Global Shapers

Que saúde queremos? Se continuamos assim teremos a saúde Bolivariana! /premium

Autor
  • David Braga Malta
198

O Ministério da Saúde transformou-se no Ministério dos Hospitais do Estado e no Ministério dos Médicos e Enfermeiros que são Funcionários Públicos, perdidos em tricas e rixas de classe e corporativas.

O tema da saúde em Portugal está refém de pseudo-ideologias políticas totalmente desinformadas. Está refém de clientelas e de arcaísmos históricos. É mais importante discutir se o estado detém os meios de produção ou se o capital pode ganhar dinheiro com a saúde, do que discutir a qualidade dos cuidados que os cidadãos recebem. Perdemos tempo a discutir problemas fictícios de subsistemas, se a ADSE é isto ou aquilo, que é mais ou menos como discutir o que a Médis ou a Multicare são, com uma atitude coscuvilheira de nos metermos em assuntos que são dos funcionários do estado e apenas só deles com o seu empregador. Talvez porque o país seja altamente dominado por cidadãos que dependem diretamente do estado para receber o vencimento, misturamos os problemas dos funcionários do estado com os problemas do país.

Nos últimos 20 anos o Ministério da Saúde transformou-se no Ministério dos Hospitais do Estado e no Ministério dos Médicos e Enfermeiros que são Funcionários Públicos (as outras profissões na saúde nem merecem atenção). Andamos perdidos em tricas e rixas, em lutas de classe e corporativas, em falsos dados que sugerem que os “privados”  ficam com a maioria do orçamento da saúde. Com isto estamos a Bolivarizar a saúde em Portugal. A nossa saúde não será a americana, nem a inglesa ou sequer a belga. Com este caminho será a da Venezuela – para quem não sabe o que é, é nenhuma, é morrer por falta de uma aspirina.

Já é tempo de o Estado assumir a responsabilidade constitucional que tem de garantir acesso à saúde a todos os cidadãos. Nada na Constituição estabelece quem detém os meios de produção. Na realidade, os medicamentos que todos queremos tomar quando estamos doentes foram desenvolvidos por empresas internacionais, os equipamentos hospitalares e os dispositivos médicos também. A não ser que pretendamos invadir os Estados Unidos da América, a França, a Suíça ou a Dinamarca para depois nacionalizarmos todas as empresas farmacêuticas e de dispositivos médicos, é pura e simplesmente impossível que o Estado detenha os meios de produção em saúde.

Está na hora do Ministério da Saúde fazer o que lhe compete, garantir que os cidadãos têm os melhores cuidados de saúde possível com o menor custo para o orçamento que todos os cidadãos ajudam a capitalizar. Isto pode ser feito detendo e operando hospitais e centros de saúde, como contratando terceiros para o fazer. Pode ser feito de qualquer maneira desde que seja bem feito, desde que o Estado saiba negociar em nosso nome. Contudo, a gestão dos cuidados primários e agudos de saúde está longe de ser a grande parte do problema. É apenas aquela que chega às notícias pela evidente falta de capacidade que o estado tem para a gerir.

Há evidência científica mais que suficiente para demonstrar que a saúde dos cidadãos está iminentemente e intimamente ligada ao estilo de vida. Às escolhas que fazemos diariamente, exercício e à falta dele, tabagismo, álcool, alimentação, sedentarismo…. Diariamente decidimos em que idade queremos ser doentes cardiovasculares ou diabéticos. Diariamente decidimos se queremos entupir os hospitais e privar-nos de usufruir da vida com qualidade, de conviver com os que mais queremos.

O Ministério da Saúde devia estar focado em gerir a saúde em Portugal. Isto começa com a educação para a saúde, com a capacitação dos cidadãos para fazerem escolhas informadas, com mecanismos para prevenir que os cidadãos passem a ser doentes. Este é o primeiro passo para garantir que não temos que fazer um hospital em casa de cada pessoa. Com o envelhecimento da população, e com o aumento da esperança média de vida, é óbvio que haverá mais utilizadores dos cuidados primários e agudos de saúde. Se não agirmos antes de os cidadãos chegarem aos hospitais, só vamos conseguir responder construindo um hospital em cada esquina. Talvez faça mais sentido promovermos a saúde dando aos cidadãos as ferramentas que permitem que cada um seja o primeiro promotor da sua saúde.

Talvez possamos ir mais longe e criar mecanismos para o incentivar. Há 10 anos  vivia noutro continente. Num país que é altamente criticado por não ter um sistema de saúde universal. No meu caso, se fosse mais que três vezes por semana ao ginásio tinha um desconto significativo no seguro de saúde (que no caso particular era um seguro proporcionado pelo governo estadual). Nunca estive tão bem em termos de saúde. Este exemplo é claro apenas anedótico, mas talvez, para começar, em Portugal possamos oferecer uma redução em IRS para os cidadãos que mantenham níveis de saúde adequados. Para que percebamos o problema, e como exemplo, os doentes com excesso de peso custaram em 2013 mais de 250 milhões de euros ao estado. Um outro exemplo claro é o tabagismo. 20% dos Portugueses fuma, em 2017 mais de 11.000 pessoas morreram de causas directamente relacionadas com tabagismo, e no último estudo realizado em 2007 o custo em saúde rondava os 1400 milhões de euros, cerca de 15% do orçamento para a saúde.

Isto é o que todos pagamos por escolhas individuais de cidadãos. Estas escolhas egoístas de quem este habituado a ter o estado como papá que paga e aceita tudo, implicam que não possamos ter os melhores medicamentos para tratar o cancro em Portugal, ou que ainda não tenhamos feito a ala pediátrica no Hospital São João. São escolhas que o Estado faz em nosso nome. Infelizmente faz as escolhas baseado no que melhor serve os interesses do governo e não dos cidadãos. Eu preferia que o estado me permitisse escolher livremente e me desse as ferramentas para eu ser o meu “primeiro médico”. Caso eu faça as escolhas acertadas me permita reter uma maior parte dos resultados do meu trabalho.

David Braga Malta é especializado na área das Ciências da Vida, com formação de base em Engenharia Biológica pelo Instituto Superior Técnico, tendo passado pelo Imperial College of London durante o mestrado. Concluiu a formação avançada ao abrigo do programa MIT Portugal, tendo-se doutorado em 2012 após um período de investigação de quatro anos no laboratório da Prof.ª Sangeeta Bhatia no MIT. Fundou a startup Cell2B, com base nos resultados do seu trabalho de investigação, que visava o desenvolvimento de produtos de terapia avançada para o tratamento de doenças autoimunes. É Fundador e CEO da empresa Neurimm Therapeutics e é investidor, venture capital, especializado na área das Ciências da Vida no Fundo Vesalius Biocapital no Luxemburgo. Foi também consultor da Caixa Capital para a área das ciências da vida. Foi um dos primeiros Global Shapers a integrar o Global Shapers Lisbon Hub quando foi constituído em 2013. Liderou o grupo entre 2015 e 2016.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Global Shapers

Investir em startups não é um hobby!

David Braga Malta
232

Só uma indústria de venture capital de base portuguesa, trabalhando em conjunto com business angels de áreas onde têm uma grande experiência, pode garantir a existência de startups promissoras.

Global Shapers

Inovação: oportunidade e imperativo

David Braga Malta
277

Está criado o caldo de cultura que permite, em 20 a 30 anos, transformar o tecido económico nacional integrando conhecimento de base científica e criando vantagens competitivas sustentáveis.

Global Shapers

Fintechs, Insurtechs e Regtechs /premium

João Freire de Andrade

Porque é que energia de ativação não foi ainda suficiente? Falta de foco? Orçamento? Atritos na decisão e navegação das políticas da organização? Sistemas informáticos desatualizados? Compliance?

Global Shapers

O Elogio da Loucura /premium

João Duarte

Se a inovação radical, as ideias disruptivas e o génio da criatividade estão para além da ordem, como balançar o caos e a ordem? Que tal um caos ordenado? Um estímulo do acaso e do ambíguo controlado?

Global Shapers

"É preciso dar tempo ao tempo" /premium

Diogo Almeida Alves

É necessário encontrar o equilíbrio entre o que fazemos e o que queremos fazer, respeitarmos o tempo e o timing dos vários projetos pessoais e profissionais e sentir o bem-estar emocional e humano.

Global Shapers

Quem manda aqui sou eu! /premium

Afonso Mendonça Reis
501

E se os alunos também fossem responsáveis pela sua escola? E se servissem os colegas na cantina uma vez por mês? E se pintassem a escola ou desenhassem um novo espaço para a tornar mais ao seu gosto?

Global Shapers

Liderança climática /premium

Simão Soares
131

É inspirador para o país o surgimento de iniciativas lideradas por empresas que procurem antecipar o futuro e trabalhar na criação e aplicação de políticas sustentáveis.

Ciência

Carreiras e micro-ondas

Gonçalo Leite Velho
158

A verdade é que quem tem qualidade mantém todas as reservas sobre o rumo da política de Ciência em Portugal. É que o clientelismo e o nepotismo são apenas parte de um sistema mal desenhado.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)