa ia absorvendo o que acontecia lá fora. (A ideia de que foi o 25 de Abril que mudou socialmente os hábitos e os costumes é uma visão ideológica de propaganda que toma o efeito por causa e não quer perceber que foi o contrário: precisamente porque a sociedade já estava em mudança é que veio a mudança política… que, curiosamente, interrompeu o tempo de crescimento e desenvolvimento).

O golpe de Estado-revolução não poupou os grupos económicos, ainda que os seus líderes tivessem prestado lip service à nova situação. Foi um processo a contramão da História: quando o socialismo soviético e leste-europeu entrava em crise disfuncional e a China estava nas vésperas das reformas de Deng Xiao Ping, instaurava-se aqui um socialismo mais ou menos burocrático, oportunista e folclórico, cujas consequências se prolongariam e ficariam connosco muito para além do tempo e dos eventos que lhe deram origem.

António Champalimaud, a voltar do exílio mexicano, aterrou aqui poucos meses antes deste PREC. Quem conheceu o homem e a obra, nos altos e baixos de uma vida de fazedor de coisas em três continentes, coisas que os outros se iam encarregando de desfazer e destruir, perceberá melhor a sua dimensão humana. António Champalimaud era um caso raro de alguém que, nascido na boa sociedade, se fez a si mesmo, usando os obstáculos, as dificuldades, as contradições como matéria-prima dos seus projectos e vitórias.

Como o Ulisses na narrativa homérica, era plurimetis, homem de muitas artes e ofícios: industrial pioneiro, autodidacta, agricultor, velejador, caçador, piloto de automóveis e de aviões. Solitário e senhor de contradições, mas também homem de família e de sociedade, coleccionador e esteta mas capaz de radical austeridade, António Champalimaud era racional, frio, empreendedor, sem estados de alma, mas capaz de paixões e devoções. E sendo cosmopolita e pragmático nunca deixou de ser patriota e sensível às grandezas e misérias do império e à sua perda.

Tinha uma silhueta de D. Quixote: magro, seco, com o riso carnassier. Em guerra com meio mundo e às vezes com o mundo inteiro – com a família própria e por afinidade, com governos e concorrentes –, quase parecia, pela tenacidade e voluntarismo com que mantinha posições, que amava o conflito pelo conflito, que gostava mais do combate do que da vitória. Até porque quando ganhava virava-se para outras metas, partia para novas fronteiras.

Só assim foi possível a sua ascensão relâmpago na industrialização do país: dos cimentos para o aço, do aço para a banca e seguros, da Metrópole para o Ultramar e para o Brasil; e, por fim, regressado ao rectângulo original, levar os últimos anos a refazer fortuna. Depois, confrontado com perdas de filhos e com uma cegueira progressiva, foi-se tornando mais tranquilo, menos agressivo – mais humano, diriam alguns.

E dessa humanidade e reconciliação final surgiu a ideia de uma grande fundação que levaria o nome da família, dos seus pais. Já antes contribuíra generosamente para a Fundação de Aljubarrota, talvez para aquietar a consciência ou compensar as críticas de ter vendido o banco Totta a Emilio Botin, do Santander. Mas, com a Fundação Champalimaud, criou uma instituição pioneira, exemplar na luta contra um dos maiores inimigos da humanidade. É um sinal de grandeza póstuma, de um grande fazedor que também teve a sua quota de sofrimento. E é obra. Obra real, física, concreta, como ele gostava.