Em maio de 1920, o inesquecível Lenine publicou um livro que usava uma linguagem colorida para compor o título: “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”. A dada altura, atacava o isolacionismo dos comunistas ingleses e apelava à criação de um partido que pudesse coligar-se com os trabalhistas. Numa frase morbidamente célebre, escreveu que os comunistas deviam apoiar o líder do Partido Trabalhista “da mesma forma que uma corda apoia um enforcado”. Como é natural, a história do livro e da política europeia no início do século XX é mais complicada do que isso, mas a noção de que o idealismo dogmático representa um problema continua a ser muito útil, especialmente na política portuguesa.

Nas últimas semanas, surgiu ali para os lados da Iniciativa Liberal um argumento leninemente infantil para recusar uma coligação pré-eleitoral com o PSD. Rodrigo Saraiva, líder parlamentar do partido, resumiu-o bem na entrevista que deu esta semana ao Observador: “Há muitas pessoas que não votariam na IL se fosse coligada com o PSD”.

Existe aqui um equívoco que consegue ao mesmo tempo ser pueril e sectário. É pueril porque o voto não serve para os eleitores se aliviarem de bons sentimentos — serve para construírem alternativas de governo. E é sectário porque o voto não é um fim — é um começo. Se um determinado partido só merece o meu voto caso comprove a sua pureza imaculada, então a consequência pós-eleitoral é a paralisia: qualquer conversa será uma traição e qualquer negociação será uma rendição.

Mais: a acreditar nisto, então os dirigentes da IL estão a fazer um cálculo cínico. Primeiro, pedem o boletim de voto aos irredutíveis, prometendo-lhes castidade ideológica; depois, usam esse mesmo boletim de voto para ceder, acomodar e contemporizar.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A tudo isto, acresce outra dificuldade, que a Iniciativa Liberal podia ter o talento de explicar aos seus eleitores mais intransigentes. Segundo uma definição clássica, o verdadeiro sentido útil do voto não é a oportunidade de colocar alguém no poder — é a possibilidade de retirar alguém do poder. Mas, hoje em dia, em Portugal, as duas ações estão inevitavelmente ligadas. Depois de 2015, só é possível retirar alguém do poder se, ao mesmo tempo, se conseguir colocar alguém no poder. Ou seja: não basta um partido ficar em primeiro lugar numa eleição; é preciso que consiga uma maioria no Parlamento que impeça o outro hemisfério de o ultrapassar, como a geringonça fez com o PSD e o CDS.

Por isso, não há volta a dar: a IL só consegue tirar o PS e a esquerda do governo se, num mesmo movimento, colocar o PSD e a direita no governo. E isso é muito mais fácil de fazer com uma coligação pré-eleitoral que aproveite todos os votos na altura de os transformar em mandatos de deputados. Na entrevista ao Observador, Rodrigo Saraiva exige uma reforma do sistema eleitoral com o argumento de que “700 mil votos desperdiçados é inaceitável”; mas, na prática, com a recusa de uma coligação, contribui para que muitos desses 700 mil votos sejam, de facto, “desperdiçados”.

Obviamente, essa coligação pré-eleitoral exigiria um comportamento adulto dos dirigentes da IL — e dos eleitores da IL também. Eles teriam que decidir se preferem ir para a Avenida da Liberdade com a bandeira da flat tax na mão, ondulando ao vento, enquanto Pedro Nuno Santos toma posse como primeiro-ministro; ou se preferem ter uma conversa sensata que leve a um programa realista que junte dois ou mais partidos que têm ideias próprias mas um propósito comum.

A extrema-esquerda gosta de dizer que “ecologia sem luta de classes é jardinagem”. À direita, talvez valha a pena lembrar que liberalismo sem poder é diletantismo.