Sempre fui dada a alguns saudosismos, dos bons, claro, pois quem é que tem saudade de tempos menos felizes? Os meus tempos de estudante representam para mim uma espécie de Idade de Ouro, vivida com aumentado idealismo e utopia que a minha memória ainda não atenuou, e não são poucas as vezes que revisitando o tango-canção “Amores de Estudante”, composto em 1937 para o Orfeão Universitário do Porto por Aureliano da Fonseca e com letra de Paulo Pombo e que se tornou o hino estudantil, me ocorram com intensidade as tais sensações de nostalgia.

Mas às vezes ser-se estudante de Ensino Superior não me parece assim tão bom. Eu explico. Começa logo antes de se o ser, no Secundário, em que todo o foco não parece ser a curiosidade, a aprendizagem, o desenvolvimento integral, mas antes as malditas notas, pretensas garantias de um qualquer futuro mais risonho (leia-se superar os numerus clausus).

Para os que suplantam este garrote, não lhes é apresentado o paraíso do descanso dos guerreiros mas antes uma outra dimensão, do tipo universo paralelo em que de um momento para o outro imergem numa ode à autonomia: não há encarregados de educação, não há manuais escolares, não há campainhas a chamar para as aulas, não há faltas, não há pautas, não há professores a tratar pelo nome, não há residências, não há ensino superior gratuito…

Hoje, o que há a somar de negativo a tudo isto é uma hiperconsciência experienciada por muitos como uma pressão ensurdecedora de que o curso não basta, que se tem de fazer e ser-se muitas coisas, que se tem de ir em Erasmus, que se tem de fazer voluntariado, que se tem de fazer formação complementar, que se tem de trabalhar, que se tem de praticar desporto, que se tem de fazer contactos, que não há margem para falhar, que se tem de ser o melhor, até todo este circuito insano ser interrompido por ataques de pânico.

E não, estes não são as conhecidas dores de barriga antes dos exames e o João [nome fictício] sabe bem isso. Tudo lhe parecia ir de vento em popa durante as quatro primeiras semanas de aulas do 1.º ano: entrara na sua 1ª opção, ambientou-se e fez amigos com facilidade, foi às festas todas e iniciativas de acolhimento, foi às aulas e envolveu-se nos trabalhos de grupo até que os primeiros testes lhe devolveram uma imagem que desconhecia de si até então: a de não ser suficiente. Aterrado com a perspectiva de perder a bolsa de estudos que ainda nem sequer tinha começado a ser paga, com a lembrança diária da mãe e do pai que lhe recomendavam que estudasse, que não podiam gastar mais dinheiro com ele se reprovasse porque o irmão mais novo também queria estudar, com o medo terrível de falhar com os avós que ainda o queriam ver diplomado, foi surpreendido na camioneta em que viajava todos os dias para a faculdade por uma violenta e súbita sensação de que iria morrer, de tal forma que os suores frios se adensaram, o batimento cardíaco acelerou, a sua respiração se tornou difícil e a náusea o invadiu a par do medo de perder o controlo. Pediu e insistiu para que o motorista parasse e que o deixasse sair ali mesmo. Depois dos 10 minutos piores da sua vida, voltou a pé para casa onde se fechou no quarto e se deitou o resto do dia, exausto.

Passou a sentir um medo pavoroso que aquilo lhe sucedesse outra vez, o que o levou a evitar a camioneta e a pedir o carro à mãe para ir para as aulas. Funcionou assim durante uns dias até que uma vez a conduzir, no trânsito, teve outra crise. Foi de imediato para as urgências do Hospital onde ouviu pela primeira vez a expressão “ataques de pânico” e onde lhe prescreveram um ansiolítico e um antidepressivo que deveria passar a tomar todos os dias. Mais tarde, na consulta com o seu Médico de Família este recomendou-lhe que tivesse apoio psicológico. Foi então que conheci o João, decidido a ultrapassar o seu problema de ansiedade e a lidar melhor com os desafios da Universidade.

Ficar sempre estudante? Livra, diz ele!

Teresa Espassandim, Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação, Psicoterapia e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira