Apesar de nascido já há algumas décadas, começa-se a tornar cada vez mais vulgar o uso da palavra populista com o objetivo de caracterizar alguém que se apresenta aparentemente com boas intenções junto do povo, a dizer o que todos querem ouvir, ou unir maiorias utilizando como bode expiatório minorias geralmente problemáticas ou não tão consensuais na sociedade. É cada vez mais comum que este tipo de acusações seja feita a alguns líderes mundiais como forma de os criticar por ignorarem problemas reais da sociedade, com o único e exclusivo objetivo de chegar ao poder. Aconteceu com Donald Trump, Marine Le Pen, Jair Bolsonaro e já se apontam armas a potenciais sucessores no espaço ibérico, como é o caso do Vox em Espanha ou de André Ventura, o líder e fundador do CHEGA.

Se procurarmos um pouco a forma como se define um populista, facilmente percebemos que estamos a usar esta palavra de forma errada. Um populista tende a ser agressivo na polarização da sociedade usando também um discurso simplista, como referiu Santana Pereira, um investigador de ICS. Por outro lado, acrescentou a investigadora Susana Salgado que “Uma característica essencial no populismo é a dicotomia entre o nós e o eles. Na extrema-direita, eles são os imigrantes, e na extrema-esquerda, são os banqueiros, as elites privilegiadas”. Ora então a conclusão que se tende a tirar deste tipo de caracterizações é que se formos imparciais, facilmente percebemos que são chamados de populistas todos aqueles que são de extrema direita e extrema esquerda. Por outro lado, neste ponto se percebe que aquilo que na verdade é um extremista, podemos chamar de populista, quanto mais não seja pelo tipo de discurso que todos têm. O problema surge quando fruto da promiscuidade de algumas definições, se começa a chamar de extremista a um populista, e isso não tem necessariamente de ser verdade. Este tipo de associações acontece entre outras razões, por um dos traços centrais de um populista, ser a identificação de um grupo problemático, como necessidade de ser combatido em prol da nação. Ora logo aqui, se nos prendermos apenas a esta definição, podemos considerar que todos os partidos são populistas, uma vez que fruto das suas ideologias, todos têm os seus alvos e os seus “protegidos”. Desta forma, penso que o limite que define se é populista ou não, é de facto a importância e o tempo que esse tipo discurso ocupa em relação a todas as outras propostas, sendo que caso seja maioritariamente preenchido por este tipo de discursos, então sim, é populista!

Populismo, extrema-direita e os ditadores

Os líderes mais mediáticos associados a estes movimentos tendem sempre a ser os de direita, mas a verdade é que isso não passa de uma falácia, pois o populismo de esquerda também está bem presente com líderes europeus bem ao estilo de Evo Morales, presidente da Bolívia e um dos maiores populistas atuais de esquerda. Esse fenómeno acontece por uma razão muito simples. Não passaram assim tantos anos, e a Europa ainda vive assombrada pelos antigos regimes de alguns ditadores associados à extrema direita. Em Portugal, basta ver que a idade média da população em 2018 rondava os 45 anos. O que tem isso a ver? Tudo, ou não fosse a estratégia dos seus oponentes em assim que aparece um destes líderes, conotarem-nos à extrema direita de modo às pessoas ganharem “nojo” e repúdio por eles, como se de um bicho papão se trata-se, que agora vem aí uma guerra, que os países vão fechar fronteiras, ou que todos os direitos conquistados vão desaparecer. Não que isso seja impossível de acontecer, mas é lógico que quando fazemos comparações destas, e a própria imprensa esforça-se para que isso aconteça, é natural que as pessoas os associem a antigos líderes ditadores que não querem mais ver até ao resto das suas vidas. De referir também, que estes líderes tendem a ter uma oposição forte das pessoas mais influentes do país, nomeadamente nas artes, música, cinema e do próprio humor, ou não fosse a constatação de um facto, que este tipo de influenciadores e opinion makers, são maioritariamente de esquerda.

Recordemos por exemplo o que se tem passado em Espanha com a exumação de Franco. São de facto acontecimentos que ainda marcam as sociedades atuais, por não terem passado assim tantos anos e por a maioria da população ter passado por eles. Certamente que os nossos bisnetos não vão sequer perceber o que era a PIDE, como isso era possível, tal como nós atualmente já nos esquecemos do que está por trás da celebração do Dia da Mulher que, para os mais esquecidos, começou a ser celebrado em fevereiro de 1909, tinha ainda Salazar 19 anos.

Por agora, é realmente algo que ainda está muito presente. Tão presente que ainda rejeitamos a ideia de poder chamar à ponte 25 de Abril o seu nome original, para os mais esquecidos, ponte Salazar, parecendo. por um lado, que vivemos assombrados pela pior parte da nossa história, insistindo em que não houve uma única coisa boa que esse horrível ditador tenha feito a Portugal.

Como é possível que se ensine em Portugal que fomos os grandes conquistadores e heróis na época dos descobrimentos, mas ao mesmo tempo no Brasil se ensine que fomos lá roubar tudo? Desculpem, mas existe alguém a ser enganado, porque a história não pode ter duas verdades diferentes.

Eu próprio, como nasci pós 25 de Abril, estou disposto a conhecer a parte boa da história, a dar as duas versões, porque existe certamente algo bom, mesmo que seja pouco, sabendo também que só penso dessa forma porque não vivi no período de ditadura. Não estou disposto a ignorar a falta de direitos que as pessoas tinham, as perseguições, a PIDE e a ausência de liberdade, mas por outro lado, gostava que me tivessem ensinado na escola que esse homem foi responsável por um país com uma das maiores reservas de ouro do mundo, que foi ele que construiu infraestruturas que hoje em dia éramos incapazes de funcionar sem elas, ou então estaríamos à espera 10 anos que uma linha da CP fosse renovada, como acontece infelizmente. Falo do metro de Lisboa, do Instituto Nacional de Estatística, aeroporto da portela, ponte Salazar, de quase todas as mais importantes faculdades do país, instituto de oncologia, a própria RTP, TAP e inúmeras outras obras que recomendo aprofundar para percebermos que ainda estamos na ressaca desse período, seja para o bom ou para o mau.

É esta história que gostava que fosse contada e ensinada de outra forma nas escolas, principalmente explicando aos novos alunos que os fins atingidos foram de excelência, mas talvez os meios não tenham sido os melhores. Não devemos ignorar o que se passou, e quando vim mais tarde a descobrir este tipo de coisas, senti-me enganado na minha educação, e quando somos enganados tendemos a nos tornar desconfiados na forma como o sistema está montado. Não que isso nos conforte, mas não somos caso único, e em outros países acontece igual. A título de exemplo, como é possível que se ensine em Portugal que fomos os grandes conquistadores e heróis na época dos descobrimentos, mas ao mesmo tempo no Brasil se ensine que fomos lá roubar tudo? Desculpem, mas existe alguém a ser enganado, porque a história não pode ter duas verdades diferentes.

Mas afinal porque associamos o populismo à Direita?

Para além do mencionado acima, existem outras razões para que isso aconteça, e uma delas está relacionada com o facto de por norma, os líderes destes movimentos/partidos serem mais carismáticos e polémicos, tenderem a não temer as palavras, chegando a ignorar a possibilidade de pensarem 2 vezes antes de falarem, entrando no ciclo do politicamente correto, que para mim se revela bem mais perigoso que a história do populismo, e portanto, tendendo a falar de coração como gostam eles de dizer, as probabilidades de errarem e serem mal interpretados é maior. Eles falam a língua do povo e dão eco às típicas conversas que ouvimos nos cafés todos os dias, e se essas conversas existem, de alguma maneira devem ser importantes para o país.

Por outras palavras, as afirmações destas pessoas, geralmente são mais polémicas pelas razões que mencionei, originando opiniões extremadas por parte de nós leitores, ou dos leitores que não ouvem diretamente da fonte, e quando prestam atenção ao tema através dos media, o mesmo já vem com uma opinião subjacente pela forma como a peça jornalística é construída, sendo que nesses casos, tendemos a não questioná-las, pelo facto de já serem profissionais que nos estão a reportar a informação. Entendemos que por ser um profissional a passar-nos a mensagem, já houve uma triagem do que é verdade ou mentira, mas o problema é que cada vez mais, cada profissional desses transmite a sua verdade ou interpretação, não se limitando a apresentar factos, deixando serem as pessoas a tirar as suas conclusões. Este tipo de comunicação é quase tão má quanto as fake news, porque não estando a mentir às pessoas, está a conceber uma opinião que elas sem querer vão assumir, não contestando ou procurando o outro lado da verdade.

Os populistas são extremistas ou ditadores? Só querem guerras e instabilidade?

Numa altura em que se pensava que era impossível parar o líder da Coreia do Norte, um destes líderes de que todo o mundo tinha receio que viesse a governar, Donald Trump, conseguiu fazê-lo. Até agora não foram precisas guerras, o regime ditador chinês começa finalmente a ser posto em sentido e o autoproclamado estado islâmico está praticamente aniquilado. Curiosidade é que tudo isto foi feito sem serem precisas mortes como às que ocorreram desde a guerra do Vietname ou no início do milénio com Saddam Hussein, Osama bin Laden ou a ETA em Espanha como principais inimigos da sociedade moderna. Lembro-me de nessa altura ter receio de viajar e hoje em dia não quero outra coisa, portanto algo certamente melhorou.

Outra curiosidade é que no período em que houve mais instabilidade na Europa, os populistas de hoje não eram chamados de populistas na altura, e eram quase que também vítimas destes atentados. Era uma Europa com poucos partidos de direita a afirmarem-se de direita, com receio de que fossem conotados como terroristas também eles. Era uma Europa com uma esquerda forte e unida, com o socialismo bem enraizado, e uma direita com medo de dizer que era de direita, conquistando apenas o espaço ao centro. Será que não devemos culpar alguns destes líderes por terem mão leve na abordagem que tiveram ao terrorismo, ou só os populistas é que querem guerras e instabilidade? Será que é igualmente seguro um país que aceita refugiados sem qualquer critério, de outro que tem o critério de aceitar todas as pessoas, desde que sejam bons cidadãos e cidadãs?

Julgo que não é por pensar assim que se é ou não populista, muito menos de extrema direita, e temos de uma vez por todas parar com estas associações, pois a meu ver, se para eliminar a força do ISIS, resolver o problema com a Coreia do Norte ou de outros terroristas, for preciso que chamem extremista a algum líder, ele não se vai importar com isso, desde que no final do dia tenha resolvido o problema de forma pacífica.

Será um não politicamente correto, um populista?

Ainda sobre Trump, a pergunta que me faço, é porque se insiste em achar que o homem é louco, que é racista e xenófobo, que é um perigoso popular de direita e que vai por o mundo em guerra? Não quero argumentar se ele é mesmo doido ou não, pois acredito que tem uma boa dose de loucura, mas foi por esta altura que comecei a pensar e a refletir se não estaremos a confundir as coisas, pois afinal de contas estamos a chamar populista a uma pessoa que não é politicamente correta, esse que é um mal bem maior que está a invadir as nossas sociedades e a destruir países tão liberais quanto o Reino Unido ou o Canadá. Repare-se a título de exemplo, que apesar de Boris Johnson se rever em opiniões de Donald Trump, não é muito conotado ao populismo, e tal se deve entre outras razões, ao facto de não ser tão polémico, menos carismático e mais politicamente correto, não tendo também um alvo de critica que seja uma minoria no país.

Não estaremos então a chamar de populista a uma pessoa que diz o que pensa sem pensar 2 vezes? Que diz o que toda a gente pensa, mas ninguém tem coragem de dizer? Os EUA sabem na sua maioria, que existia e ainda persiste um problema a resolver com a comunidade hispânica e foi precisamente isso que o André Ventura disse da comunidade cigana no caso português ou Marine le Pen dos imigrantes em França.

Já passaram mais de dois meses desde as últimas eleições e ainda não vi André Ventura ocupar o seu espaço na assembleia com a temática da etnia cigana. Segundo ele, está convicto que a temática é um problema a resolver, e tudo bem, devemos respeitar essa sua visão mesmo que não concordamos com ela, agora daí a fazer disso a prioridade principal, creio que vai uma distância. Mas lá está, os media insistem em dizer que ele é o “mauzão” que é racista e xenófobo, que é um terrorista, e sobrecarregam tantas vezes as pessoas com o mesmo tipo de informação e títulos gordos, que no final do dia pouca gente sabe o que ele realmente disse sobre a essa etnia.

É mais comum a esquerda atacar o capital e os donos de grandes fortunas, mas o que quero deixar claro é que isso também é ser populista, pois trata-se de uma minoria que está a ser usada como bode expiatório para obter votos, uma das definições de populismo.

Mais uma curiosidade, é que à semelhança de Donald Trump, foi a quantidade de críticos e manchetes chamando a atenção a este perigosíssimo candidato, que o permitiram dar-se a conhecer aos eleitores, já se situando segundo 2 sondagens, com uma percentagem de votos no dobro da conseguida nas eleições legislativas. Lembre-se também da enorme campanha que houve em Portugal com o objetivo de denegrir a imagem de Bolsonaro. Ele não é santo nenhum, repito, mas foram esses haters que o levaram à vitória.

Se a etnia cigana não é prioridade, porquê falar nela?

Esta questão poderia ser debatida durante algumas horas, mas a melhor resposta a meu ver seria: Porque não? Porquê ignorar esse problema só porque é uma minoria? Os ricos também não são uma minoria? Quem é que protege esses? Não é habitual alguém de esquerda ou de direita a fazê-lo publicamente. São sempre os maus da fita e os verdadeiros ladrões, mas então quem os acusa de o ser, como se ser rico é sinónimo de ser criminoso, não devia também ser considerado populista? Repare-se que existe ricos bons e ricos maus, tal como pessoas de etnia cigana e demais minorias do país boas e outras menos boas. Aliás, outra questão é que temos de uma vez por todas parar de segregar as pessoas como minorias pois isso é meio caminho andado para existirem desigualdades.

Como víamos, no geral, é mais comum a esquerda atacar o capital e os donos de grandes fortunas, mas o que quero deixar claro é que isso também é ser populista, pois trata-se de uma minoria que está a ser usada como bode expiatório para obter votos, uma das definições de populismo. Já ouvi argumentos dizendo que estas pessoas mais do que dizer o que pensam, dizem o que as pessoas querem ouvir, mas a questão que coloco é: Qual é o político que não faz isso? Nenhum, pois é! Todos o fazem, parece-me lógico, mas nesse caso, então estaremos a admitir que todos os líderes de partidos são populistas! E realmente isso é mesmo verdade! Acho seriamente que devemos pensar na forma como estamos a olhar para a política e mais que tudo isso, para a sociedade, aproveitando também para parar de utilizar a palavra populista para tudo aquilo que seja menos politicamente correto e/ou polémico.

Veja-se bem que a história do politicamente correto já levou a que em países como o Reino Unido, seja proibido dizer Ladies and Gentlemen nos metros da cidade, tudo porque existiam pessoas assumidas como minorias, que por não se sentirem homens ou senhoras, se sentiam ofendidos com tal designação. Lamentem, mas independentemente das opções sexuais de cada um, vou sempre achar que o ser humano só pode ser homem ou mulher, mesmo que ocorra o procedimento para a troca de sexo durante a sua vida. Tudo o que façamos na nossa vida e opções que tomamos, só a nós nos diz respeito, mas ou somos homens, ou somos mulheres, mesmo que não sejamos seguidores bíblicos ou religiosos.

Outro exemplo que queria falar, foi o caso do jogador português, Bernardo Silva, que comparou um dos seus melhores amigos com o “conguito”. Ora curiosidade foi que ele foi multado mesmo o amigo dizendo que não se sentiu ofendido com isso e que esse tipo de brincadeiras é normal entre os dois. A pergunta aqui é: Se a pessoa em causa não se sentiu ofendida, quem é o Estado ou qualquer outra entidade para vestir as dores dessa pessoa? Isto também não é uma forma de ditadura ou censura?

Como um dos autores que vou mencionar abaixo alertou, “existem muitas coisas diferentes a serem chamadas de populismo” e “na Europa, os partidos centristas falam do populismo para desacreditar novos partidos, de esquerda ou direita, que representem os cidadãos em questões das quais os centristas desistiram há muito tempo”. Pois bem, subscrevo totalmente.

Esquerda ou Direita, populista ou não populista?

Com todas as constatações que observámos, conseguimos concluir que com a chegada de novos partidos, maioritariamente mais liberais ou mesmo anti-sistema, as regras do jogo têm vindo a mudar um pouco, começando a esvanecer a eterna questão do és de esquerda ou de direita. Já vários especialistas como o cientista político holandês Cas Mudde, Benjamin Moffitt ou o sociólogo alemão Wolfgang Streeck, estudaram esta questão, e uma das conclusões tiradas na Europa, das quais tendo a concordar, é que cada vez mais se têm dois tipos de voto: o voto populista e o voto não populista.

Na verdade, o ser ou não ser populista já vale mais do que a própria ideologia tradicional de esquerda ou direita. Para já, estima-se que um em cada quatro votos na Europa sejam votos populistas, afirmando que Portugal tem estado fora desta equação. Devemos pensar porque foi concluído isto, e é aqui que discordo. O que acontece na verdade, é que só se tem considerado populismo, o populismo de direita, o que é uma grande mentira. No caso português, se considerarmos os votos do maior partido da direita, chegamos a uma percentagem de 27%, curiosamente muito próximo dos um em cada quatro votos que na Europa são populistas. Portanto, tomando como ponto de partida que o PSD não é um partido populista, sendo ele próprio um partido do sistema, das duas, uma: ou Portugal é diferente e imune a tudo o que se passa na Europa e no Mundo, ou estamos cada vez mais perto de ter um CHEGA com 25% de votos.