Como se já não bastasse que se tratem as mães por “Ó mãe!?”, há uma “mania” muito em voga, no momento, que passa por se chamar a todas as crianças “príncipes” ou por “princesas”. A ideia, suponho eu, passa por andarmos a dar afagos na “auto-estima” da criançada. Mas isso não impede que, chegadas à escola, as crianças se dividam entre os “príncipes” e os “príncipes com orelhas de burro”. E isso é trágico. Porque todas as crianças são inteligentes e todas têm necessidades educativas especiais. Só que umas passam. E outras não.

Quando uma criança não cumpre “os objectivos” definidos para um determinado ano de escolaridade, é claro que ela tem responsabilidade por isso acontecer. Mas, é bom que se diga — por mais que ela seja, “à vista desarmada”, quem mais acarreta com os custos disso tudo — a verdade é que “a parte de leão” duma reprovação é da responsabilidade da escola, a maior parte, e, depois, dos seus pais. Isto é, a haver alguém a ficar retido, a escola devia vir sempre em primeiro lugar. (Só um pormenor: eu disse a escola; não os professores.)

Obviamente que não adianta presumir que os professores têm o essencial das responsabilidades imputáveis à escola, em cada reprovação. Porque se é verdade que não serão inocentes em muitas delas, eles confrontam-se, grande parte das vezes, com crianças que lhes chegam com muitas limitações de conhecimentos. Que são inseridas em turmas, escolhidas “a dedo”, onde elas (por mais que a escola fale de inclusão) são “guardadas” ao pé de outras crianças, igualmente com dificuldades, ao contrário de tudo aquilo que devia acontecer. E confiadas a professores, muitas vezes, menos experientes e menos diferenciados. E onde o número dos alunos dessas turmas não é razoável, quando se trata de considerar todas as crianças com dificuldades escolares que fazem parte delas. Acresce, que o “investimento” na formação dos professores é, escandalosamente, “minimalista” (para não dizer inexistente). E que os professores de ensino especial parecem ir ficando “em vias de extinção”. E os serviços de psicologia das escolas vão-se tornando um adereço que fica bem em todas elas mas que não têm os recursos indispensáveis para responderem às necessidades pedagógicas de apoio que os professores destas crianças, e elas próprias, necessitariam. Logo, faz sentido que se fale da diminuição das reprovações. Não tanto porque elas representarão um dispêndio de 250 milhões de euros, por ano, mas porque elas convertem alunos cheios de competências em “príncipes com orelhas de burro”. Mas, não havendo a minúcia de se explicar, com clareza, como é que se consegue baixar, seriamente, as reprovações (deixando que elas se “colem”, com mais ou menos populismo, às passagens administrativas), corre-se o risco de transformar a diminuição das reprovações num “slogan”. E isso não tem sentido nenhum.

O que é que ganha uma criança quando reprova? Muito pouco. Raras são as vezes, para o que devia acontecer, que, depois duma reprovação, uma criança volte a “tratar por tu” os conhecimentos. E menos, ainda, aquelas em que recupera, e passa de “príncipe com orelhas de burro” a “príncipe do conhecimento”. Regra geral, com uma reprovação uma criança ganha vergonha. Porque todas as crianças querem aprender e gostam de ter sucesso! E ganha, ainda, as sanções dos pais (há crianças que ficam sem festas de aniversário, sem presentes e etc.). E os comentários infelizes da família alargada. Ou torna-se no pretexto visível para que as rivalidades entre primos sejam estimuladas pelas suas famílias. O que, muito rapidamente, transformam a vergonha em humilhação. Que (desculpem o cinismo!) é um empurrão como deve ser para que elas se sintam mais “motivadas”, a seguir… Acresce que, quando regressam à escola, depois de uma reprovação, as crianças têm o tratamento muito pouco “premium” de que vos falava, há pouco. E, por mais que eles não queiram, têm professores que, em relação a elas, nunca terão as mesmas expectativas de aprendizagem que têm para com as outras crianças. E que estão desamparados e sem os recursos pedagógicos essenciais que façam com que se revertam os danos de aprendizagem que justificaram as reprovações. E, a partir de agora, terão, ainda, alguns directores de escolas a pressionar para que elas se baixem. Sobretudo porque para uma “cultura” (infelicíssima!) de rankings e de quadros de honra e de excelência, as reprovações são uma espécie de “quadro de vergonha” para o sistema educativo, diante do qual – por défice de atenção, só pode ser – ele nunca se põe em questão; como devia.

Por mais que não se queira, a escola parece ver um aluno que reprovou como se ele tivesse um estigma que o afasta das crianças… “normais”. Não esperando dele aquilo que devia esperar. Não perscrutando, de forma séria, sobre os motivos desse acidente de percurso. Empurrando-o, muitas vezes, para o grupo dos “mais atrasados”. E descrevendo-o como “nee”, como se a uma necessidade educativa especial correspondesse um “defeito de fabrico”. Ou seja, a escola cria, na maior parte das vezes, a necessidade educativa especial. E, depois, atribui-a a uma criança, como quem diz: “se os outros aprendem e estas crianças não, quando o método é o mesmo, o problema está em quem não aprende”. O que – desculpem! – roça a batotice. Ou, talvez melhor, a necessidade educativa especial do próprio sistema.

Evidentemente que os pais das crianças que parecem não aprender não são, também eles, na maior parte das vezes, apenas vítimas. Porque, por desamparo ou por precipitação, são também levados a supor que os filhos que revelam algumas dificuldades escolares têm “problemas”. Mas são, eles também, muitas vezes, vítimas de um sistema onde as dificuldades escolares mal geridas criam os insucessos, e os insucessos que não se analisam como deve ser criam as reprovações.

Porque é que, diante de um insucesso escolar, não nos perguntamos se esta necessidade de baixar a percentagem das reprovações representará uma preocupação genuína, devidamente pensada, ou não poderá escorregar para uma espécie de “solução apressada” dos rankings de classe B que o sistema educativo produz, para bem das classificações internacionais? Isto é, acabar com as reprovações, sim; claro! Desde que, a menos reprovações, não corresponda só menos crianças retidas, que mantenham o mesmo insucesso educativo. Até porque aquilo que está em causa numa reprovação acaba por ser uma outra espécie de abandono escolar. Sem nunca se sair da escola.

Afinal – diante de mais de um terço de crianças que, até aos 15 anos, já reprovou, pelo menos, uma vez – quem é que devia reprovar: os “príncipes com orelhas de burro” ou o sistema educativo (que o melhor que consegue é afirmar, para regozijo dos rankings internacionais, que nunca se reprovou tão pouco, em Portugal)? Ao mesmo tempo que todos parecem continuar mais entretidos com o sucesso nos exames que no sucesso educativo. E, no entretanto, dão gás a discussões parlamentares sobre a educação que, se houvesse vergonha, nunca existiriam, sem que, antes, todos nos implicássemos, seriamente, a solucionar as reprovações.