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O que é a direita, além da não-esquerda? Prezzolini dizia que era a soma de todas as direitas, das lembradas e das esquecidas.

Mas na amálgama resultante da profunda e crescente ignorância sobre estas matérias, sobe a confusão entre as direitas que esquecemos – se é que alguma vez as soubemos – e aquelas “de que toda a gente se lembra”, ou de que só sobram os rótulos. Tudo isto espicaçado pela insegurança das esquerdas perante o ressurgimento “fascista-populista” e a consequente pressão para que “a Direita” se demarque das actuais “derivas iliberais” e se “redefina” – ou se fragmente, ou se dilua.

Ora subitamente moderadas e senatoriais, ora deixando escapar os habituais tiques sensórios e inquisitoriais, as esquerdas, e sobretudo as extremas-esquerdas, discorrem agora abundantemente sobre a reconfiguração da Direita e das direitas – como se não estivessem, também elas, reconfiguradas ou em reconfiguração. E fazem-no exibindo a serenidade sobranceira e elitista de quem está colado ao poder, enquanto impõem uma agenda radical apresentada como “senso comum” e “evolução natural das coisas”.

Na esquerda e nas esquerdas há de tudo: liberais, social-democratas, socialistas, trotskistas, comunistas, maoístas, neomarxistas; como na direita e nas direitas também há de tudo: liberais, conservadores, reaccionários, monárquicos, republicanos, nacionalistas, fascistas. Mas se é certo que, tanto à direita como à esquerda, há diferenças internas importantes entre as várias sensibilidades políticas (ou, para ser mais fiel ao espírito do tempo, entre os vários “afectos”), também é certo que há, e sempre houve, muitos espaços comuns. E uma coisa são os valores e os princípios fundamentais, outra é a reacção, a dialéctica e a evolução desses valores e princípios quando confrontados com a realidade.

Parece-me por isso interessante olhar o itinerário de alguns políticos e homens de Estado que, num percurso de vida e de poder, protagonizaram a evolução da ideologia, da retórica e das alianças à luz de um projecto final ou do confronto com um inimigo ou uma ameaça.

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Bismarck, o criador da Alemanha unida, é um desses exemplos de atenção ao presente e ao inimigo principal e de fidelidade a um projecto. Evoluindo de Junker reaccionário prussiano para nacional-conservador alemão, Bismark foi um conservador consciente de que conservar é mudar, não “para que tudo fique na mesma”, que nunca fica, mas para que certas ideias e concepções do homem, da vida colectiva e do destino da comunidade humana permaneçam vivas. Foi, por isso, na Direita, pioneiro dos fundamentos do Estado Social, entre outras coisas.

O retrato

O quadro de Anton von Werner da proclamação do Segundo Império Alemão, em Versalhes, diz tudo: uma empolgada assembleia de militares de uniforme de gala e condecorações ao peito ergue capacetes e sabres a uma venerável figura, também de uniforme azul e faixa amarela, que se perfila, em sentido, no topo dos três degraus de uma tribuna ou de um trono; mas há alguém de uniforme branco, bem no centro do quadro, que olha para o homenageado com uma curiosidade enigmática e de igual para igual. O observado é Guilherme I, rei da Prússia e, a partir daí, Imperador da Alemanha, e o observador é Otto von Bismarck, o artífice do Império.

Foi há pouco mais de 150 anos, esta proclamação, e é um acontecimento decisivo na História contemporânea europeia. A data exacta é 18 de Janeiro de 1871, e o lugar, a Galeria dos Espelhos, em Versalhes. O quadro de Werner foi encomendado ao pintor pela família reinante da Prússia, os Hohenzolern, para ser oferecido a Bismarck pelo seu septuagésimo aniversário, em 1885. Werner estivera em Versalhes em 1871 mas, curiosamente, pintou os figurantes, não na idade que teriam então, mas na idade que tinham em 1885. A atenção do pintor ao presente e a consciência de que a evocação do passado é sempre fruto de um olhar que parte do presente não terão desagradado a Bismarck.

Um passado prussiano

Otto von Bismarck foi o deus-ex-machina que, em menos de dez anos – desde que, em Setembro de 1862, o rei da Prússia o nomeou Primeiro-Ministro –, fez com chegasse aquele dia de triunfo, proclamado num palácio criado por Luís XIV para deslumbrar e esmagar pela pompa e pelo luxo os súbditos franceses e exibir ao mundo o seu esplendor transformado em troféu de conquista pelo novo Império alemão.

As tropas de Luís XIV, sob Louvois, tinham causado grande destruição nas terras agora alemãs da Renânia-Palatinado, dizia-se que para grande desgosto do Rei-Sol. Mas havia mais agravos.

A história da Prússia-Alemanha não se compreende sem o rol de humilhações sofridas pela Prússia nos princípios do século XIX: a invasão das tropas napoleónicas, a derrota de Iena, a ocupação, as indemnizações ao ocupante, a miséria consequente.

Aparentemente, os intelectuais alemães, como Goethe e Hegel, seduzidos pela figura do novo César, não se incomodaram muito com o caso. Hegel ter-se-á cruzado com Bonaparte nas ruas de Iena e escrito a um amigo: “Vi o Imperador, essa Alma do Mundo”. O encontro fora nas vésperas de Iena, o dia da grande derrota dos Prussianos às mãos da cavalgante “alma do mundo”. Quanto a Goethe, em Weimar, também não o terão incomodado pessoalmente os invasores – Goethe era um cosmopolita e Napoleão era seu leitor e admirador.

Mas não foi assim com o povo e com os patriotas prussianos, que sentiram na pele a humilhação e sofreram na carne a miséria da ocupação. Quando o rei da Prússia se aliou a Napoleão, um grupo de oficiais, entre os quais von Clausewitz (o autor de Da Guerra) abandonou o país e o Exército e foi oferecer os seus serviços ao Czar Alexandre I para lutar contra o Corso.

De reaccionário a realista

Otto von Bismarck nasceu na Prússia, em Abril de 1815, pouco antes do fim da carreira de Bonaparte em Waterloo e durante o Congresso de Viena, que restauraria a velha ordem na Europa. Era, no entanto, uma restauração marcada pela revolução e pelo medo de outras revoluções. Nasceu em Schönhausen, Saxónia, numa família de Junkers prussianos, a pequena nobreza que fizera a força do exército e da Prússia de Frederico, o Grande. A mãe vinha de uma família de altos funcionários do Estado. A família mudou-se para a Pomerânia Oriental, onde Otto passou a infância e a juventude, antes de partir para a universidade, para Göttingen e para Berlim. Teve uma juventude animada, serviu no Exército e pelos trinta anos teve um despertar religioso. Talvez tenha sido a mulher, Joana von Puttkamer, aristocrata, luterana e pietista, a convertê-lo; até porque, segundo os historiadores, terá sido o seu único grande afecto.

Começou então uma carreira política como deputado no parlamento prussiano, reaccionário e ultraconservador; as revoluções de 1848 deixaram-no surpreso e perturbado, e chocou-se com a atitude conciliatória do Rei. Opôs-se depois à unificação alemã, afirmando-se um prussiano identitário.

É com a nomeação para representante da Prússia, na Dieta da Confederação Germânica em Frankfurt, que vai converter-se em nacionalista alemão, em defensor da unidade da Alemanha, ainda que sempre sob a égide e hegemonia da Prússia.

O Junker prussiano, muito marcado por interesses de classe ou de casta, transformava-se profundamente, ao contactar com a realidade e as realidades da política exterior. Jacques de Bainville destaca este momento-chave na vida de Bismarck, o momento em que o reaccionário passadista se torna um nacional-conservador realista, defensor e fazedor da unidade alemã. Porque a Alemanha, partida em cerca de quatro dezenas de micro-Estados – além da Áustria, da Prússia, da Baviera – hesitava entre Viena e Berlim, os Habsburgo e os Hohenzolen.

Bismarck vê com antecipação. Vê que, depois de 1848-49, e embora as revoluções radicais tivessem sido vencidas pela força militar, já nada seria como dantes. E que a Santa Aliança ia ter o destino do seu artífice, do príncipe de Metternich, deposto e exilado depois de 48.

E muda de rumo perante a realidade europeia: a Áustria está em decadência, os Bonaparte estão de volta a França com Luís Napoleão, num cesarismo populista que aparentemente funciona. A Alemanha terá de fazer-se pelo ferro e pelo fogo. E as cidades e as massas populares tinham entrado definitivamente na História; contra ou a favor, teria de se contar com elas.

Depois de Frankfurt, é nomeado embaixador na Rússia e tem uma passagem rápida, também como Embaixador, por Paris. Em Setembro de 1862 o rei nomeia-o primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros. O ministro da Guerra é von Roon e o chefe de Estado-Maior é von Moltke. Moltke está a construir, pacientemente, um grande e moderno exército, com canhões Krupp e espingardas von Dreyse, de carregar pela culatra. Moltke também percebera que o transporte e a logística eram a chave das batalhas e forçara a criação de um sistema ferroviário que ficasse sob direcção militar.

Três guerras relâmpago

Depois são três guerras, três guerras relâmpago: a guerra dos Ducados, em que Bismarck se alia aos Austríacos para tirar os Ducados do Schleswig-Holstein ao rei da Dinamarca; a guerra da Áustria, a aliada da véspera, a católica Áustria dos Habsburgo, uma das cinco grandes potências, que é derrotada em Sadowa; e, por fim, a da França, a França de Napoleão III, herdeira da de Napoleão I, que invadira, ocupara e humilhara a Prússia.

Bismarck explora a soberba e a megalomania de Luís Napoleão com o famoso telegrama de Ems, relatando a verdade mas torcendo-a ou manipulando-a de modo a provocar os Franceses e a levar o gabinete de Paris ao que pretende: que, por um motivo fútil, tome a iniciativa de declarar guerra à Prússia.

A guerra contra a França foi outra guerra relâmpago que praticamente se decidiu entre Agosto e Outubro de 1870, com os dois grandes exércitos franceses, um comandado pelo marechal Bazaine, outro pelo marechal Mac Mahon, a renderem-se perante a nova estratégia de von Moltke, um em Metz, outro em Sedan, onde o próprio Imperador foi capturado. Depois, foi a coroação de Guilherme em Versalhes. Passados dez dias, a 28 de Janeiro, os alemães entravam em Paris.

Bismarck ganhara em toda a linha. Logo a seguir a Baviera e o Wurtenberg, em Munique, negociavam as novas regras da unidade alemã, sob a égide da Prússia, unindo 4 reinos, 18 principados, grão-ducados e ducados e 3 cidades livres – Hamburgo, Lübeck e Bremen. A Alsácia e Lorena eram também anexadas ao novo Reich e a França obrigada a pagar uma indemnização de guerra significativa.

A fechar a derrota, a França passaria pela insurreição radical da Comuna de Paris, com um cortejo de grande violência (incluindo o velho costume das esquerdas de matar os suspeitos do costume, nomeadamente bispos e padres). A insurreição foi vencida pelo governo de Thiers. E a repressão foi também extremamente dura.

As guerra domésticas: unir os amigos e dividir os inimigos

Tal como vaticinara Bismarck, a Alemanha fizera-se pelo ferro, pelo fogo e pelo sangue. Agora tratava-se de a governar. Na euforia da vitória, o Chanceler não se deslumbrou e seguiu a velha regra realista de unir os amigos e dividir, ou, quando possível, reduzir, os inimigos. Internamente, com a entrada da Baviera para a Nova Alemanha, passara a haver um terço de católicos na população. E os católicos tinham um partido, o Zentrum. Bismarck, como bom luterano, desconfiava dos “papistas” e do concurso de lealdades entre o Papa e o Imperador e pôs uma série de restrições ao culto, proibindo os padres católicos de falar de política, exercendo controles sobre nomeações do clero e cortando as relações com Roma. Foi a chamada Kulturkampf de 1873-1874, com uma série de leis restritivas. Seguiram-se, em 1875, leis para a dissolução de congregações religiosas que não se dedicassem à assistência social, aos doentes e aos pobres, além da suspensão de quaisquer apoios governamentais à Igreja e às instituições católicas de ensino. Tudo isto foi feito no Parlamento com o apoio dos liberais.

Mas em 1878, com a morte de Pio IX e a eleição de Leão XIII e com a mudança da situação interna, com o “perigo socialista” e a subida da votação do Zentrum, Bismarck, pragmaticamente, abandona a política regalista, restabelece relações com o Vaticano e procede à reintegração de bispos e sacerdotes.

De resto, o Estado de Direito tinha funcionado, com os tribunais a denegarem a aplicação das providências mais radicais do Chanceler contra a Igreja.

Bismarck teve também de lidar com a chamada “questão social”. A Prússia industrializara-se rapidamente, a partir da segunda metade do século XIX; e as guerras e vitórias da unidade alemã tinham reforçado uma burguesia nascente de banqueiros e industriais que transformara socialmente o país, com muitos camponeses a afluírem às cidades para trabalhar nas fábricas. Entretanto, em 1848, dois cidadãos alemães, Marx e Engels, tinham lançado o Manifesto Comunista.

Mas nenhum deles, nem nenhum dos seus discípulos, lideraria o movimento operário alemão, cuja figura carismática viria a ser Ferdinand Lassale – um misto de socialista romântico e patriota prussiano que acreditava, não na revolução violenta, mas na conquista do poder pela classe operária através do voto. Partia do princípio de que seriam os operários e não os burgueses a maioria dos eleitores. É claro que o sistema se acautelara, e as leis eleitorais da monarquia prussiana não funcionavam na proporcionalidade.

De qualquer modo, e embora Lassale tivesse morrido prematuramente em 1864 num duelo por causa de um caso sentimental, Ferdinand Lassale teve tempo de conhecer e negociar com Bismarck. Lassale defendia um socialismo patriótico, nacional, não internacionalista, e era partidário da unificação. E, tal como Bismarck, achava que devia ser a Prússia o agente dessa unificação. Lutava pelo alargamento do direito de voto. E embora associado com Marx em 1848, afastara-se depois. Quer Marx, quer Engels, escreveriam repetidamente textos contra a influência “desviacionista” de Lassale no proletariado alemão.

Bismarck entendeu bem a força das massas e o seu potencial revolucionário. Mas não lidou com o assunto ao modo dos reaccionários, partidários da intransigência e da mão dura na repressão. Pensou antes que, para o bem do Estado e da unidade da Alemanha, era importante fazer o que Hegel chamava a revolução por cima, para evitar a revolução de baixo. Assim, a Alemanha foi pioneira no campo de reformas sociais, como a institucionalização da reforma para os trabalhadores e da assistência médica.

Também nesse campo Bismarck começara com uma política repressiva, impondo uma série de proibições e restrições ao Partido Social Democrata; mas logo procurara satisfazer o eleitorado socialista através de leis, como a dos Seguros de Saúde de 1883, que instituíam um fundo financiado por patrões e trabalhadores. O sistema de contribuição alargou-se aos seguros por acidentes de trabalho e, em 1889, ao seguro de desemprego, marcando o início do Estado Social moderno.

Um equilíbrio europeu

Mas a grande obra de Bismarck foi o seu sistema de equilíbrio europeu. Depois da formação do II Reich e percebendo a inquietação das outras potências – que viam surgir no horizonte próximo um gigante militar, industrial e demográfico – tratou de as tranquilizar. Era um conservador realista e, ao contrário dos conquistadores revolucionários – como Napoleão e, depois, Hitler –, Bismarck entendia que, uma vez atingidos os seus objectivos, unida a Alemanha, não era bom nem útil prosseguir com conquistas.

Para serenar os vizinhos sobre as suas intenções e as da Alemanha, estabeleceu com a Rússia (que conhecia bem dos seus três anos como Embaixador) e com a Áustria a Liga dos Três Imperadores, explorando a identidade ideológica, conservadora e imperial de Berlim, S. Petersburgo e Viena. Ao mesmo tempo, explicou bem aos Ingleses (que tinham rivalidades com os Russos no Médio Oriente e no Oriente e tinham passado pela Guerra da Crimeia) que não concorreria com eles à hegemonia naval nem nos impérios coloniais. E tratou de compensar a França, vencida e revanchista, encorajando-lhe os projectos coloniais – na Ásia, no Norte de África e na África Equatorial. Fez também um tratado secreto com a Rússia, o Pacto de Resseguro, em que Alemanha e Rússia se obrigavam mutuamente a ficar neutrais em caso de guerra: a Rússia, em caso de guerra da Alemanha com a França; a Alemanha, em caso de guerra da Inglaterra com a Rússia.

Foi este o sistema de Bismarck, que durou até 1890, ou até que Guilherme II, o neto de Guilherme I, um jovem soberano obcecado por uniformes, paradas militares e exibições de força, o demitisse. E em poucos anos deu cabo da sua obra: denunciou o Tratado de Resseguro e criou uma marinha de guerra que pretendia rivalizar com a Royal Navy, dando origem a uma política de blocos ou de alianças rígidas – a Tripla Aliança e a Entente Cordiale franco-britânica, depois também com a Rússia, que levariam em 1914 à Grande Guerra e ao início das grandes confrontações do século XX.

Como escrevia Liddell Hart na sua História da Primeira Guerra Mundial, o problema foi que os discípulos e sucessores de Bismarck “esqueceram-lhe os princípios e recordaram-lhe apenas os métodos”. É o que mais acontece.