Quando nos sentamos à mesa o Estado senta-se sempre connosco[1] e consome cerca de metade do que é servido. Seja o que bebamos, uma cerveja ou um café, ou o que comamos, um bife ou um pastel de nata, o Estado come[2] e bebe metade. É um grande comilão. Melhor: é U grande comilão nacional, que abocanha avidamente metade do produto interno. Não só come metade do que produzimos, mas na sua gula & voracidade, ainda tem pedido emprestado para poder comer mais. Atendendo que o único exercício que pratica a sério é correr atrás de impostos, e que quando chega a hora de trabalhar, seja garantindo a segurança dos cidadãos contra fogos e outras ameaças, seja contribuindo para a sua saúde ou educação, o Estado é um molengão imprestável, sempre a arrastar os pés e incapaz de apresentar serviço que se veja, não é de admirar que esteja obeso.

É este Estado buchudo, e sem autocontrolo, que pretende, não já dar conselhos, mas constranger os hábitos alimentares dos seus cidadãos. Para quê? Na sua falta de vergonha, diz-nos que é para os manter tesos e saudáveis. Porquê? No seu indecoro, afirma-nos que é porque aos portugueses lhes falta autodomínio em questões alimentares. Como? De dois modos: através da limitação da liberdade de expressão e por meio de penalização monetária dos amantes da cozinha tradicional portuguesa.

Por um lado, proíbe as pessoas que gostam de chocolates e bolas de Berlim de exprimir e divulguar livremente este seu gosto e paixão, pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, introduzindo impedimentos e descriminações na comunicação. Deste modo se confirma um dos potenciais problemas da obesidade, a perda de visão, que já está a afetar a capacidade do Estado de ler a sua Constituição, nomeadamente o art.º 37.º, n.º 1.

Por outro lado, taxando vários tipos de condimentos essenciais ao património culinário nacional, como o sal[3] e o açúcar[4], com a desculpa que fazem mal à saúde. É possível que estes produtos naturais façam mal à saúde, mas há muitas coisas que que fazem mal à saúde e que não são taxadas. O jogging, por exemplo, causa problemas musculares e ortopédicos e é, com alguma frequência, causa de ocorrências cardiovasculares fatais, mas não se conhece proposta para criação de um imposto que o desincentive. Por outro lado, açúcar e sal são ingredientes não só edíveis[5] mas fundamentais na confeção do arroz doce e do cozido à portuguesa, duas expressões culinárias da nossa cultura que fazem a felicidade de milhões de portugueses e estrangeiros.

Se se aceita que não cabe ao Estado determinar se um cidadão tem de fazer exercício físico ou não, e que tipo de desporto uma pessoa pode ou deve praticar, parece congruente não se aceitar que o Estado limite a forma como alguém se alimenta. Ou acha-se o Estado, tal como o Deus de Israel, com o direito religioso de restringir a nossa dieta, não já proibindo o consumo da carne de porco[6], mas limitando a ingestão do sal e do açúcar? Percebe-se que haja campanhas de prevenção, informação e aconselhamento. Mas, excetuando o canibalismo[7], não nos imponham moralidades e restrições alimentares, especialmente vindas de alguém que, como o Estado, come tudo e quase não deixa nada. Cada qual tem o direito a optar por degustar arroz doce & ser diabético se lhe apetecer, apreciar cozido & ser hipertenso se quiser. E qual é o mal em ser gordo? Na Índia é sexy, para eles e para elas.

Os avtores não segvew a graphya do nouo AcoRdo Ørtvgráphyco. Nem a do antygo. Escreuew como lhes qver & apetece.

[1] Seria um erro deduzir que, lá porque come sempre connosco, o Estado é um convidado bem-vindo. Não é nem convidado nem bem-vindo. A bovinice nacional tolera-o tal como uma vaca tolera as moscas.
[2] Comer: Executar as tarefas de mastigação, salivação e deglutição na sua própria ordem. Se é razoável gozar o almoço no sofá, é boa educação que se o coma à mesa.
[3] Sal: discípulo de Cristo (Mt 5, 13), de onde se pode deduzir que a tributação proposta para este produto não seja mais que uma medida jacobina de perseguição à Igreja, e se poderá argumentar que é inconstitucional (cf. CRP, art.º 13º, n. 2 e art.º 41º); elemento tão essencial à vida biológica como a água; elemento tão essencial à vida social como a paz[8] (cf. Mc 9, 50); aquilo que falta ao eng. Costa; o poder purificador e revigorante do sal era reconhecido pelos antigos que, depois de cortarem o cordão umbilical ao recém nascido, o lavavam em água e esfregavam com sal, como testemunha Ezequiel 16,4; produto usado por vários povos antigos, incluindo os romanos, para pagar o trabalho, de onde se pode inferir que a proposta de tributação especial para o sal cai no vício da dupla tributação, e se poderá inferir que o Estado consome sal a mais. Não será a tentativa de impor dietas aos portugueses um sinal de hipertensão estatal?
[4] Açúcar: substância cristalina doce à base de sacarose que, ao contrário da marijuana, outra substância cristalina, faz mal à saúde, dá alucinações e cria habituação.
[5] Edível: bom de comer e de digestão saudável tal como o verme para o pardal, o pardal para a cobra, a cobra para o porco, o porco para o cozido à portuguesa, o cozido à portuguesa para o português e o português para o verme; sal e açúcar prolongam a edibilidade a uma vasta gama de alimentos, como salsichas e marmelos, pelo que a sua tributação adicional será mais um atentado estatal à saúde pública.
[6] Porco: quadrúpede com casco não dividido e que não rumina, portanto considerado impuro e impróprio para consumo pelo povo de Israel (Lv 11, 26), mas não pelos sacerdotes do sns que consideram que são açúcar e sal que verdadeiramente causam impureza ritual; animal relacionado com o homem na elegância do seu modo de estar na vida, a ele semelhante no esplendor e beleza do seu corpo, como o indicia o provérbio “se quiseres conhecer teu corpo, abre um porco”, e a ele idêntico na vivacidade e insaciabilidade do seu apetite.
[7] Canibalismo: escola gastronómica antiga, ainda praticada por etnias que não seria politicamente correto aqui nomear, que preserva a natural e sofisticada dieta pré-porcina e mantém o gosto por ingredientes saudáveis e com menor pegada ecológica. Vai uma aposta de que dentro duas ou três legislaturas o pan proporá a sua descriminalização?
[8] Paz: período de equívocos e enganos entre dois de pancada; um dos sete horrores sociais segundo warxismo dialético, sendo os outros a prosperidade, o matrimónio, os bebés, a felicidade, a harmonia e a alegria.