Dia do Pai

Ser pai é fazer de super-homem

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Ser pai é, ao deitar um filho, adormecer quase sempre antes dele. E sentir a sua mão no nosso cabelo. Para saber se estamos ali. E descobrir que, se isso não é o céu, não falta muito para estar perto.

Ser pai é fazer de super-homem. Mesmo quando se tem o coração todo engasgado e a voz nos tremelica. E, mesmo assim, fazermos de conta que nada nos desperta receio nem nos encolhe sempre que espantamos o medo para bem longe de quem nos ama.

Ser pai é, ao brincar, atirarmo-nos para o chão. E andarmos à luta. E fazermos guerras de almofadas. E, claro, ataques de cócegas! E é escangalharmo-nos a rir. E, depois, acabar o “vendaval” num abraço, grande e apertado, que tira o ar. E fazer com que essa força deixe de ser nossa e fique, toda ela, guardada no coração dos nossos filhos.

Ser pai é deitarmo-nos na relva a inventar histórias (que podem ser um bocadinho desengonçadas e, até, patetas!). E fazermos de intrujões. Quando rugimos como um leão ou atacamos como um monstro, terrível e maldito. E divertirmo-nos, metendo sustos. E, depois, salvarmos das manhas dos arrepios quem nós assustámos. E sentirmo-nos mágicos. Outra vez.

Ser pai é ser apanhador de nuvens. E descobrir nelas formas um bocadinho misteriosas e escaganifobéticas. Que mais ninguém, a não ser nós, consegue ver! E, depois, parecermos, apesar de tudo, tão crescidos que, sempre que nos esticamos, quase tocamos nelas. E sermos, de todas essas vezes, poderosos e gigantes. Ou uma espécie de arranha-céus. Simplesmente.

Ser pai é ter sempre um euro guardado para um cavalo, daqueles que nos dão música, e que troteiam sem sair do lugar. Ou para umas máquinas de bolas, com prendas, todas elas sem jeito, lá dentro.  E de todos esses presentes, mesmo depois de sermos repreendidos, alimentarmo-nos com o olhar alegre e agradecido de um filho como se, por alguns momentos, fôssemos uma fada ou um mágico. Ou uma coisa dessas assim. Como, por exemplo, “o pai”.

Ser pai é, num cantinho de nós, apetecer-nos chorar só porque um filho nos diz: “Pai!?… Gosto de ti!”.  E, mesmo que o mundo pareça feito de injustiças e de pessoas zangada e feias, nesse momento ser um bocadinho Natal. E que isso seja um segredo muito bem guardado. Quase só para nós.

Ser pai é não sermos uns sobredotados para contarmos histórias. Mas encantarmo-nos de cada vez que um filho reclama e quase nos garante que não passa sem elas.

Ser pai é, ao deitar um filho, adormecer quase sempre antes dele. E, deixando-nos estar, sentir a sua mão no nosso cabelo. Para saber se estamos ali. E descobrir que, se isso não é o céu, não falta muito para estar perto.

Ser pai é nunca acertamos com a toilette que a mãe imagina ser a certa e a indicada. E, apesar de acharmos que um filho está lindo “de cair para o lado” “alguém” (quem havia de ser?…) nos ralhar porque a t-shirt  tem uma coleção de nódoas. E, mesmo quando deixamos que um filho se besunte, porque é livre e feliz assim, – e lhe pespegamos um par de beijos por sentirmos que, só por isso, ele é mesmo nosso filho – haver quem nos diga (quem havia de ser?…) que não pode ser assim e que, às vezes, parecemos ser até mais crianças que ele.

Ser pai é amuarmos. Devagarinho. Quando um filho nos diz: “Não sou teu amigo”. Só porque não o deixámos fazer tudo. E, sem percebermos a patetice de nos sentirmos destroçados por quase nada, lhe respondemos: “Também não gosto de ti!”.

Ser pai é dar colo. E levantar um filho ao ar. E fazermos de conta que ele é um avião. E, no final, sermos nós quem voa. Só por causa dele.

Ser pai é ser-se distraído! Mesmo que (com toda a força!) tentemos saber, como só a mãe sabe fazer, o nome de todos os amigos dos nossos filhos e conheçamos as mães e os pais deles todos sem os trocarmos nenhuma vez.

E é querermos fazer “cara de maus” e trocarmos o nome dos nossos filhos, sobretudo quando lhes damos um sermão. E, depois, ficarmos sem jeito quando eles olham para nós na esperança de que possamos rir, porque nos atabalhoámos, e nós, de birra, não nos “desmancharmos”.

Ser pai é amar, amar e amar. Sem intervalos nem férias. E sermos tomados pelo medo que o céu desabe sobre a cabeça dos nossos filhos, se não estivermos perto. E, por isso mesmo, não nos sentirmos autorizados nem a morrer nem a desistir. E termos, na exata medida daquilo que eles esperam de nós, a secreta certeza que, mesmo quando não estivermos, seremos pais. Sempre pais. Muito para lá de sempre.

*Eduardo Sá é psicólogo clínico e psicanalista. Este texto foi publicado originalmente em eduardosa.com

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