Há um ano enfiados em casa, estamos todos desejosos de viajar. Os privilegiados, claro, que infelizmente serão cada vez menos, neste país que caminha a passos largos para a pobreza generalizada. Ainda esta semana Portugal foi notícia por ser o segundo país da zona euro com maior número de falências.

Criticada por muitos amigos, fui sempre fiel à TAP. Mesmo sendo mais cara, atrasando-se sempre, serviço muitas vezes sofrível, as poucas viagens que fiz foram quase sempre na TAP.

E em Dezembro resolvi comprar bilhete, na TAP, para mim e para os meus filhos para uma saída de quatro dias a Amsterdão. Quando Amsterdão entrou em lockdown percebi logo que a minha viagem ia sair frustrada. Não ia poder fazer muito numa cidade fechada. Mas a TAP não tinha culpa disso. Podia sempre haver um lado comercial na gestão da empresa que, em situações anómalas, permitisse aos seus clientes alterar as viagens sem grandes ou nenhumas penalizações mas, lá está, a TAP nunca foi famosa por esta sua vertente.

Qual não é, no entanto, o meu espanto, quando no actual estado de emergência em que estou – como todos os portugueses – proibida de sair do país, a TAP se recusa a devolver-me o dinheiro por uma viagem que não posso, por impedimento legal, realizar!

Argumento da TAP – só lhe devolvemos o dinheiro se o voo for cancelado. Mas o voo não foi cancelado! E o que é que eu tenho a ver com isso? Não faço ideia o que está na base da decisão de cancelamento dos voos, mas o que é certo é que estou, por lei, proibida de sair do país. Se sair sequer de casa, senão para as excepções previstas, posso ser acusada de crime de desobediência. E sair do país faz parte nas liberdades que não tenho!

Aliás pensar em sair do país quando nem posso beber um café fora de casa ou mesmo comprar uma garrafa de água num drive-through, onde nem do carro saio, é de facto uma loucura! E por isso o governo proibiu-me. Sair do país só por razões humanitárias… agora para passear? por lazer? Era o que faltava! Deve até ser sinal de que a carga fiscal ainda tem espaço para ser aumentada. Enquanto houver trocos para gastar em lazer, os portugueses podem ser ainda mais apertados! Diria mesmo, esmagados! Ainda há coisa de um mês passou na RTP um documentário sobre os Gulags – recomendo que (re)vejam. Alguém anda lá a passear? A perder sequer tempo com algo que lhe proporcione algum prazer? Não!

Portanto, além de accionista à força, sem qualquer possibilidade de venda da posição e, receio, cada vez mais entalada até ao fim dos meus dias (dos meus, dos meus filhos, dos meus netos…), ainda me roubam o dinheiro de bilhetes que comprei mas que não posso utilizar porque o Estado – o meu representante enquanto accionista – não deixa!

Além do inacreditável que isto é, para não dizer ridículo ou ilegal, é assim que a TAP quer recuperar depois da pandemia? Passa pela cabeça de alguém que eu vou continuar a privilegiar a TAP quando puder sair do país? Ou será que, ao contrário, vou colocar a TAP como a última opção? A TAP saberá a concorrência que tem no mercado? Terá ideia do que significam os clientes que, numa altura como esta, se dispuseram a confiar na empresa e a comprar bilhetes? Para ficarem “agarrados”? Nem dinheiro, nem voucher, nem nada? Meus queridos, podem ter a certeza que assim não vão lá. Podem até reestruturar à vontade: sem clientes, não há avião que voe e comigo vão deixar de contar.

Claro que falar em TAP e em reestruturação, é falar em Pedro Nuno Santos. Esse rapaz iluminado que a propósito da sua permanência enquanto ministro e deputado da AR e em resposta a outro deputado dizia, com toda a arrogância que já lhe conhecemos que “(eu) estou aqui e vou estar aqui muitos aninhos, pode ter a certeza do que lhe estou a dizer”.

Esta certeza e arrogância de Pedro Nuno Santos percebe-se. Estamos em Portugal. PNS é do PS, logo, é intocável. Não há imputação de responsabilidades, logo, é intocável. Não há exigência de resultados, logo, é intocável. Não há respeito pelos portugueses, logo, é intocável.  E é “só” por isto que este roubo aos clientes da TAP é possível.

Cereja no topo do bolo? Continuamos – sem que se vislumbre qualquer hipótese de mudança – a ter uma Assembleia da República eleita exclusivamente por círculos plurinominais. E por isso, PNS sabe que os portugueses não têm de o querer ver na AR, ele estará lá sempre enquanto o PS quiser.

Fui espreitar o curriculum do PNS. Imagine-se que trabalhou na empresa da família e, uma vez secretário geral da Juventude Socialista, iniciou a sua carreira política donde, está certo, nunca mais sairá.

O PNS, de cima do seu pedestal, acha que dá lições aos gestores do mundo inteiro. Ainda o ano passado quando comprou mais de 50 carruagens de comboios a Espanha – que por acaso além de estarem cheias de amianto, nem tão pouco funcionam – dizia “ter sido um grande negócio ao alcance de poucos” e que “Portugal podia ensinar outros países a fazer bons negócios”.

Nem sei como é que nenhuma multinacional o vem buscar, temos tantos portugueses nos mais altos cargos de empresas de relevo – como Horta Osório (ainda líder do Lloyds e que irá para o Credit Suisse), António Simões (líder do Santander Europa) ou Carlos Tavares (líder do grupo Stellantis, correspondente à junção dos grupos PSA e FCA) – mas PNS não sai daqui! É mesmo o amor à pátria que não lhe permite largar o tacho, perdão, o serviço público porque incompetência, perdão, competência, não lhe falta. Peço desculpa, a arrogância deste homem deixa-me disléxica. Logo agora que cada vez mais podemos dizer menos (soa a novilíngua em fase de teste).

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