Escrevo estas palavras na terceira semana da quarentena imposta ao País pela Covid-19, numa altura em que a renovação do estado de emergência já vigora.

Nas redes sociais, única forma de contacto aconselhada/aconselhável, multiplicam-se as pessoas desesperadas por saírem de casa – sobretudo, as que têm filhos pequenos, cuja conciliação com o teletrabalho é uma verdadeira tarefa hercúlea.

Isto reforçou uma hipótese em que vinha pensando há dias: Poderá, esta pandemia, significar uma oportunidade para a Igualdade em Portugal?

À partida, a resposta mais imediata parece ser negativa – este, pelo menos, é o sentido da experiência comparada, seja através das Nações Unidas ou da imprensa internacional.

Mas a História (inter)nacional também demonstra que foi em épocas de rutura – política, económica ou social – que o segundo sexo, enfim, se emancipou, pugnando pelo acesso às mesmas oportunidades.

Como a maioria dos/as feministas que conheço, estou cansada de saber que, ao ritmo pré-pandemia, só dentro de dezenas de anos se atingirá uma igualdade de facto.

E nem se refira o argumento do «espetacular» avanço feito nas últimas décadas nesta matéria. Na era das novas tecnologias, em que (quase) tudo é instantâneo, a velocidade rumo à igualdade de oportunidades não pode ser menor. Isso não é, sequer, aceitável.

Nunca as mulheres foram tão escolarizadas ou informadas sobre os seus direitos. Estando o busílis da questão já não nos cuidados aos filhos, mas tão-só na divisão das tarefas domésticas, este é o momento para a igualdade de oportunidades ser, senão uma questão de justiça, de premência.

Sejamos realistas: A Covid-19 vai afetar todos/as. A sociedade civil vai necessariamente sofrer uma nova geometria. Em casa e no trabalho, todos/as teremos de nos adaptar. Numa família em que a mãe se torne a única provedora pelo desemprego do pai, com dois menores a cargo, justifica-se que este mantenha a tradicional postura de machão?