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A pior seca dos últimos 35 anos. Colheitas perdidas; gado morto em leitos de rios secos. O risco de inundações torrenciais e deslizamentos de terra a aumentar. À medida que a fome vai alastrando e os alimentos são cada vez menos os abundantes, os meios de subsistência de milhões de pessoas – e até mesmo as vidas – estão em sério risco.

Em grande parte da África Oriental e Austral, os efeitos intensos do El Niño – um fenómeno climático global causado pelo aumento da temperatura da superfície do mar – estão a deixar um enorme rasto de destruição. E, como sempre acontece em desastres desta natureza, as crianças e mulheres são quem mais sofre.

Actualmente, um milhão de crianças já sofrem de má nutrição aguda severa (MNAS) – um estado do qual são poucas as crianças mais pequenas que conseguem recuperar se não receberem tratamento imediato.

Na Etiópia, onde 10 milhões de pessoas estão afectadas pela seca, estima-se que 435.000 crianças estejam em risco e que venham a precisar de tratamento urgente contra a MNAS. No Malawi, quase metade de todas as crianças com menos de cinco anos têm atrasos de crescimento e estão em risco de vir a sofrer de MNAS. No Zimbabwe, as taxas de má nutrição nas crianças são das mais elevadas dos últimos 15 anos.

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No Lesoto, a grave escassez de água está a ter consequências pesadíssimas especialmente para as mulheres, as crianças, as pessoas com deficiência e os mais velhos.

Na África Austral, vastas áreas de cultivo estão arrasadas pela seca e as fracas colheitas do ano passado provocaram uma subida em flecha do preço do milho, deixando as comunidades rurais completamente de rastos em consequência das temperaturas mais elevadas da última década. Prevê-se que as próximas colheitas em algumas zonas do sul de Moçambique e do Zimbabwe sejam um completo fracasso.

Em muitos países, os recursos estão a chegar ao limite. As capacidades nacionais, enfraquecidas pelas dificuldades económicas que se juntaram à seca, estão à beira da ruptura – restringindo enormemente a capacidade dos governos para alargar as redes de segurança e outros sistemas de protecção social.

Mesmo na Etiópia, país que tem um dos mais sofisticados sistemas de redes de segurança do continente africano, e no qual o governo investiu mais de 380 milhões de dólares desde o ano passado – 272 milhões de dólares desde Janeiro de 2016 – para proteger os seus cidadãos desta crise, as necessidades estão a ultrapassar rapidamente os recursos.

Os programas de assistência humanitária estão a ser intensificados para responder às necessidades crescentes mas, para salvar vidas e evitar que décadas de desenvolvimento sejam irreversivelmente anuladas, é necessário fazer mais. Precisamos de prestar apoio em dinheiro e assistência alimentar a mais pessoas que deles necessitam. Precisamos de chegar a mais crianças com apoio nutricional especializado para evitar que a subnutrição aumente. E precisamos de expandir as redes de segurança social que minimizam o impacto desta crise, tais como programas de alimentação escolar para que crianças de famílias pobres possam ter pelo menos uma refeição adequada por dia.

A urgência da situação é irrefutável. Mas a ajuda humanitária não está a acompanhar as necessidades imensas. Nem de longe. Na realidade, existe uma enorme lacuna de financiamento – o que é uma tragédia anunciada.

O apelo da UNICEF para a ajuda humanitária em situações causadas pelo El Niño na África Austral está financiado em apenas 22 por cento. O Zimbabwe está prestes a esgotar todo o seu financiamento – e a Swazilândia e o Lesoto não receberam qualquer financiamento.

Na África Austral, o Programa Alimentar Mundial (PAM) recebeu apenas um terço do financiamento necessário para os próximos seis meses, sendo que há necessidade urgente de 200 milhões de dólares. E o que é muito preocupante é que este valor não reflecte novas necessidades, que estão agora a ser avaliadas nas comunidades onde a seca deitou por terra as expectativas das principais colheitas do próximo mês.

Em termos globais, a escassez de financiamento para todas as necessidades humanitárias na Etiópia até ao final de 2016 é de 670.000 milhões de dólares. A maioria desta verba destina-se a alimentos e assistência nutricional.

A combinação das necessidades de financiamento crescentes e a diminuição dos recursos é uma receita para a catástrofe, que, a continuar, acarretará consequências tremendas.

Não há dúvida de que os doadores internacionais estão a ser cada vez mais pressionados pelo aumento da concorrência por recursos humanitários num mundo em que as necessidades causadas por conflitos prolongados, crises crónicas e catástrofes relacionadas com as alterações climáticas estão a aumentar. Mas entre estas necessidades que concorrem entre si, África deve ser uma prioridade.

O custo da inacção é tremendo. Estudos sobre os Custos da Fome em África encomendados pela União Africana revelam o impacto da subnutrição na produtividade em países que não aguentam retrocessos económicos: mais de 16 por cento do Produto Interno Bruto da Etiópia tem vindo a ser perdido anualmente; no Malawi mais de 10 por cento.

Por trás e para além destas estatísticas está o custo em vidas humanas. A mortalidade infantil associada à subnutrição fez diminuir em 14 por cento a mão-de-obra em África. Os atrasos de desenvolvimento e a subnutrição afectam não apenas a saúde física, mas também o desenvolvimento cognitivo, diminuindo a capacidade das crianças para aprender e, quando se tornam adultos, para sustentar as suas famílias.

A acção deve ser orientada no sentido de intervenções de curto prazo e iniciativas de longo prazo que protejam as populações da seca e de outros choques. A ajuda deve ser ajustada por forma a proporcionar alimentos essenciais e apoio financeiro, bem como apoio nutricional para evitar que as crianças sucumbam à má nutrição aguda severa. Os programas que reforçam a resiliência e que protegem as crianças, as suas famílias e comunidades devem ser expandidos.

Sabemos que estas medidas salvam vidas – se agirmos agora para ajudar os países mais afectados a pô-las em prática.

O tempo de agir é agora – antes que seja demasiado tarde para impedir que uma ameaça iminente se torne numa catástrofe para as pessoas de África.

Ertharin Cousin é Directora Executiva do PAM e Anthony Lake e Director Executivo da UNICEF